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«Foi uma loucura após o jogo de Alkmaar» – Entrevista BnR com Miguel Garcia

Frederico Seruya · 23 min

«Foi uma loucura após o jogo de Alkmaar» – Entrevista BnR com Miguel Garcia
Foto: Arquivo pessoal Miguel Garcia

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O Bola na Rede esteve à conversa com o herói de Alkmaar, Miguel Garcia, e passou em revista a sua carreira, desde os primeiros toques na bola na terra que o viu nascer, Moura, na região do Baixo Alentejo. Seguiu-se a vinda para o Sporting com apenas 14 anos, onde o sonho de ser profissional de futebol foi mais forte do que as saudades de casa. Lançado por Fernando Santos na equipa principal dos leões, fez carreira como lateral direito e foi em Alvalade que ganhou o epíteto de herói que até hoje o acompanha. A gratidão eterna encontrou-a em Olhão e a glória de voltar a uma final europeia surgiu mais a norte, em Braga. Para lá da fronteira, recorda o ambiente escaldante nos estádios da Turquia, a desilusão em Maiorca e a surpresa que foi a India, onde ia de mota sem capacete para os treinos.

– Avançado em Moura, saudades em Lisboa e lateral direito em Toulon –

Bola na Rede [BnR]: Começas a jogar no Moura, clube da tua terra. Como se dá a passagem para a formação do Sporting?

Miguel Garcia [MG]: Iniciei no Moura AC quando tinha nove anos. Já jogava mais nas escolinhas, nós jogávamos lá no pavilhão do Moura com o sr. José Correia, que nos ensinava a passar a bola, a dominar. Mais tarde, quando tinha nove anos, consegui tirar o BI e ir para o Moura AC, e assim foi até aos 14 anos. Com essa idade, fui fazer o torneio interassociações em Lisboa, o Torneio Lopes da Silva. As coisas correram muito bem e acabei por ser convidado para vir para o Sporting. Fiquei lá até aos 24, 10 anos, quatro deles na primeira equipa.

BnR: Como foi a abordagem do Sporting?

MG: Na altura joguei na Associação Distrital de Beja, o Prof. Alexandre Paiva falou diretamente com o meu treinador e ele falou comigo e com os meus pais. Posteriormente, falámos também com o Moura e acabei por vir para Lisboa um bocadinho contra a vontade da minha mãe, que não queria deixar-me sair tão cedo de casa, principalmente para Lisboa. Mas lembro-me que falámos com tranquilidade e as coisas correram bem.

BnR: Como lidaste com as saudades de casa? Alguma vez pensaste em desistir?

MG: Desistir do futebol não, mas voltar para casa sim (risos). Ao início foi complicado porque Moura é uma cidade pequena em que toda a gente se conhece, tinha bastante liberdade, não tinha horas para chegar a casa e estava sempre na rua com amigos. Quando cheguei a Lisboa, ter que apanhar dois autocarros, metro, acordar às 06h30 para ir para a escola e chegar a casa às 22h…

BnR: Ficaste no centro de estágios desde o início?

MG: Não. Fiquei em casa de uns tios meus e tinha que acordar às 06h30 para ir para a escola em Telheiras. Ou apanhava três autocarros ou dois autocarros e um metro. Depois da escola, tinha o treino ao final do dia e a seguir jantava lá perto do Estádio de Alvalade. Voltava só depois do jantar por isso chegava a casa às 22h. Não estava habituado a essa vida e foi com bastante sacrifício que consegui ultrapassar essa fase, porque inicialmente custou mesmo muito, as saudades da família, dos amigos… o primeiro ano foi muito complicado, chegou a Dezembro e eu queria voltar para Moura. Apesar de jogar e as coisas estarem a correr muito bem, havia outros fatores, a família e os amigos, assim como a cidade. Mas o treinador falou com os meus pais, acabei por ficar e, passado um ano, dois, já estava mais habituado. Também fiz bastantes amigos na escola e colegas de equipa, aí as coisas foram mais tranquilas porque comecei a gostar de estar em Lisboa e de jogar no Sporting.

