Última horaCristian Ferreira após FC Porto x Académico de Viseu: «Saímos tristes porque o jogo se desenrolou de uma forma que não esperávamos»
Publicidade

«Golo de Charisteas? Não foi por esse lance que perdemos a final» – Entrevista BnR com Ricardo

Miguel Ferreira de Araújo · 21 min

«Golo de Charisteas? Não foi por esse lance que perdemos a final» – Entrevista BnR com Ricardo
Foto: Facebook Ricardo Pereira

Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

Herói para uns, vilão para outros. Na certeza porém que, se não fossem os seus reflexos felinos, o futebol português teria perdido aquele que é, talvez, o momento mais épico da Seleção Nacional numa grande competição. Fez-se Homem sob o desígnio da pantera, mas foi de leão ao peito que enfrentou a selva do futebol português. Passou por terras de “nuestros hermanos”, mas foi em Leicester que se sentiu em família. Num exclusivo Bola na Rede, aqui tendes Ricardo Pereira, por quem um dia o Rei se ajoelhou.

– Guarda-redes-avançado avançou rumo a Norte –

“O Manuel José soube que o Quinito ia levar-me para Guimarães e antecipou-se: mandou o João Loureiro e o Álvaro Braga Junior ao Montijo, para me levarem”

Bola na rede [BnR]: Gostava de começar esta entrevista com um assunto fraturante: gabas-te de nunca ter falhado algum penálti na tua vida, mas a janela da casa de banho do talho da D.ª Maria Emília desmente esta afirmação. Em que ficamos?

Ricado Pereira [RP]: Epá, como é que sabes isso? [risos] Aquilo não foi um penálti, foi um livre direto! À noite, depois do banhinho tomado e do jantar, pedíamos sempre aos nossos pais para ir um bocadinho até à rua e por lá ficávamos, porque antigamente entretíamo-nos na rua: jogávamos ao “garrole” (…) sabes que jogo é este? Um grupo de malta fugia e um tipo ficava parado; quando alguém gritava “garrole”, esse gajo ia atrás da malta e combinávamos previamente se era o jogo dos 15 passos, ou dez, ou 20… se ele dissesse “garrole” a alguém, dentro do espaço que tínhamos combinado, essa pessoa tinha de parar obrigatoriamente e ficava ela a apanhar. Opa, eram jogos que se faziam naquela altura e juntávamo-nos todos em frente ao talho, que tinha aquelas janelas maiores com uma soleirazinha para estarmos sentados. Havia sempre alguém que trazia uma bola… nesse dia, a bola vem no ar e eu dei uma cabeçada: acertei mesmo na janela pequenininha e estoirou o vidro todo.

BnR: Labreca de alcunha, guarda-redes (e avançado) de posição, foi aos 16 anos que te fixaste definitivamente na baliza do Clube Desportivo do Montijo. O à-vontade com bola, que te foi sempre apontado como um defeito, atualmente seria uma mais-valia?

RP: Por acaso já disse isso muitas vezes… na altura o Ricardo era o maluco! Era o que jogava fora da baliza, ouvia constantemente a malta fora do campo “Vai para a baliza!” ou isto, ou aquilo… infelizmente, não havia tanta qualidade como há hoje, em que os guarda-redes saberem jogar com os pés é quase obrigatório. Costumo brincar e dizer que atualmente os guarda-redes já nem precisam de defender. Sempre joguei bem, punha a bola onde queria à distância e comecei muito cedo a assumir este risco, mas também respaldado pelos treinadores, como é óbvio. Uma vez, em Guimarães, levei uma chapelada do Pedro Mendes: o jogo estava emperrado e assumimos o risco de eu começar a jogar um bocadinho como antigo libero, para soltar mais um homem do meio-campo para o ataque; para jogarmos com o Pedro um bocadinho mais encostado aos médios, servindo como médio de cobertura, e tanto o Petit como o Rui Bento saltavam um bocadinho mais para a frente. Para fora, eu é que era o tonto, mas era um risco assumido por toda a equipa e não tenho dúvidas nenhumas que era muito benéfico, que faz bem ao jogo e faz bem aos guarda-redes serem mais completos. O acertar todos querem, o falhar ninguém quer e esta maneira de jogar deu-me muito mais sucesso do que insucesso. Hoje em dia até se arrisca demasiado, do meu ponto de vista, mas os adeptos têm que saber que são riscos calculados pelo treinador, para chamar o adversário e conseguir ultrapassar a primeira fase de pressão.

