«Golo de Charisteas? Não foi por esse lance que perdemos a final» – Entrevista BnR com Ricardo

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– Substituição: sai humanismo, entra individualismo –

“Deixámos de ser apenas aquela equipa com as camisolas esquisitas”

BnR: Recordas-te de como era a pensão onde ficaste na semana em que estiveste à experiência no Boavista?

RP: Lembro-me! Estás a perguntar-me isso e estou a tentar lembrar-me do nome do dono (…) mas não me lembro… ele adorava futebol e gostava muito do Boavista, mas era do FC Porto! Nessa altura, lembro-me de quando fui assinar contrato, no restaurante da irmã do Reinaldo Teles, estava com o Major – que escrevia os números em guardanapos – e com o meu empresário e apareceu o Pinto da Costa, que se meteu com este último: “Então temos aqui um atleta novo?”, perguntou. “Temos muitas esperanças nele!”, respondeu-lhe.  “Em vez de trazer os bons para o FC Porto, trazes para o Boavista?”. Enfim, coisas giras passadas no restaurante e nessa pensão.

BnR: Por falar em restaurantes, do que é que falavam quando, às sextas-feiras no Zé Ladrão em Gaia, se juntavam jogadores do Boavista, FC Porto, Leixões, entre outros clubes do Norte?

RP: Falava-se de quase tudo, menos de bola. Sexta-feira era o dia dos banhos e massagens à tarde: treinavas de manhã, íamos almoçar e à tarde as massagens, porque o jogo era, normalmente, ao domingo. Os tempos eram outros: confraternizávamos, ríamos, estávamos juntos… no fundo, desfrutávamos de uma boa refeição. Íamos onde éramos bem tratados e comíamos bem, mas o restaurante era quase irrelevante porque o importante era o convívio. Nem sempre iam os mesmos, mas normalmente juntava-se sempre muita malta e, depois do almoço, era aquele tempo de nos picarmos uns aos outros: quem ia jogar, quem ia ganhar…

BnR: Atualmente, esse convívio entre jogadores de clubes diferentes, ainda é possível?

RP: Infelizmente, cada vez menos. A evolução do futebol ganhou umas coisas e perdeu outras. Não só isto, mas também o contacto dos jogadores com as pessoas e com a imprensa; hoje em dia qualquer clube de maior nomeada tem o seu canal e é tudo filtrado. Os adeptos para verem e ouvirem notícias de outros clubes têm de ir aos seus canais e perde-se um bocadinho a aproximação aos atletas. Como na vida, primeiro está o Homem, depois o atleta e eu gosto é das pessoas, independentemente do clube; para mim, um amigo que trabalha no Santander é igual a outro que trabalhe no BES.

BnR: Foi também esse espírito coletivo que impulsionou o Boavista para as melhores épocas da sua história?

RP: Não tenhas a menor dúvida. Desde os meus 18 anos, com Manuel José, Filipovic, Mário Reis, Casaca, João Alves… era o grande segredo de todos estes treinadores e daquele clube: a família que se criava, a mística que se transmitia, o respeito que havia pelos mais velhos; os mais novos competiam com todas as forças que tinham e os mais velhos sentiam e gostavam. Foi isto que me fez crescer. Tudo isto – praticamente jantarmos todas as noites em casa de cada um -, quando balizamos aquela época de seis anos de Jaime Pacheco, era transportado para dentro de campo. E não é que andássemos sempre aos abraços e aos beijos, às vezes era o contrário! Na luta e na discussão é que surgia o consenso. Hoje em dia é mais difícil tornar um grupo forte, porque cada jogador vive mais no seu mundo.

BnR: Consideras possível um clube não pertencente aos denominados três grandes repetir o feito do Boavista num futuro próximo?

RP: Pela lógica, o que estará mais perto de lá chegar é o SC Braga. Vamos ver como é que os clubes, a sociedade e o mundo vão sair desta tragédia. Em Portugal, estamos a sentir – tirando o Benfica, que é um caso de sucesso de gestão – que os clubes portugueses estão a perder poder de compra, a qualidade está a baixar e basta olhar para há cinco ou seis anos e comparar os plantéis daquela altura com os atuais.

Quanto mais tempo passa, mais valorizado é o título que o Boavista conquistou. As más-línguas apelidam-nos de muito duros, isto e aquilo (…) o Petit uma vez, em direto, disse assim “Quando estava no Boavista era caceteiro, no Benfica era um jogador viril, mas leal”. Como é que uma equipa praticamente sem adeptos nos jogos fora, com uma dimensão muito menor comparada com os três grandes e que fez das tripas coração para poder ganhar uma Liga, tem só sorte? Tem de haver muito trabalho para poder ter sorte. Deixámos de ser apenas aquela equipa com as camisolas esquisitas e o Jaime Pacheco dizia “Este campeonato vai ser mais valorizado a cada ano que passar”.

BnR: Antes desse título, já havias ganho uma Taça de Portugal frente ao Benfica. Como é que os jogadores encarnados te viram entrar no seu balneário para pedires a camisola ao Preud’homme?

RP: Vou contar-te essa história! Nunca escondi que o Preud’homme foi um dos meus ídolos, ainda tenho a camisola dele e suja! O Manuel José era o treinador do Benfica e eu tinha muito à-vontade com ele, foi uma pessoa que me marcou muito, e não entrei à toa: os jogadores do Benfica estavam tristes, como é óbvio, tinham acabado de perder uma final, e eu, humildemente, disse ao mister “Sei que não dever ser fácil, mas gostava de trocar de camisola com o Preud’homme” e ele encaminhou-me ao balneário e o belga estava mesmo em frente à porta, cabisbaixo. Quando o abordei, ele viu o brilho no meu olhar e rapidamente tirou a camisola, ficou com a minha, deu-me um abraço e os parabéns. Saí logo a seguir, porque apesar de ninguém me ter insultado, às vezes podia haver um ou outro com uma reção mais intempestiva, mas correu tudo bem.

Miguel Ferreira de Araújo
Miguel Ferreira de Araújohttp://www.bolanarede.pt
Um conjunto de felizes acasos, qual John Cusack, proporcionaram-lhe conciliar a Comunicação e o Jornalismo. Junte-se-lhes o Desporto e estão reunidas as condições para este licenciado em Estudos Portugueses e mestre em Ciências da Comunicação ser um profissional realizado.                                                                                                                                                 O Miguel escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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