BnR: Num momento como esse, a que é que te agarras para não desistir?

MG: Naquela idade agarrei-me mais ao facto de o futebol ser a minha paixão, é o que eu gosto de fazer. Não havia desporto nenhum ou outra atividade que me entusiasmasse tanto como o futebol. Quando somos miúdos, o futebol é uma coisa de loucos e lembro-me que, na altura com 14 anos, foi a decisão que eu quis e os meus pais puseram-me à vontade e disseram-me “Tu é que sabes. Se queres ir vais, mas atenção, nós não estamos lá”. Fui eu que tomei essa decisão e lembro-me perfeitamente que os meus pais, juntamente com os meus treinadores na altura, Leonel Pontes e Paulo Leitão, convenceram-me e disseram-me que eu tinha muita qualidade, que ia ter um futuro pela frente e que era um desperdício voltar para Moura e não ficar em Lisboa. Eu comecei a interiorizar isso, sempre fui apaixonado por futebol e acabei por conseguir inverter a situação de não querer estar em Lisboa para gostar de estar aqui.

BnR: Quem foram as tuas referências quando eras mais novo?

MG: Em miúdo, os meus ídolos eram o Figo e o Van Basten. Lembro-me de dar uma entrevista ao jornal de Moura, o jornal “A Planície”, e dizer isso. Não me recordo depois mais tarde, quando fui para o Sporting, quem eram os meus ídolos. Gostava muito do Luís Figo porque jogava no Sporting e porque era um grande jogador.

BnR: Apoiavas algum clube em miúdo?

MG: O Sporting.

BnR: Jogaste sempre a lateral direito?

MG: Eu nunca joguei a lateral direito na formação. Eu no Moura jogava a avançado, dos nove aos 11. Depois baixei para médio centro e fui para o Sporting nessa posição, a 8 ou a 6. Fiz a minha formação toda a trinco, médio centro, pouca gente sabe disto. Mesmo nas seleções, desde os sub-17 aos sub-20 joguei sempre a médio defensivo. Eu comecei a joga a lateral direito no Torneio de Toulon, em 2003, acho que foi a última vez que Portugal ganhou.

Miguel Garcia jogou a trinco na formação do Sporting. Nesta fotografia está com a braçadeira de capitão
Fonte: Arquivo pessoal Miguel Garcia

BnR: O que se passou exatamente?

MG: O nosso lateral direito, o Baptista, teve uma lesão no joelho e não havia mais ninguém. O Rui Caçador veio falar comigo “Epá Miguel, tens que me ajudar, não tenho mais ninguém. De certeza que fazes bem essa função porque és agressivo, és super profissional, tens que me ajudar”. Eu disse “Ok mister, tudo bem. Eu quero é jogar”. Joguei, 3-0 à Inglaterra, 3-0 à Argentina, 3-1 à Itália na final. Fizemos um torneio espetacular e foi assim que eu consegui uma oportunidade na equipa principal do Sporting, porque na altura não havia laterais direitos, tinham ido buscar o Mário Sérgio mas faltava um. Foi assim que eu comecei a jogar a lateral direito.

BnR: O que fizeste com o primeiro ordenado?

MG: Não me recordo muito bem… Quando era júnior ganhava 60 contos [300 euros] e não tinha dinheiro para tirar a carta de condução, até foi o Gisvi que me emprestou o dinheiro. A carta custou-me cerca de 500 euros e depois paguei-lhe. Eu não era muito esbanjador, também não ganhava muito. Comprava roupa de vez em quando, normalmente era no vestuário que eu gastava mais dinheiro.

BnR: Jogaste na formação com Cristiano Ronaldo e Quaresma, nessa altura já estavam muito acima dos demais?

MG: Lembro-me quando eu cheguei ao Sporting com 14 anos, o Quaresma estava na minha equipa, o Ronaldo estava nos infantis ainda. Lembro-me que o Quaresma já desequilibrava bastante, era ele e o João Paiva que marcavam os golos todos da nossa equipa. Eu fazia muito a comparação do Moura com o Sporting, quando entrava nos jogos pensava assim “Tenho o Quaresma, tenho o João Paiva, de certeza que vamos ganhar” (risos). Mais tarde, quando passei para júnior já apanhei o Ronaldo, ele era juvenil mas jogava nos juniores já, e voltei a ter o mesmo pensamento “Temos o Ronaldo, estamos tranquilos”.