Fonte: Facebook Ricardo Pereira

BnR: Aos 18 anos, atravessaste o equivalente ao Triângulo das Bermudas para chegar ao vértice Boavista, numa equação que contava com Vitória SC e Sporting.

RP: Não foram apenas o Vitória e o Sporting, porque naquela altura havia muitas equipas interessadas (…) o Barreirense dobrava o ordenado que fui ganhar para o Boavista: fui ganhar para o Boavista 250 contos/1250 € e o Barreirense dava-me 500 contos/2500€; o Campomaiorense, onde estava o mister Manuel Fernandes, que era da minha zona e me conhecia (…) O Manuel José soube, através do empresário [Carlos Costa], que o Quinito ia levar-me para Guimarães nessa noite, e antecipou-se: mandou o João Loureiro e o Álvaro Braga Junior ao Montijo, para me levarem. Nessa altura, já tinha ouvido falar nos boatos do Sporting, mas coisas concretas não havia nada. Quando regresso dos dois ou três treinos que fiz no Boavista, à experiência, vou direto para o último jogo do Campeonato pelo Montijo, em Quarteira. No regresso a casa, chegamos ao Campo Luis de Almeida Fidalgo e o Presidente diz-me “Acompanha-me, porque está ali uma pessoa para falar connosco” e eu até pensei que fosse para me pagarem os ordenados em atraso. Chego lá e estava o falecido Juca, do Sporting, e foi quando disse “Não há volta a dar. Já dei a minha palavra ao Boavista e não vou voltar atrás”.

BnR: Rejeitaste o Sporting, pela palavra dada ao Boavista, e o Barreirense, que te duplicava o salário, pela aposta na carreira. Escreveste certo por linhas tortas ou, se pudesses, estas decisões teriam sido um rascunho?

RP: Quis ir para o Boavista porque era um clube de primeira linha, em ascensão, com percurso na Europa… era o que queria para a minha carreira: evoluir e trabalhar. Sabia que ia ser muito difícil jogar desde princípio porque era um miúdo e, naquela altura, os tempos eram bem diferentes. Graças a Deus fui para o sítio certo, onde cresci em todos os aspetos.

– Substituição: sai humanismo, entra individualismo –

“Deixámos de ser apenas aquela equipa com as camisolas esquisitas”

BnR: Recordas-te de como era a pensão onde ficaste na semana em que estiveste à experiência no Boavista?

RP: Lembro-me! Estás a perguntar-me isso e estou a tentar lembrar-me do nome do dono (…) mas não me lembro… ele adorava futebol e gostava muito do Boavista, mas era do FC Porto! Nessa altura, lembro-me de quando fui assinar contrato, no restaurante da irmã do Reinaldo Teles, estava com o Major – que escrevia os números em guardanapos – e com o meu empresário e apareceu o Pinto da Costa, que se meteu com este último: “Então temos aqui um atleta novo?”, perguntou. “Temos muitas esperanças nele!”, respondeu-lhe. “Em vez de trazer os bons para o FC Porto, trazes para o Boavista?”. Enfim, coisas giras passadas no restaurante e nessa pensão.

BnR: Por falar em restaurantes, do que é que falavam quando, às sextas-feiras no Zé Ladrão em Gaia, se juntavam jogadores do Boavista, FC Porto, Leixões, entre outros clubes do Norte?

RP: Falava-se de quase tudo, menos de bola. Sexta-feira era o dia dos banhos e massagens à tarde: treinavas de manhã, íamos almoçar e à tarde as massagens, porque o jogo era, normalmente, ao domingo. Os tempos eram outros: confraternizávamos, ríamos, estávamos juntos… no fundo, desfrutávamos de uma boa refeição. Íamos onde éramos bem tratados e comíamos bem, mas o restaurante era quase irrelevante porque o importante era o convívio. Nem sempre iam os mesmos, mas normalmente juntava-se sempre muita malta e, depois do almoço, era aquele tempo de nos picarmos uns aos outros: quem ia jogar, quem ia ganhar…

BnR: Atualmente, esse convívio entre jogadores de clubes diferentes, ainda é possível?

