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Formação para render desportiva ou financeiramente?

Nuno Almeida · 5 min

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Desde há uns anos para cá que tenho visto um esgrimir de argumentos sobre as vendas de jogadores de futebol e valores das mesmas. Qualificam um jogador pelo valor que se paga pelo mesmo e, no entanto, um jogador que poderá ser de extrema importância para uma equipa, poderá não fazer qualquer sentido no esquema táctico de qualquer outra. Isto para dizer que um jogador pode valer 35 milhões em determinado enquadramento, como pode valer pouco ou nada em qualquer outro.

Não podemos aqui esquecer ainda os intermediários que, como qualquer comercial, podem transformar um produto banal no mais polido e ambicionado do mercado. E dependendo dos bons contactos, favores a serem pagos, ou simples competência em vender o seu produto, podemos ver jogadores que pouco tenham demonstrado serem adquiridos por milhões mostrando-se posteriormente completos “flops” (o que de pouco importa para o empresário depois de receber a comissão) e outros que nunca passam de uma carreira mediana apesar de sempre mostrarem qualidade.

Renato Sanches é um exemplo de um jogador que saiu no verão e tem tido poucos minutos no seu novo clube Fonte: Facebook Oficial de Renato Sanches
Renato Sanches é um exemplo de um jogador que saiu no verão e tem tido poucos minutos no seu novo clube
Fonte: Facebook Oficial de Renato Sanches

O que quero dizer é que um jogador não é um fenómeno só porque alguém o avaliou em milhões, ou o adquiriu por esses valores absurdos. Um grande jogador tem de demonstrar em campo que efetivamente joga bem em qualquer equipa, sobre qualquer pressão, conseguindo construir uma carreira sólida, consistente, e tendo a hombridade de reconhecer o que pode melhorar, com quem e onde melhor possam potenciar as suas qualidades.

O problema é que, neste processo, o jogador é o que menos intervém e o que mais sofre caso uma decisão sobre a sua futura carreira seja mal tomada, ou seja tomada simplesmente com o propósito do lucro imediato (Bruma, Zé Turbo, Cassamá, etc). E as pressões para que os jovens sejam vendidos rapidamente e por valores astronómicos é enorme. E não falo das direcções dos clubes vendedores ou dos agentes dos jogadores, falo também dos próprios adeptos e sócios que argumentam entre si o valor recorde de venda de um jogador da sua equipa dando a parecer que o que interessa é tentarmos vender os nossos melhores jogadores por valores nunca antes praticados.

Bem sei que os clubes portugueses precisam de vender para equilibrar as suas contas, e até aceito que seja feita uma boa venda no final de cada época desportiva, no entanto não quero fazer disso um trunfo sobre os adversários, até porque eu quero é os melhores jogadores no meu clube. E se assim é, não posso ambicionar que sejam vendidos. Depois haveria o problema de resolver a frustração dos jogadores em não poderem receber melhores salários em clubes com maior poder económico, mas aí teriam que ser eles também a compreender se será melhor opção para as suas carreiras serem opção para a equipa principal onde jogam, ou serem ricos durante um ou dois anos sentados no banco de suplentes até serem esquecidos.

Portanto, apesar de saber que teremos sempre que vender jogadores, nunca irei ficar feliz por ver sair grandes jogadores do meu clube, como não fiquei quando vi sair Slimani e João Mário. Podem pedir-me que entenda, mas não que goste. Assim, outros bem podem vender qualquer mexicano por 200 milhões que eu nunca irei gostar de ver o Gelson Martins sair por 40, 50 ou 60 milhões, apesar de ser inevitável.

João Mário rendeu uma verba recorde ao Sporting, mas tem feito muita falta à equipa leonina Fonte: Sporting CP
João Mário rendeu uma verba recorde ao Sporting, mas tem feito muita falta à equipa leonina
Fonte: Sporting CP

Outros poderão fazê-lo que pouco me importa. Ou melhor, não me importo se não influenciar o crescimento, valorização, motivação dos nossos miúdos, “esquecendo-os” para promover outros. Porque, apesar de não querer ver os melhores jogadores a sair, quero que sejam promovidos pelo seu real valor, sendo reconhecidos com chamadas às seleções, motivando-os para serem ainda melhores. E quanto a isto, já falei na semana passada da última convocatória sub 19 e da opção em convocarem preferencialmente jogadores de equipas classificadas nos últimos lugares do campeonato em detrimento de jogadores de equipas do topo da tabela. O resultado deste tipo de decisões é a dificuldade que um país com uma das melhores formações de jovens jogadores de futebol teve em apurar-se para a fase final do Campeonato da Europa. (Infelizmente os Sub 17 já não vão poder defender o titulo, e os Sub 20 parecem ter falhado também).

É o que dá tomar o caminho de patrocinar uma fábrica “fast player”, com jogadores a serem vendidos aos pacotes dois em um com promoções de quinze milhões. A urgência de salvar um clube pode hipotecar o futuro do nosso futebol de selecções. A sorte é termos muitos valores actualmente para garantir qualidade aos próximos anos (apesar de, no último jogo, ainda não terem demonstrado que estejam preparados para ser real alternativa aos craques). Veremos se este caminho é rectificado a tempo de termos uma seleção AA competitiva daqui a dez ou quinze anos.

Apesar disso, e por deverem achar que este patrocínio que estão a receber da FPF ainda não é suficiente, continuam a lamentar-se. Os birrrentos continuam a sua incessante demanda. Queriam ser os únicos a “mamar”, perceberam que têm de partilhar e amuaram. Pediram explicações aos “papás” que os ignoraram (pelo menos oficialmente) e amuaram. Disseram que assim não participavam na “festa”, e como ainda assim não receberam atenção, amuaram. Agora dizem que não podemos entrar no “quarto” deles, como se a “casa” fosse só deles (por vezes até parece que é).

Sabemos todos que os meninos que amuam por tudo e por nada são os mimados que tudo têm e ficam frustrados por qualquer pequena coisa que lhes seja negada. Todos sabemos também que geralmente, mais tarde ou mais cedo, esse tipo de meninos tem tudo o que quer. E como também sabemos que quem não chora não mama, estes continuarão a “mamar” e a chorar para que sejam os únicos a usar a “teta”.

Mais uma vez, Bruno de Carvalho foi castigado, para gáudio de quem tem atacado a FPF e a Liga recentemente Fonte: Sporting CP
Mais uma vez, Bruno de Carvalho foi castigado, para gáudio de quem tem atacado a FPF e a Liga recentemente
Fonte: Sporting CP

Usando um pouco o paralelismo com o mundo animal, são como as aves que por quererem sobreviver à custa do trabalho dos outros, colocam o ovo em ninho alheio, para que sejam esses a alimentar os seus e no fim, ao nascer, ainda expulsam do ninho os reais proprietários do mesmo.

Nota final: parece que o exercito de seis milhões esteve de guarda ao estádio onde jogou Portugal no sábado. Parece que o apelo do Cebola está a resultar. Pressão neles, que estão a tremer de medo e reagem imediatamente para não contrariar o “chefe”. E para comprovar isso, só precisamos ler o último comunicado da FPF e a rapidez com que se “arranjou” um castigo ao presidente do Sporting logo após o pedido expresso do líder de tamanho exército.

E se querem calar os dirigentes do Sporting não é com castigos, e sim com medidas que tornem o futebol honesto, sem jogadas de bastidores, e favorecimentos de uns em detrimento de outros. Façam isso, experimentem, não custa nada. Vão ver que conseguem.

Foto de capa: F.C. Internazionale Milano

Nuno Almeida

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