BnR: Algum episódio deles que recordes em concreto?

MG: Lembro-me perfeitamente que um dia estávamos a perder um jogo 1-0, estava mesmo a acabar. Tivemos dois livres à entrada da área, o Ronaldo marcou os dois golos e acabámos por ganhar 2-1. Na altura já se notava a qualidade. Sabíamos que tanto o Quaresma como o Ronaldo iam chegar a jogadores profissionais e à primeira equipa certamente, mas jogar em grandes clubes europeus como eles jogaram se calhar ninguém tinha essa noção.

– Carreira no Sporting CP –

BnR: Como se dá a tua passagem para a equipa principal do Sporting?

MG: Foi através do torneio de Toulon, jogámos muito bem e, como eu tinha jogado a lateral direito no torneio, acabei por ser chamado para essa posição. Aí pensei, vou dar o meu melhor, tentar ficar no plantel e, se não ficar, volto para a equipa B e continuo a trabalhar. Mas consegui agarrar a oportunidade e ficar no plantel.

BnR: Quem é que te lançou na equipa principal?

MG: Fernando Santos.

BnR: Como foste recebido? Quem eram os líderes de balneário?

MG: Fui muito bem recebido. Os líderes na altura eram o capitão Pedro Barbosa, Sá Pinto, Beto, Rui Jorge, Paulo Bento. Foi no ano em que também contrataram o Ricardo, veio também o Rochemback e o Liedson. Pedro Barbosa foi quem me recebeu, espetacular, um excelente capitão, um grande líder que conseguiu receber muito bem a mim e não só. Lembro-me de Carlos Martins, Paíto, Custódio, jovens que queriam agarrar a sua oportunidade e eles sempre nos ajudaram bastante.

BnR: Vamos ao dia 5 de maio de 2005?

MG: (risos) Vamos a isso.

BnR: Consegues descrever-me como viveste a jogada do teu golo?

MG: Lembro-me perfeitamente que era o último lance da partida. Toda a gente foi a esse canto e eu pensei “Ok, já sei que é o Tello que vai bater este canto, ele bate ao primeiro poste”. Ele fazia aqueles cruzamentos tensos ao primeiro poste e pensei “Vou tentar a minha sorte”. Acho que a bola é que veio ter comigo (risos), porque eu acho que já estava ali naquela zona. Foi um momento muito emotivo, um momento fantástico, não só meu mas também toda a equipa. Mesmo o jogo em si, foi um jogo de loucos porque entrámos no jogo com a eliminatória na mão, eles marcam, nós marcamos, eles marcam e voltam a marcar no prolongamento. Nós depois terminamos o jogo com o meu golo, que nos apurou para a final. Foi uma loucura, logo após o jogo chegamos a Lisboa e estavam milhares de pessoas à nossa espera no aeroporto. Foi um dos momentos mais lindos que eu presenciei no futebol e no Sporting.

BnR: Pela televisão é difícil perceber, com que parte do corpo é que rematas?

MG: Se queres que te diga foi um misto, ombro e cabeça. Ainda bem que foi com esta zona, porque se fosse com a cabeça se calhar a bola saía um bocadinho mais para cima, se fosse com o ombro se calhar ia para baixo. Foi mesmo ombro e cabeça para entrar ali no cantinho.

Miguel Garcia ficou eternizado como o “Herói de Alkmaar”
Fonte: Sporting CP

BnR: Sentes que houve excesso de confiança antes da final da Taça UEFA?

