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O Passado Também Chuta: André Cruz

Romão Rodrigues · 4 min

O Passado Também Chuta: André Cruz
Foto: Sporting CP

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Os períodos castos podem ser bonitos. Deixar a monogamia e dedicar tempo à castidade não é máxima defendida apenas pelo B Fachada. O celibato continua a ter a sua piada. Não para vaguear sem rumo ou direção, mas para traçar caminhos e rotas capazes de entroncar na autoestrada da Luz. A Escuridão e o Medo são muito amigos das inúmeras fragilidades da alma e querem privar-nos da construção de um futuro risonho e com pinceladas cor-de-rosa. Incorrer em práticas impiedosas compromete a procura pelo Bem e pelo Paraíso.

Repare que o autor tentou encetar o texto com uma analogia da qual podia sair algo com graça, mas rapidamente desistiu da ideia. Depois, sabe-se lá por que motivo, adotou um estilo de escrita dúbio e insaciável que mescla auto-conhecimento, fé na Humanidade e (certamente) muito álcool. A parte do álcool esteve implícita até há momentos. Agora, tenta a todo o custo arranjar alguma ligação com o que veio cá escrever. Não lhe ocorre nada.

No desporto, Rúben Amorim compila 20 e tal exemplares de auto-ajuda e manuais idênticos. O início de época atribulado não mancha o trabalho realizado desde 2020, principalmente a nível defensivo.

Era por estas linhas que tinha em mente encaixar o tema deste texto. Vou arriscar.

Penso em André Cruz quando olho para as últimas exibições do Sporting CP. Betão armado, trancas a uma porta que pode ter-nos custado parte do sucesso desportivo da presente época e muito pé esquerdo. Refugio-me, pois, nos arquivos existentes a fim de conhecer melhor um central que não me lembro de ver jogar e nas conversas com quem é mais velho do que eu.

Camisola 50 quando aterrou, camisola seis quando partiu. Calculemos, irmãos! 50-6= 44. A expressão “nem oito, nem 80, às vezes é neessário ser um 44” não lhe assenta. Normalmente, o central era oito vezes a dezena sempre que jogava.

Janeiro, 2000. De Torino para Lisboa.

Tarimba certificada. Quiroga relegado para o banco de suplentes. Inverno molhado, mercado abençoado. O Pai Natal chegou por altura dos Reis. Parte do título 1999/2000 tem o nome de André Cruz. Discrição, faxina e aptidão para bolas paradas. A canhota portentosa rendeu pontinhos preciosos. Que o diga o FC Porto, naquele dia de março muito verde.

O vulcão Alvalade expeliu lava verde através de um livre que, se fosse encenado, não saía tão perfeito: pouco balanço, remate extremamente colocado, esférico a fugir do guarda-redes, Vítor Baía pregado ao relvado e de trombas – quando focado novamente pelas câmaras – e entrada no elevador para o primeiro piso do edifício do Campeonato Português. Alternou, com Beto, a guarida de Mário Jardel durante a partida. Na consagração, em Vidal Pinheiro, fez esquecer o avultado preço dos bilhetes e tratou de espremer o à altura SC Salgueiros com mais dois livres diretos.

Quando vi os primeiros vídeos, tive a sensação (errada, claro) de que se tratava de um médio, dada a qualidade com bola dada: pela capacidade de progressão no terreno, quer em condução quer através da introdução do passe longo nos redutos adversários. A partir de um certo momento, André Cruz acrescentou à sua lista de execução os cantos à direita e grandes penalidades. Todos os que jogaram FIFA ou PES tiveram um momento no qual colocavam o melhor jogador da equipa encarregues da marcação de bolas paradas perigosas. No caso do Sporting CP, aconteceu de 2000 a 2002 com o brasileiro e foi tão real que ficou gravado para a posteridade.

Beira Mar 1-2 Sporting CP (05.01.2002)

Vitória tirada a ferros num campo tradicionalmente espinhoso. Consolidação do primeiro posto e presságio para um ano inesquecível. Ainda faltavam 17 jogos. O primeiro mirar pode não ser esclarecedor. Eu elucido.

Falamos de uma equipa constituída pelo maestro João Vieira Pinto, pelo artilheiro Mário Jardel, pelo irreverente Ricardo Quaresma, pelo talento incompreendido de Pedro Barbosa e pela liderança de Beto Severo. Nenhum destes – repito, nenhum – decifrou a combinação secreta do triunfo. Mário Duarte à pinha. Nada saía bem, a chuva intranquilizava o banco e os adeptos, a interpretação do papel “jogar como um todo” embatia sempre na estratégia defensiva dos meninos de António Sousa. Fary e Juninho Petrolina davam dores de cabeça sempre que o Beira-Mar aproveitava o balanço ofensivo do Sporting CP.

André Cruz serenou as hostes. Podemos designar o que fez de rasgo individual, apesar da frequência com que os delineava. Duas bombocas de livre direto, uma na primeira e outra na segunda parte. Numa fração de segundos, o defesa central pegou em papel químico e reproduziu o golão que tinha marcado. O teaser é digno de Cannes ou Veneza, mas nem nomeado foi. Uma tristeza!

“Jogar mal? Nunca!”

A expressão anterior é atribuída a meu pai e a outros leões conhecidos. Sempre que relembramos jogadores e glórias do clube e tocamos no nome do internacional brasileiro, as palavras “Jogar mal? Nunca!” são assinaladas com veemência. Um dia, caí no erro de argumentar contra aquilo que diziam.

“Lionel Messi, Diego Maradona, Johan Cruyff, Zinédine Zidane, Zico, Eusébio, Péle, Maldini, Beckanbauer, Baresi, Van Basten e muitos outros craques já passaram ao lado de algumas partidas, ainda que fossem pouquíssimas. Ou não? O André Cruz já fez um ou outro jogo mau, de certeza”.

“A bola saía sempre redonda dos seus pés. Não tivemos um central melhor do que ele, pelo menos que nos lembremos. Fino, requintado. Claro que já fez um ou outro jogo menor. Contudo, mesmo aí, estave um furo acima de todos os defesas que passaram pelo Sporting CP. Todos os que enumeraste nunca jogaram mal. Foram mortais em certas exibições. Acontece à maioria. Tal como André Cruz, aqui no Sporting CP”.

Romão Rodrigues

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