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Há uns anos atrás surgiram na academia Sporting duas pérolas que, apesar de todos lhes reconhecerem muito talento, tiveram caminhos completamente distintos. Esses dois fenómenos, e os seus exemplos antagónicos, foram um dos pilares para o sucesso na formação de jovens com pés assentes no chão, salvo raras excepções que sempre vão surgindo.
O próprio Aurélio Pereira disse que um jogador até pode ter tudo para ser um craque e não querer, e é isso que está na diferença entre Fábio Paim e Cristiano Ronaldo. Fábio Paim tinha mais talento que Cristiano Ronaldo, facto reconhecido pelo próprio CR28, mas não queria trabalhar para exponenciar as suas capacidades. Foi essa vontade e motivação que faltou a Paim e sobrou em Ronaldo, tornando-o o que é hoje. Porque para se ser uma estrela no futebol não é pêra doce, e não é para todos, sendo aliás para muito poucos.
Muitos desistem nesse percurso, e todos pensam desistir em algum momento da sua formação. Seja pelo facto de não poderem estar junto da família, ou simplesmente não poderem passar o fim de semana em casa com os seus, não poderem sair à noite ou comer e beber o que têm vontade, ter horário para levantar, estudar, treinar, deitar, sem tempo para se divertirem. Perde-se muito do que é a juventude para se seguir um sonho apenas alcançável pelos mais obstinados, ainda que mesmo entre esses, apenas alguns sortudos consigam uma carreira internacional cheia de sucessos. Será preciso muito foco, trabalho, teimosia, sacrifício, sofrimento, sorte, e talento para se poder ter alguma hipótese em triunfar neste mundo. Para crianças de dez, doze anos ainda acham que é fácil, e que qualquer um consegue ser jogador profissional de futebol (para não falar da pressão que os pais colocam nos filhos, para que estes se tornem nos futuros Ronaldos).

Fonte: Fórum SCP
Ter na sua história dois exemplos com caminhos e finais tão diferentes simplifica muito a forma de, na academia de Alcochete, se explicar aos jovens o que pode acontecer a quem ali esteja para trabalhar e os que estejam simplesmente confiantes nas suas capacidades inatas. Nascer com jeito para o futebol não chega na alta competição, e até os predestinados têm que trabalhar e sofrer para vencer.
Ver o Rui Patrício e o Adrien dizerem que era fácil jogar na equipa do Fábio porque ele podia resolver os jogos sozinho, e que até voltava atrás para fintar novamente os adversários, mostra o quanto seria fácil a esse jogador ter-se tornado no jogador com mais bolas de ouro. Essa facilidade, no entanto, terá sido o seu pior adversário, uma vez que o convenceu de que não precisava de mais que o seu talento para triunfar. Tinha o talento, faltaram-lhe todas as outras vertentes já aqui descritas. Ao ouvires jogadores como o Rúben Semedo, Gelson Martins, Luís Maximiano, ou Diogo Brás, sobre o exemplo de Paim, e o quanto é importante esforçares-te e trabalhar para alcançares o objectivo de seres futebolista profissional, percebe-se o que isso acrescentou à formação do Sporting, por ser um exemplo acabado do que pode correr mal, mesmo a um predestinado.
Para que os miúdos da formação do Sporting entendam o que pode ser o mundo do futebol, é muito mais importante haver um Fábio Paim que um Cristiano Ronaldo, para que muitos mais possam ter hipótese de se tornarem Ronaldos, apesar de a maioria nunca o conseguir fazer, mas já com essa consciência e preparados para seguirem outro caminho que seja a melhor opção para eles. Fábio Paim é o antagonismo de Cristiano Ronaldo, e serve para que os que aspiram a uma carreira de jogador de futebol, não vivam deslumbrados com a falsa ideia que qualquer um pode ser uma grande estrela.
Quanto ao Fábio Paim, ele próprio reconhece que tomou decisões erradas, umas por culpa própria e outras por influências externas. E quando essas influencias vêm das pessoas erradas pode ser também um factor diferenciador quanto ao sucesso dos jogadores, podendo mesmo destruir o bom trabalho de formação até aí alcançado, mesmo que se conheçam todas as variáveis. Partindo-se do principio de que connosco será diferente, ou de que a nós não acontece, será meio caminho andado para se cair nos mesmos erros de outros.

Fonte: Facebook de Fábio Paim
Paim pode não ter tido a carreira que poderia ter tido, mas foi muito valioso para a futura carreira de vários jovens que despontam na Academia Sporting. Porque inteligentes são os que aprendem com os seus erros, e as experiências conhecidas de outros, sejam elas boas ou más. Fábio Paim podia ter sido um craque e não o foi, mas ainda vai a tempo de ajudar muitos futuros craques. O próprio, com a sua história de vida, pode inspirar e ajudar muitas pessoas a dar a volta, a lutar, a tomar melhores decisões. Teria sido um excelente orador nas conferências motivacionais que existiram na academia há umas semanas.
Pessoalmente, desejo muita sorte e tudo de bom ao jogador, porque fui também um dos que cresceu a ouvir sobre o mito e sobre a sua queda. Espero e desejo que isto o tenha tornado mais forte, e o ajude daqui para a frente a ter muito sucesso, dentro ou fora do futebol.
Foto de Capa: Super Sporting