MG: Na altura jogávamos sempre para ganhar, era um futebol muito ofensivo. Talvez tenha havido algum excesso de confiança após o intervalo, lembro-me de estarmos a ganhar 1-0 ao intervalo e de já estar a pensar onde é que ia festejar o título, talvez tenha sido por isso… Agora é fácil falar mas devíamos ter recuado um bocadinho mais, jogarmos um bocadinho melhor taticamente porque nós queríamos marcar o segundo e o terceiro. Na primeira parte podíamos estar a ganhar dois ou três a zero. Depois, eles marcam um golo de bola parada que dá o 1-1, nós queremos ir para cima sempre com posse de bola e acabámos por, no contra-ataque, sofrer o 2-1 e o 3-1. Foi muito injusto mas o futebol é mesmo assim.

BnR: Vamos andar uns dias para trás. 33ª jornada do campeonato, jogo decisivo com o Benfica, na Luz. Na tua opinião, no lance do golo há ou não falta do Luisão sobre o Ricardo?

MG: Na minha opinião é falta claríssima. Porque o Ricardo sai e há ali um contacto, na minha opinião o árbitro só não marca porque estávamos a jogar no Estádio da Luz. Se fosse no nosso estádio teria sido falta. Há contacto e mesmo que não seja dentro da pequena área, que é o que se falava, mas quando há um contacto naquela altura as regras era que existiria falta e nesse caso o árbitro não marcou. E tirou-me um título, a mim, à nossa equipa e a todos os sportinguistas, que era mais do que merecido.

BnR: Essa época é recordada negativamente porque o Sporting acabou por perder tudo no final. Como se recupera disso?

MG: A volta aos momentos negativos dá-se voltando a jogar o mais rápido possível, é voltar a jogar outra vez, ganhar outra vez e esquecer esses momentos. Mas, naquele ano, conseguimos esquecer indo de férias para casa e esquecer um bocadinho o futebol. Eu fiz isso e voltei com mais vontade no ano seguinte.

BnR: Sentes que José Peseiro foi injustamente crucificado?

MG: Acho que as pessoas que fazem essas críticas deviam era tentar perceber o que é que se passou e como é que lá chegámos. Chegámos lá pela fantástica e excecional gestão do plantel que ele conseguiu fazer com o Sporting, porque se olharmos para os números que lá estavam é difícil gerir 20 e tal jogadores e ele conseguiu fazê-lo muito bem. Não me recordo do Sporting nos últimos anos lutar por dois títulos, um deles europeu, é muito complicado. Não falo de uma Taça de Portugal, uma Taça de Liga, falo de lutar pelo campeonato até à última jornada e ir a uma final europeia. Não me recordo do Sporting ter feito isso nos últimos 20 anos e, se o fizemos, grande mérito foi também do mister Peseiro.

– Lesões e o regresso a Portugal –

BnR: Sais do Sporting para o Reggina mas acabas por não jogar devido a uma lesão grave. O que se passou exatamente?

MG: A lesão foi no joelho. A pré-época foi muito dura, fomos para as montanhas no norte de Itália e começou-me a doer um pouco o joelho. Eu não quis parar, quis continuar a treinar e a jogar porque era a primeira vez que estava fora do país. Como estava a jogar a titular, não dizia que me doía o joelho para não perder o lugar. Foi um erro tremendo da minha parte, devia ter parado, recuperado e, quando parei, já foi tarde. Lembro-me de ter feito a pré-época toda, fiz oito ou nove jogos e duas semanas antes de começar o campeonato já nem conseguia andar, já coxeava.

BnR: Aí percebeste que era inevitável a paragem?

MG: Sim, percebi que não podia continuar assim porque já me doía o outro joelho até. Tive que ser operado, fui para Portugal para recuperar e eles chamaram-me para começar a treinar outra vez passados cinco meses. Mas ainda estava com dores, obrigaram-me a treinar e eu nunca melhorei. Acabei por rescindir amigavelmente e voltei para Portugal para fazer o resto da recuperação.

BnR: Sentes que as lesões graves que tiveste impediram-te de fazer uma carreira ainda melhor?