RP: Infelizmente, cada vez menos. A evolução do futebol ganhou umas coisas e perdeu outras. Não só isto, mas também o contacto dos jogadores com as pessoas e com a imprensa; hoje em dia qualquer clube de maior nomeada tem o seu canal e é tudo filtrado. Os adeptos para verem e ouvirem notícias de outros clubes têm de ir aos seus canais e perde-se um bocadinho a aproximação aos atletas. Como na vida, primeiro está o Homem, depois o atleta e eu gosto é das pessoas, independentemente do clube; para mim, um amigo que trabalha no Santander é igual a outro que trabalhe no BES.

BnR: Foi também esse espírito coletivo que impulsionou o Boavista para as melhores épocas da sua história?

RP: Não tenhas a menor dúvida. Desde os meus 18 anos, com Manuel José, Filipovic, Mário Reis, Casaca, João Alves… era o grande segredo de todos estes treinadores e daquele clube: a família que se criava, a mística que se transmitia, o respeito que havia pelos mais velhos; os mais novos competiam com todas as forças que tinham e os mais velhos sentiam e gostavam. Foi isto que me fez crescer. Tudo isto – praticamente jantarmos todas as noites em casa de cada um -, quando balizamos aquela época de seis anos de Jaime Pacheco, era transportado para dentro de campo. E não é que andássemos sempre aos abraços e aos beijos, às vezes era o contrário! Na luta e na discussão é que surgia o consenso. Hoje em dia é mais difícil tornar um grupo forte, porque cada jogador vive mais no seu mundo.

BnR: Consideras possível um clube não pertencente aos denominados três grandes repetir o feito do Boavista num futuro próximo?

RP: Pela lógica, o que estará mais perto de lá chegar é o SC Braga. Vamos ver como é que os clubes, a sociedade e o mundo vão sair desta tragédia. Em Portugal, estamos a sentir – tirando o Benfica, que é um caso de sucesso de gestão – que os clubes portugueses estão a perder poder de compra, a qualidade está a baixar e basta olhar para há cinco ou seis anos e comparar os plantéis daquela altura com os atuais.

Quanto mais tempo passa, mais valorizado é o título que o Boavista conquistou. As más-línguas apelidam-nos de muito duros, isto e aquilo (…) o Petit uma vez, em direto, disse assim “Quando estava no Boavista era caceteiro, no Benfica era um jogador viril, mas leal”. Como é que uma equipa praticamente sem adeptos nos jogos fora, com uma dimensão muito menor comparada com os três grandes e que fez das tripas coração para poder ganhar uma Liga, tem só sorte? Tem de haver muito trabalho para poder ter sorte. Deixámos de ser apenas aquela equipa com as camisolas esquisitas e o Jaime Pacheco dizia “Este campeonato vai ser mais valorizado a cada ano que passar”.

BnR: Antes desse título, já havias ganho uma Taça de Portugal frente ao Benfica. Como é que os jogadores encarnados te viram entrar no seu balneário para pedires a camisola ao Preud’homme?

RP: Vou contar-te essa história! Nunca escondi que o Preud’homme foi um dos meus ídolos, ainda tenho a camisola dele e suja! O Manuel José era o treinador do Benfica e eu tinha muito à-vontade com ele, foi uma pessoa que me marcou muito, e não entrei à toa: os jogadores do Benfica estavam tristes, como é óbvio, tinham acabado de perder uma final, e eu, humildemente, disse ao mister “Sei que não dever ser fácil, mas gostava de trocar de camisola com o Preud’homme” e ele encaminhou-me ao balneário e o belga estava mesmo em frente à porta, cabisbaixo. Quando o abordei, ele viu o brilho no meu olhar e rapidamente tirou a camisola, ficou com a minha, deu-me um abraço e os parabéns. Saí logo a seguir, porque apesar de ninguém me ter insultado, às vezes podia haver um ou outro com uma reção mais intempestiva, mas correu tudo bem.

– Esforço, dedicação, devoção e… pressão –

“Em Portugal, fizesse o que fizesse, já não me sentia valorizado”

BnR: Contas feitas e arrecadas todos os troféus internos ao serviço do Boavista, antes do agitado Verão de 2003. Em novembro de 2017 disseste que “Há coisas que devo contar se calhar um dia, mas hoje não”. Pergunto-te se hoje é o dia?

RP: Ainda não será hoje. Há pessoas com muita responsabilidade ainda no ativo. A única coisa que te digo sobre isso é que fui para onde quis e para onde me quiseram; para onde fizeram tudo e me respeitaram a 100% como Homem e profissional.

