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Herói para uns, vilão para outros. Na certeza porém que, se não fossem os seus reflexos felinos, o futebol português teria perdido aquele que é, talvez, o momento mais épico da Seleção Nacional numa grande competição. Fez-se Homem sob o desígnio da pantera, mas foi de leão ao peito que enfrentou a selva do futebol português. Passou por terras de “nuestros hermanos”, mas foi em Leicester que se sentiu em família. Num exclusivo Bola na Rede, aqui tendes Ricardo Pereira, por quem um dia o Rei se ajoelhou.

– Guarda-redes-avançado avançou rumo a Norte –

“O Manuel José soube que o Quinito ia levar-me para Guimarães e antecipou-se: mandou o João Loureiro e o Álvaro Braga Junior ao Montijo, para me levarem”

Bola na rede [BnR]: Gostava de começar esta entrevista com um assunto fraturante: gabas-te de nunca ter falhado algum penálti na tua vida, mas a janela da casa de banho do talho da D.ª Maria Emília desmente esta afirmação. Em que ficamos?

Ricado Pereira [RP]: Epá, como é que sabes isso? [risos] Aquilo não foi um penálti, foi um livre direto! À noite, depois do banhinho tomado e do jantar, pedíamos sempre aos nossos pais para ir um bocadinho até à rua e por lá ficávamos, porque antigamente entretíamo-nos na rua: jogávamos ao “garrole” (…) sabes que jogo é este? Um grupo de malta fugia e um tipo ficava parado; quando alguém gritava “garrole”, esse gajo ia atrás da malta e combinávamos previamente se era o jogo dos 15 passos, ou dez, ou 20… se ele dissesse “garrole” a alguém, dentro do espaço que tínhamos combinado, essa pessoa tinha de parar obrigatoriamente e ficava ela a apanhar. Opa, eram jogos que se faziam naquela altura e juntávamo-nos todos em frente ao talho, que tinha aquelas janelas maiores com uma soleirazinha para estarmos sentados. Havia sempre alguém que trazia uma bola… nesse dia, a bola vem no ar e eu dei uma cabeçada: acertei mesmo na janela pequenininha e estoirou o vidro todo.

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BnR: Labreca de alcunha, guarda-redes (e avançado) de posição, foi aos 16 anos que te fixaste definitivamente na baliza do Clube Desportivo do Montijo. O à-vontade com bola, que te foi sempre apontado como um defeito, atualmente seria uma mais-valia?

RP: Por acaso já disse isso muitas vezes… na altura o Ricardo era o maluco! Era o que jogava fora da baliza, ouvia constantemente a malta fora do campo “Vai para a baliza!” ou isto, ou aquilo… infelizmente, não havia tanta qualidade como há hoje, em que os guarda-redes saberem jogar com os pés é quase obrigatório. Costumo brincar e dizer que atualmente os guarda-redes já nem precisam de defender. Sempre joguei bem, punha a bola onde queria à distância e comecei muito cedo a assumir este risco, mas também respaldado pelos treinadores, como é óbvio. Uma vez, em Guimarães, levei uma chapelada do Pedro Mendes: o jogo estava emperrado e assumimos o risco de eu começar a jogar um bocadinho como antigo libero, para soltar mais um homem do meio-campo para o ataque; para jogarmos com o Pedro um bocadinho mais encostado aos médios, servindo como médio de cobertura, e tanto o Petit como o Rui Bento saltavam um bocadinho mais para a frente. Para fora, eu é que era o tonto, mas era um risco assumido por toda a equipa e não tenho dúvidas nenhumas que era muito benéfico, que faz bem ao jogo e faz bem aos guarda-redes serem mais completos. O acertar todos querem, o falhar ninguém quer e esta maneira de jogar deu-me muito mais sucesso do que insucesso. Hoje em dia até se arrisca demasiado, do meu ponto de vista, mas os adeptos têm que saber que são riscos calculados pelo treinador, para chamar o adversário e conseguir ultrapassar a primeira fase de pressão.

Fonte: Facebook Ricardo Pereira

BnR: Aos 18 anos, atravessaste o equivalente ao Triângulo das Bermudas para chegar ao vértice Boavista, numa equação que contava com Vitória SC e Sporting.

RP: Não foram apenas o Vitória e o Sporting, porque naquela altura havia muitas equipas interessadas (…) o Barreirense dobrava o ordenado que fui ganhar para o Boavista: fui ganhar para o Boavista 250 contos/1250 € e o Barreirense dava-me 500 contos/2500€; o Campomaiorense, onde estava o mister Manuel Fernandes, que era da minha zona e me conhecia (…) O Manuel José soube, através do empresário [Carlos Costa], que o Quinito ia levar-me para Guimarães nessa noite, e antecipou-se: mandou o João Loureiro e o Álvaro Braga Junior ao Montijo, para me levarem. Nessa altura, já tinha ouvido falar nos boatos do Sporting, mas coisas concretas não havia nada. Quando regresso dos dois ou três treinos que fiz no Boavista, à experiência, vou direto para o último jogo do Campeonato pelo Montijo, em Quarteira. No regresso a casa, chegamos ao Campo Luis de Almeida Fidalgo e o Presidente diz-me “Acompanha-me, porque está ali uma pessoa para falar connosco” e eu até pensei que fosse para me pagarem os ordenados em atraso. Chego lá e estava o falecido Juca, do Sporting, e foi quando disse “Não há volta a dar. Já dei a minha palavra ao Boavista e não vou voltar atrás”.

BnR: Rejeitaste o Sporting, pela palavra dada ao Boavista, e o Barreirense, que te duplicava o salário, pela aposta na carreira. Escreveste certo por linhas tortas ou, se pudesses, estas decisões teriam sido um rascunho?

RP: Quis ir para o Boavista porque era um clube de primeira linha, em ascensão, com percurso na Europa… era o que queria para a minha carreira: evoluir e trabalhar. Sabia que ia ser muito difícil jogar desde princípio porque era um miúdo e, naquela altura, os tempos eram bem diferentes. Graças a Deus fui para o sítio certo, onde cresci em todos os aspetos.

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