MG: Sinceramente, a lesão nunca vem em boa altura mas se não fosse a lesão se calhar nunca teria voltado a chegar ao mais alto nível, que foi outra final europeia. Se me tivesse mantido em Itália, se calhar continuava no Reggina ou se calhar não jogava e daí saía para uma Segunda Liga. Não faço ideia o que é que me poderia ter acontecido. Aconteceu desta maneira e coube-me a mim dar a volta por cima.

BnR: Como surge a oportunidade de regressar a Portugal?

MG: Quando eu saio do Reggina tinha o contrato apalavrado com o Recreativo de Huelva, na altura estava lá o Carlos Martins e o Beto, mas quando saio de Itália ainda estava com dores e não conseguia recuperar. Então, voltei para uma segunda operação, estive mais oito meses parado e perdi esse contrato com o Recreativo de Huelva. A partir daí, comecei a treinar sozinho em Portugal. Fui convidado para integrar o estágio do Sindicato dos Jogadores e então comecei a sentir-me melhor e que conseguia voltar a jogar futebol.

BnR: O que resultou desse estágio do Sindicato?

MG: Foi aí que tive a oportunidade de ir fazer duas semanas à experiência no Olhanense, através do Jorge Costa, era na altura o treinador. Graças a Deus que fui porque era uma oportunidade dessas que eu precisava para demonstrar a toda a gente que, apesar de ter sido duas vezes operado ao joelho, continuava em excelentes condições para continuar a minha carreira.

BnR: Qual a melhor memória da passagem pelo Olhanense?

MG: O Olhanense foi uma excelente decisão e agradeço a todos os que me deram essa oportunidade. Encontrei uma excelente equipa técnica, espetaculares todos, toda a gente me deixou bastante satisfeito e me deu confiança. Depois, apanhei também um plantel espetacular, jogadores super motivados, porque eles tinham subido à Primeira Divisão, e receberam-me muito bem. O Rui Duarte que era o capitão, o Carlos Fernandes que era dos mais velhos, o guarda-redes Bruno Veríssimo, o Rui Baião. Tínhamos uma excelente equipa, tínhamos na altura também alguns miúdos do FC Porto, o Ventura, o Castro, o Rabiola. Tínhamos uma equipa muito equilibrada por isso é que conseguimos a manutenção na Primeira Divisão.

BnR: Fazes parte de duas grandes épocas do SC Braga. Na primeira, estiveram muito perto do Benfica de Jorge Jesus…

MG: Sim, quando vou para Braga vou a meio da época, em Janeiro. O Braga nessa altura estava a fazer um excelente campeonato e acabamos o campeonato a lutar pelo 1º lugar. Jogámos na última jornada contra o Nacional, se nós ganhássemos e se o Benfica empatasse nós éramos campeões, acho que era assim. O Benfica acabou por ganhar o jogo e ficámos em 2º lugar, foi uma época em que fizemos história em Braga, porque o Braga nunca tinha conseguido o 2º lugar.

BnR: Em 2010/11, chegam à final da Liga Europa. Era uma missão impossível derrotar o FC Porto de André Villas-Boas?

MG: Não era uma missão impossível mas era uma missão muito complicada, porque apresentavam um futebol muito bom, o Porto ganhou a todas as equipas que lhe apareceram pela frente. Hulk, Falcao, Varela, aquilo era uma máquina de fazer golos mas nós também tínhamos uma equipa fantástica, jogadores que tinham passado por clubes grandes. Na minha opinião, foi o melhor plantel que o Braga teve alguma vez, porque nós conseguimos ir à Liga dos Campeões, a uma final europeia e isso só se consegue com grandes jogadores, grandes pessoas e também com uma gestão muito forte da identidade do Braga.

BnR: Qual era a grande força desse SC Braga?