BnR: Porque é que decidiste não ir para o Benfica e seguir para estágio com o Boavista?

RP: Estava tudo acordado entre o Boavista e o Benfica, só faltava a minha palavra, mas por situações que não vou revelar, as coisas não se desenrolaram da maneira mais cordial. Podes entrevistar o mister Camacho e perguntar-lhe o que aconteceu. Se calhar, conta-te melhor… falei várias vezes com ele, com muitas pessoas, e foi uma decisão que tomei em consciência e voltaria a fazê-lo novamente.

Foi um Verão muito quente, muito difícil, foi um desgaste emocional tremendo (…) um dia conto-te a verdade: para onde estive mais perto de ir, não era para o Benfica, e nunca ponham em causa que foi pelo dinheiro. Estive perto de outros clubes que me pagavam muito mais que Benfica e Sporting e não fui.

BnR: Que clubes eram esses?

Estrangeiros e nacionais.

BnR: Não queres revelar quais?

RP: Já chega. [risos]

Fonte: Facebook Ricardo Pereira

BnR: De leão ao peito, defendes a baliza que outrora pertenceu a nomes como Damas e Schmeichel por mais de centena e meia de jogos. No entanto, na memória coletiva perdura o lance com Luisão na Luz e a final europeia em Alvalade. O lugar de guarda-redes é o mais ingrato dentro e fora de campo?

RP: Se houvesse VAR, nada daquilo acontecia e o Sporting CP tinha sido campeão. Prefiro ficar com as coisas boas: jogos inolvidáveis nessa caminhada europeia; o Newcastle em casa foi uma reviravolta brutal, os jogos com o José Peseiro, com o Fernando Santos, com o Paulo Bento… mas o Sporting não era um clube fácil, que não passou momentos fáceis e nós tudo fizemos para conseguir ganhar. Sair apenas com uma Taça de Portugal soube-me a pouco.

Em relação à tua pergunta, sem dúvida. Mas por isso é que os guarda-redes também têm um caráter e uma alma diferente. Nem toda a gente tem a coragem, o estofo e a qualidade para esta posição. Costumamos dizer na brincadeira que os guarda-redes não ganham jogos, só perdem.

Só um aparte: lembras-te da primeira bola vulcanizada? Era a Roteiro, do Euro 2004, de uma cor acinzentada com azul-escuro, que não te dava a perceção da distância a que estava de ti. A quantidade de bolas que levávamos na tromba… não tinhas a noção, o olho não estava habituado a uma bola tão rápida e que descrevia trajetórias tão difíceis. São coisas que são feitas para que o espetáculo seja beneficiado e o guarda-redes é quem sofre.

BnR: “Ricardo, você é um colchão muito forte para todos os guarda-redes que cá estão. Enquanto cá estiver, todos os que estão aqui têm as costas largas porque só batem em você”. Dito por um homólogo, qual foi o impacto que esta frase teve em ti?

RP: Olha, isso foi no fim de um jogo e nem preciso de dizer o nome dele, que é hoje um grande amigo e um dos embaixadores comigo da Liga.

BnR: Podemos dizer: falamos do Helton.

RP: Ele é espetacular, de um caráter tremendo. Quando recebi essas palavras, de alguém que é sempre ponderado naquilo que diz, foi na minha última época no Sporting e já estava a sentir na pele, depois de todos aqueles anos de guerras de Seleção e de não ter ido para o Benfica, que tinha de sair para o estrangeiro. Gosto muito do meu país, mas quis ir para sítios que já me estavam a chamar há quatro anos, conhecer outros campeonatos e dar um novo ânimo à minha vida, porque aqui, fizesse o que fizesse, já não me sentia valorizado. As coisas muito boas que ia fazendo eram como fumo; qualquer detalhe menos bom que acontecesse comigo era escalpelizado por três dias ou quatro. Essas palavras caíram-me com estrondo e foram uma alavanca, porque quando um companheiro me diz isto (…) eles sentem, eles veem, eles ouvem. Foi de facto uma campanha que se fez durante muito tempo e várias pessoas diziam-me que desportivamente era quase impossível que um atleta tivesse um rendimento daqueles, semana após semana, com uma tremenda pressão negativa em cima dele. Essas palavras vieram carimbar o desejo de me ir embora.