MG: Foram duas épocas muito boas em que nós em casa sofríamos poucos golos. Lembro-me que na Liga Europa, nas eliminatórias, acabámos por não sofrer golos. Liverpool, Dínamo Kiev, Benfica, Lech Poznan, não sofremos golos, só sofremos na Liga dos Campeões contra o Shakhtar, perdemos 0-3, mas quem viu o jogo e quem se lembra, eu acho que nós merecíamos ter ganho. Perdemos 0-3 e merecíamos ter ganho, é difícil dizer isto e acreditar, mas merecíamos. Em casa éramos muito fortes e isso fez-nos chegar novamente ao topo da classificação. Ficámos em 4º mas poderíamos ter ficado em 3º no último jogo, em que perdemos 0-1 em casa. Não jogaram seis ou sete titulares para poupar para a final da Liga Europa, não joguei eu, Sílvio, Paulo César. Foi uma época muito boa, que deu uma motivação e um entusiasmo a todos nós por estarmos sempre a lutar por grandes objetivos.

BnR: Na meia-final eliminam o Benfica. Saem “vivos” da primeira mão na Luz porque marcam um golo, apesar de perderem 2-1. Como era o ambiente no balneário antes do jogo da segunda mão?

MG: Nós já tínhamos chegado muito à frente na Liga Europa, chegar a uma meia-final e com um adversário como o Benfica, sabíamos que era muito complicado passar a eliminatória. Na eliminatória anterior com o Dínamo Kiev também tinha sido difícil, antes dessa o Liverpool também muito difícil. Nós acreditámos sempre porque nós já tínhamos passado por esses clubes, tínhamos lá jogadores como eu, Hugo Viana, Custódio, Alan, Artur, que tinham passado por clubes grandes. Sabíamos que não era impossível, já lá estivemos, temos qualidade e em casa somos muito fortes, em casa ninguém nos ganha. Foi assim que conseguimos passar a eliminatória, porque sabíamos que, se fizéssemos um golo, era quase impossível marcarem-nos em casa. Quando marcámos o golo, tivemos a certeza que íamos passar.

BnR: Que recordações tens do Domingos Paciência?

MG: Aprendi bastante não só com o Domingos mas também com a equipa técnica, com o Miguel Cardoso e o Rui Santos. Pessoas muito competentes, aprendi bastante no processo defensivo, por isso é que tivemos frutos em termos defensivos, principalmente como referi em casa, raramente sofríamos golos porque treinávamos muito esse processo. Acho que nem em Itália tinha aprendido tanto em termos táticos e defensivos como aprendi no Braga. Isso levou-me a evoluir bastante como jogador e também o ambiente que se vivia lá, entre nós, mesmo equipa técnica, havia muita confiança e entreajuda entre nós todos e isso levou-nos a lutar por objetivos que o Braga nunca tinha lutado anteriormente.

– Experiência no estrangeiro e fim da carreira –

BnR: Fala-me da Turquia, o que recordas das duas épocas lá?

MG: Foi um campeonato que eu não estava à espera, são fanáticos por futebol, estádios sempre cheios e a competitividade é muito superior aqui à nossa. Porque uma equipa que luta para não descer ou que desce, quando joga em casa pode ganhar a um grande, há muita competitividade. Por isso, foi um dos aspetos que eu gostei mais na Turquia, todos os jogos eram competitivos, não havia equipas fracas. Qualquer equipa do meio da tabela pode descer, o Bursaspor e o Kayserispor neste momento estão na Segunda Divisão. Aqui em Portugal é impensável, por exemplo um Braga, um Guimarães, um Belenenses, tudo bem que o Guimarães já desceu há uns anos atrás, mas na Turquia é normal uma equipa que luta para a Liga Europa, como é o caso desses clubes que referi, descerem de divisão porque o campeonato é muito competitivo.

BnR: Foi onde encontraste o melhor ambiente nos estádios?

MG: Sem dúvida. Íamos jogar com o Fenerbahçe, com o Galatasaray, estádios completamente cheios, ambiente espetacular. Mesmo no nosso estádio, 30.000 pessoas e estava sempre cheio, toda a gente a puxar pela equipa, uma grande festa. É impossível entrar num jogo e não estar motivado. Eu sentia-me jogador, importante, e depois não queremos deixar mal as pessoas que nos apoiam, toda a gente ali dava o máximo.

BnR: Uma experiência diferente da do Maiorca?

MG: Tive só uma época no Maiorca mas na minha carreira toda foi onde eu gostei menos de jogar. As coisas correram bem até janeiro, eu cheguei tarde, saí da Turquia em Julho e acabei por ir para o Maiorca só no final de agosto. Começo logo a jogar e até janeiro joguei quase sempre só que o Maiorca, apesar de ter boas condições de trabalho, em termos de adeptos em si foi o clube onde eu gostei menos de estar. Lá, quando as coisas não correm bem, ninguém aparece no estádio, ninguém apoia os jogadores, sinceramente foi uma experiência que não gostei muito. A única coisa que gostei foi de ter lá vivido, perto do mar, bom tempo, qualidade de vida, isso sim.

BnR: Jogaste ainda na Índia, que condições encontraste a nível desportivo?

MG: Foi uma surpresa bastante agradável, não tinha noção. As condições de trabalho não posso dizer que eram iguais ao Sporting ou ao Braga, não eram, mas os estádios em si eram bons. Nos jogos havia sempre festa, fogo-de-artifício, ambiente espetacular, cobertura televisiva, o marketing em si à volta do campeonato, a Indian Super League, fantástico, uma surpresa agradável. Condições de treino não havia assim grandes campos de treino para treinar, também porque os jogos eram de quatro em quatro dias, era mais recuperação que treinos em si, mas foi uma surpresa bastante agradável porque não estava à espera das condições que nos proporcionaram e também do futebol em si.

Miguel Garcia terminou a carreira na India
Fonte: Arquivo pessoal Miguel Garcia

BnR: E em relação à qualidade do futebol praticado?

MG: A qualidade dos indianos não é muito grande, se calhar em comparação estamos a falar de um CNS, uma 2ª Divisão B, mas depois levando para lá jogadores com uma qualidade acima da média, como Del Piero, Anelka, Ljungberg, Roberto Pires, que estavam já em final da carreira mas continuavam a ter muita qualidade. Isso equilibrava um bocadinho o campeonato e era um campeonato interessante porque todas as equipas podiam ser campeãs, isso é que é giro. Pelo menos naquele ano os orçamentos eram todos iguais, cada um escolhia os jogadores que queria e foi giro porque ninguém sabia quem era o favorito, quem ficava a meio da tabela ou quem era o último. Foi interessante a passagem na Indian Super League. Logo após ter terminado, fui para o Sporting Goa, que era a antiga primeira divisão deles. Era uma liga um bocadinho mais fraca porque só permitiam três estrangeiros e aí havia pouca gente no estádio, condições de treino e trabalho muito abaixo da média aqui em Portugal. Mas foi uma experiência de que também gostei porque eu ia para o treino de mota, sem capacete. Acabava de treinar, eu é que tinha que levar a minha roupa para casa para lavar.

BnR: Adaptaste-te bem à vida lá?

MG: Sim, sempre me adaptei bem em todos os sítios por onde passei. Eu achava isso giro porque tinha passado por clubes super profissionais em que tinha tudo feito, queria uma coisa e tinha. Ali na India, nesta liga, a I-League, não. Eu ia de mota, já ia equipado, as concentrações eram lá no estádio, não havia centro de estágio. Não havia autocarro, combinávamos ir juntos, havia jogadores que tinham carro e nos dias dos jogos combinávamos três ou quatro e íamos lá ter.

BnR: Um jogador de futebol lá não é uma vedeta?

MG: Mais ou menos, porque o desporto-rei lá é o cricket. Quando eu fui para lá foi a primeira edição da ISL por isso se estivermos a falar neste momento em si, passados cinco anos, se calhar os jogadores já são reconhecidos na rua. Na altura não, era tranquilo.

BnR: O que é que foi mais frustrante, a final da Taça UEFA perdida em casa, as lesões ou nunca ter chegado a internacional A?

MG: Hum… acho que foi ter perdido a final em casa, porque as lesões fazem parte da carreira de um jogador. Toda a gente teve uma lesão, mais grave ou menos grave, cabe-nos a nós dar a volta por cima, por isso encarei isso com normalidade, são momentos tristes que se conseguiu dar a volta por cima. Ser internacional A era um dos objetivos, não consegui. Estive muito perto de ter sido porque o Scolari acabou por falar comigo pessoalmente e tudo. Acabei por não conseguir esse objetivo mas continuei sempre a trabalhar para estar sempre no limite das minhas qualidades e representar clubes que lutassem sempre por títulos.