– De herói a vilão: a sina de um guardião –

“Golo de Charisteas é um lance que vamos ficar a chorar eternamente”

BnR: Antes de rumares a Sevilha, acompanhaste o despontar de um jovem que recentemente se tornou o guarda-redes com mais jogos pela Seleção Nacional. Já lhe reconhecias capacidade para chegar onde chegou?

RP: Conto-te rapidamente um detalhe: o Rui estreou-se nos Barreiros, porque tive uma gastroenterite e não estava capaz para jogar; disse ao mister “É um miúdo tranquilo. É um jogo difícil, mas vai correr bem”. Correu-lhe super bem e defendeu um penálti.

Pela maneira como trabalhava, pelas características que tinha (…) tanto eu, como o Tiago e o Nélson, juntamente com o Justino – que para além de ser um grande treinador, tinha um caráter tremendo e já conhecia o Rui das camadas jovens – sentimos logo que havia ali muita qualidade. Quando me fui embora, disse ao Paulo [Bento, treinador do Sporting à época] “Não sei o que vais fazer, mas tens ali um miúdo que, sendo suportado, é um guarda-redes de futuro. Vais levar umas quantas mocadas, ele também, mas faz parte”. O Paulo disse-me que não sabia bem, que “era perigoso e que estava a pensar ir ao estrangeiro buscar um guarda-redes mais batido” e quando eu vi que o escolhido era o Stojkovic, pelas características dos jogadores daquela região e daquela cultura, deduzi que não ia ser fácil, como veio a confirmar-se. Rapidamente o Rui passou a jogar e a passar pelo que antevi: cheguei a ver, infelizmente, o Rui a entrar para aquecimento e a ser assobiado. Hoje em dia, ninguém tem paciência para nada. Aquilo não era maneira de tratar um jogador da casa, um miúdo que viveu ali toda a vida e é um sportinguista doente. Estava ali um atleta de eleição e que, felizmente, hoje está como está.

BnR: Rui Patrício que ultrapassou… Vítor Baía. Há dias, o ex-guardião portista afirmou ser o melhor guarda-redes português de sempre e disse que houve “interferências externas” na convocatória do Euro 2004. Que considerações te merecem estas palavras?

RP: É melhor passar à próxima pergunta… nem vou tocar nesse tema. Cada um é feliz à sua maneira: eu sou assim, já acabei a minha carreira, sou feliz com o que tenho e com o que tive; os outros devem estar gratos pela carreira que tiveram. O Vítor fez uma carreira fantástica, eu fiz a minha – mais pequenininha, se calhar -, mas com muito sangue e suor.

BnR: Lembrar esse Campeonato da Europa é sinónimo de sorrisos, lágrimas e luvas: as que tiraste para defender o remate do Vassel. Ainda as tens naquela espécie de altar que a tua amiga construiu?

Fonte: Facebook Ricardo Pereira

RP: Não é um altar, é um quadro! A minha Ana Matias fez um quadro muito giro, com várias frases que ela ia ouvindo na rua, nos estádios… está lá uma peça de um relógio que se partiu quando foi o jogo com a Inglaterra. Ficaram as luvas embalsamadas ali num quadro.

BnR: Darius Vassel, avançado inglês que, anos depois, reencontras em Leicester…

RP: Grande colega, grande amigo, grande caráter! Foi engraçadíssimo! No balneário foi uma risota… agora imagina as primeiras semanas, as brincadeiras que fizeram connosco. É uma pessoa muito pacata, que me ajudou a conhecer a cidade e me levou a jogar golfe com ele e com os amigos.

Tive pena do pouco tempo que estive em Leicester, depois de ter passado momentos muito difíceis no último ano no Bétis… tive de fugir, estive quase para deixar o futebol.

BnR: Já voltamos à experiência no estrangeiro. Voltando ao jogo frente à Inglaterra, é verdade que se não fosses tu e o Dr. Henrique Jones, o Eusébio podia ter tido algum colapso naquela noite?

RP: [risos] Não fui eu! O doutor como estava mais pertinho sentiu que ele não estava tão bem. Eu, como tinha mais confiança, tentei transmitir-lhe que iríamos fazer tudo para que daquela vez conseguíssemos ganhar aos ingleses. No fim, quando me vem agradecer, eu disse-lhe “Tu não tens nada a agradecer! Nós é que ainda temos tanto para te agradecer, por tudo aquilo que nos deste e nos transmites todos os dias. O prazer é todo meu e fico emocionado e feliz para o resto da vida por te ter proporcionado este momento”.