BnR: Qual a melhor lição que o futebol te deu?

MG: Lutar pelos nossos sonhos. Desde miúdo que o meu sonho sempre foi ser profissional de futebol e uma coisa que o futebol me ensinou foi a não desistir dos nossos sonhos, nunca baixar os braços e lutar sempre por aquilo que nos queremos.

BnR: Inevitável comentar a situação atual. Qual é a tua opinião sobre como deverá ser o desfecho desta época?

MG: É complicado para as pessoas competentes e que têm de decidir o que é que é o melhor desfecho dos campeonatos. Acho que isto depende muito do tempo que isto durar, temos que seguir indicações superiores do Governo. São decisões complicadas porque se calhar a Liga quer retomar o campeonato em final de maio ou em junho mas será que nessa altura já conseguimos estar todos na rua? O problema é esse, na minha opinião devíamos terminar os campeonatos, nem que fosse em setembro ou outubro porque é injusto para equipas que estão a lutar para ser campeãs ou que vão subir de divisão ou aquelas que estão agora abaixo da linha de água mas podem subir na classificação. Acho que é injusto pensar em não terminar o campeonato, nem que terminem em outubro, novembro ou dezembro mas terminem e recomeçavam a próxima época em janeiro.

BnR: Mas há a questão da UEFA, que precisa de ter até ao início de agosto as equipas que vão participar nas competições europeias da próxima época…

MG: Não sabia dessa indicação da UEFA. É complicado decidir, vão haver injustiças…

BnR: Se ainda estivesses no ativo, oferecer-te-ias para abdicar de parte do salário?

MG: É uma situação complicada, isso dependia muito também do que é que eu teria neste momento posto de parte. Depende das obrigações que teria nesta altura, é uma decisão complicada, se estivesse mais confortável em termos financeiros certamente que abdicaria de uma parte do meu salário. Se não estivesse confortável e se dependesse desse dinheiro para viver e fazer face às minhas obrigações, aí já era mais complicado porque para abdicar do meu salário teria também que não cumprir com obrigações que teria neste momento. Acho que dependia sempre da minha situação financeira no momento, mas compreendo que é complicado, depende da vida das pessoas, das obrigações que têm. Está bem que neste momento já há moratórias para os créditos aos bancos mas há outras despesas, colégio dos filhos, por exemplo, ninguém está a fazer moratórias, as pessoas têm que comer, comprar coisas para se tratarem, comprimidos, luz, gás, água, telemóvel, isto tudo junto ao fim do mês é muito dinheiro e se houver essa redução salarial para muitos jogadores vai deixá-los numa zona difícil. É complicado e espero que passe rapidamente para o bem de todos.

– Ao primeiro toque –

BnR: Qual é para ti o melhor momento da tua carreira?

MG: O golo ao AZ Alkmaar.

BnR: Um estádio?

MG: Estádio de Alvalade.

BnR: Qual foi o jogador com quem mais gostaste de jogar?

MG: Alan.

BnR: Qual foi o guarda-redes que mais confiança te transmitia?

MG: Artur.

BnR: Um defesa?

MG: Beto.

BnR: Um médio?

MG: Rui Duarte.

BnR: Qual o adversário mais difícil de marcar?

MG: Foi um jogador que jogava no Paços de Ferreira, o Didi. Estava no Sporting e perdemos 3-0.

BnR: Qual o avançado mais matador com quem jogaste?

MG: Liedson.

BnR: Qual o treinador que mais te marcou?

MG: Fernando Santos, porque se ele não me tivesse dado oportunidade se calhar eu nunca teria chegado à primeira equipa do Sporting. Não sei se fazia uma carreira como fiz, mas ter essa oportunidade aos 20 anos foi fundamental para o progresso da minha carreira.

Frederico Seruya

Redação Bola na Rede · ver artigos