BnR: Dois anos depois, estabeleces um novo recorde de penáltis defendidos numa fase final de um mundial, mas “como é o Ricardo, pouca gente sabe”. O golo de Charisteas deixou marcas irreparáveis?

RP: Não, porque não foi por esse lance que perdemos a final. Foi apenas um entre tantos e, se houvesse VAR, teria sido anulado, porque o Charisteas estava constantemente a fazer falta. Mas também já assumi que saí tarde e que não chego a tempo, não tenho reação. Nada se ganha ou se perde sozinho. É um lance que vamos ficar a chorar eternamente.

Quando disse isso, referia-me ao impacto social que um elogio podia ter: não interessava muito, naquela altura, que o Ricardo fosse falado por esses méritos. A maior vitória foi, no final desse jogo em que defendi três penaltis, o árbitro da partida ter pedido licença ao Scolari para entrar no balneário e ter ido entregar-me a bola.

– Road Rage –

“Queriam que saísse sem cobrar o contrato e isto as pessoas não sabem”

BnR: Trocas o Sporting pelo Bétis no final da temporada 2006/07. Não obstante a pressão que sofrias em Portugal, também já disseste que o fator financeiro foi decisivo, mas, se voltasses atrás, fazias as coisas de forma diferente. Em que medida?

RP: Tinha ido para Inglaterra. Se seria melhor ou pior? Não sei. Vou confessar-te algo que ainda não disse a ninguém: em janeiro de 2011, estive para pôr o ponto final na minha carreira. Foram momentos muito difíceis os que passei, os últimos tempos em Sevilha, com seguranças privados na escola do meu filho, a andar acompanhado por gente contratada sem a minha família saber… não os queria assustar, mas fui ameaçado de muitas coisas. Queriam que saísse sem cobrar o contrato e isto as pessoas não sabem. O futebol tinha-me desiludido tanto… fui com umas expetativas gigantes para um clube também ele gigante, com uns adeptos fenomenais que carregam aquela equipa ao colo e deparei-me com condições de trabalho que não eram condizentes com a dimensão do clube. Estive quase para deixar o futebol.

BnR: Eriksson trocou-te as voltas e levou-te para Leicester, onde redescobriste a paixão por jogar futebol. Pela tua experiência, em que é que o futebol inglês é diferente dos demais?

RP: O tempo que lá vivi serviu para perceber que era o país e o futebol com os quais mais me identificava e onde se dá um valor tremendo aos jogadores. Apesar de ter sido o “carrasco” de Inglaterra, trataram-me nas palmas das mãos, porque eles adoram os atletas.

Fonte: Facebook Ricardo Pereira

BnR: Regressas a Portugal e, sem ter certezas em relação à recuperação completa do teu ombro, assinas pelo Vitória FC. É verdade que, nessa época, ajudaste colegas que estavam com dificuldades financeiras?

RP: Antes de te responder, deixa-me fazer uma justa homenagem ao António Gaspar. Cheguei ao pé dele a chorar e perguntei-lhe se lesão que contraíra em Inglaterra era o fim da minha carreira, porque só voltaria a jogar se ficasse a 100%, e ele olhou para mim e disse “Queres voltar a jogar? Então vou pôr-te a voltar a jogar” e pôs.

É verdade que ajudei. Não só eu, mas mais alguns elementos da equipa. Voltaria a fazê-lo e, ao ajudá-los, também ajudámos o clube e o Presidente, que depois nos atraiçoou.

BnR: Na época seguinte, o convite para te juntares ao Olhanense foi-te feito na praia por Sérgio Conceição?

RP: É verdade! Estava na praia, em Tavira, a falar com o Carlos Pereira e com o Sérgio, e surgiu em conversa “Epá, como é? Queres continuar a jogar?”. E aconteceu. O Sérgio era um atleta com o qual sempre me identifiquei – o caráter, a vontade, a irreverência – e eu pensei “Bom, está aqui uma pessoa que me vai estimular novamente e com quem me identifico”. Foi na hora!

– O que fica do que passa –

“Fui sempre muito dado e tenho a noção que muitas vezes me prejudicou”

Bnr: Em 2018, foste contactado por várias candidaturas à presidência do Sporting; optaste por integrar a Lista F, em que serias team manager dos leões caso José Eugénio Dias Ferreira vencesse as eleições. Continua a ser um cargo que te seduz?

RP: Em primeiro lugar, tenho de salvaguardar sempre uma coisa: dei a cara pelo Dr. Dias Ferreira, e continuaria a dar, porque foi uma pessoa que me marcou muito como sportinguista, como dirigente, como pessoa e nos momentos difíceis esteve lá sempre! De facto, fui convidado por mais candidatos, todos respeitosos e com eles também me reuni, mas pelo respeito que eu tinha por eles, disse a todos que ia apoiar a Lista F. Sem prejuízo disto, independentemente de quem ganhasse, se entendessem que eu seria alguém útil, estaria disponível para ajudar o Sporting. Acredito que tenho capacidades para tal e tenho muito para dar se for esse o caso, porque nós, ex-jogadores, devemos isso ao futebol.

BnR: Para além de Marco Caneira, que é teu padrinho de casamento, que outros amigos fizeste no futebol?

RP: Contam-se se calhar pelos dedos de uma mão, no máximo duas, os amigos de casa que tu fazes no futebol, mas diria o Rui Borges e o Delfim, porque foram dois companheiros de vida. Éramos os três mosqueteiros, porque andávamos juntos para todo o lado.

BnR: A qualidade continua a não ter altura?

RP: Continua a não ter altura, sim. Hoje em dia os jogadores portugueses são maiores por força da genética, mas qualidade é qualidade.

Fonte: Facebook Ricardo Pereira

BnR: A tua mulher acompanha-te desde os tempos em que partilhavam a mesma ama. É ela a trave-mestra da tua vida?

RP: Sim, nem posso responder outra coisa, senão ela batia-me. É uma vida inteira juntos: estamos ambos com 44 anos e conhecemo-nos com oito. Uns momentos bons, outros maus, uns assim assim… e deu-me os dois miúdos espetaculares que tenho aqui em casa.

BnR: Já que falas em miúdos, disseste que “Qualquer dia os meus filhos nem sabem que joguei à bola”. Olhando para trás, consideras que a forma despretensiosa com que viveste a tua carreira te pode ter prejudicado?

RP: Se prejudicou, voltaria a fazê-lo outra vez. Não sei ser de outra maneira. Em certa altura da minha carreira, em que o alvo era eu e me senti numa luta que não era minha, muitas vezes fui aquilo que detesto ser e criei uma capa. Fui sempre muito dado e tenho a noção que isso muitas vezes me prejudicou, porque encontrei pessoas maliciosas. Foi a educação que os meus pais me deram: quando saí de casa, disseram-me “Quando voltares, volta sempre de cabeça erguida” e é isso que tenho feito.

Obrigado, Labreca.

Miguel Ferreira de Araújo

Redação Bola na Rede · ver artigos

Continua a ler

as mais recentes
Opinião

Enquanto houver estrada para andar Rui Borges vai continuar | Sporting 2-1 Marítimo

Há uma frase do Lampedusa que toda a gente cita mal: é preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma. Rui Borges levou-a à letra na terça-feira. Mudou os onze. Não nove, não dez, os onze, do guarda-redes ao ponta de lança, o que é um gesto que um treinador de um grande só faz quando percebeu que já não tem nada a perder por aí. Saíram o Kaique, o Fresneda, o Ba, o Gonçalo Inácio, o Maxi, o Altimira, o Doumbia, o Flávio, o Luis Guilherme, o Irankunda e o Suárez. Entrou uma equipa que ninguém tinha visto jogar junta. E ganhou. Convém lembrar de onde vinha o Sporting, porque sem isso o 2-1 não se percebe. Vinha de duas derrotas consecutivas em casa, com o LASK Linz e com o Académico de Viseu, do primeiro desaire interno da temporada, de nove pontos de atraso para o FC Porto e de lenços brancos nas bancadas no domingo à tarde. Alvalade tinha-se habituado a ver a bola circular muito e a chegar a lado nenhum. Dois jogos seguidos a cruzar por cruzar contra blocos que se fechavam e a sofrer sempre do mesmo modo, com a bola trocada para o lado contrário e um cruzamento rasteiro que ninguém cortou.

Manuel Nascimento · 5 min de leitura
Ler a crónica

Newsletter Bola na Rede

Estamos a preparar a newsletter do Bola na Rede. Deixa o teu email e és dos primeiros a recebê-la. Sem spam.

Feito. Ficas na lista e avisamos-te quando arrancar.