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O regresso aos três centrais e o velho vício de recuar | Shakhtar Donetsk 0-1 Sporting

Duarte Rêgo · 3 min

Tiago Fernandes Sporting
Foto: Sporting CP

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A grande ironia da noite europeia do Sporting reside no facto dos três pontos terem nascido dos velhos hábitos desta época

As semanas de transição técnica costumam empurrar os treinadores interinos para o caminho do conservadorismo, mas Tiago Fernandes decidiu contrariar a regra na sua segunda passagem por Londres ao comando do Sporting.

No tempo entre a saída de Rui Borges e a chegada de Paulo Fonseca ao Sporting, e com apenas um treino para preparar a visita ao terreno emprestado de Stamford Bridge, o técnico leonino promoveu cinco alterações e resgatou o sistema de três centrais, desenhando um 3-4-1-2 que procurava devolver estabilidade defensiva à equipa sem abdicar de peso na frente. Contudo, a grande ironia da noite europeia do Sporting reside no facto de, apesar da revolução no quadro tático, os três pontos terem nascido dos velhos hábitos desta época, tanto no momento de construir o golo como na incapacidade de gerir a vantagem com bola.

O arranque da partida expôs rapidamente as dores naturais de um modelo do Sporting montado em cima do joelho. Se lá atrás a aposta no jovem Eduardo Felicíssimo no eixo do trio defensivo, ladeado por Eduardo Quaresma e Gonçalo Inácio, deu garantias imediatas na resposta ao poderio físico ucraniano, o processo ofensivo leonino emperrou por falta de coordenação. Ao juntar Fotis Ioannidis e Luis Suárez na frente, com Issa Doumbia nas costas, a ideia passava por ter o avançado grego a baixar para ligar jogo enquanto o colombiano atacava a profundidade. Na prática, os dois pisaram frequentemente os mesmos terrenos, congestionando a zona central e deixando Doumbia sem linhas de passe nem espaço para acelerar entrelinhas.

Do outro lado, o Shakhtar de Arda Turan não precisou de grande elaboração para incomodar. Confortável a sair curto desde trás e a explorar a largura, encontrou nos pés de Alisson Santana um foco permanente de desequilíbrio na ala direita e só não foi para o descanso em vantagem porque Kaua Elias, completamente solto ao segundo poste, desperdiçou uma ocasião soberana em cima do intervalo.

Foi precisamente na leitura dos espaços ao intervalo que o Sporting começou a ganhar o jogo. Corrigida a sobreposição entre Suárez e Ioannidis no segundo tempo, a equipa ganhou outra fluidez nas combinações interiores e permitiu que Issa Doumbia deixasse de ser um criativo estático para fazer aquilo em que realmente se destaca em romper a segunda linha para atacar a área. Depois de um primeiro aviso do médio italiano logo a abrir o segundo tempo, e de um corte providencial de Gonçalo Inácio em cima da linha de golo a negar o festejo a Kaua Elias, o 0-1 surgiu perto da hora de jogo num lance que resume o melhor que o Sporting construiu ao longo da temporada.

Numa excelente combinação pelo corredor central entre a dupla de meio-campo e o ataque, Sergi Altimira picou a bola para o coração da área e, após um corte incompleto de Pedro Henrique, Doumbia apareceu no sítio certo para confirmar a sua vocação para marcar fora de portas na Champions League.

Durante o quarto de hora seguinte, com o Shakhtar obrigado a abrir linhas, viu-se a versão mais autoritária dos leões, fundamentada numa grande exibição de Silas Andersen. O médio dinamarquês foi a verdadeira bússola da equipa em Londres, limpou transições, deu critério à circulação ao lado de Altimira e ainda isolou Luis Suárez para um segundo golo que teria acabado com o encontro.

O desperdício do avançado colombiano na cara de Dmytro Riznyk acabou por reabrir a porta a um problema crónico que nem a mudança de treinador nem o regresso aos três centrais conseguiram disfarçar. Nos últimos vinte minutos, em vez de congelar o ritmo através da posse de bola, algo que nem a entrada de Rodrigo Zalazar conseguiu proporcionar, o Sporting encolheu-se perigosamente junto à área de Rui Silva e entregou a iniciativa ao adversário.

Massacrado pelos corredores laterais, onde Alisson Santana transformou o duelo com Maxi Araújo num pesadelo constante, o conjunto verde e branco sobreviveu até ao apito final graças às intervenções de Rui Silva e à escandalosa falta de pontaria de Kaua Elias e Newerton na pequena área. Tiago Fernandes cumpre a missão com distinção e entrega a Paulo Fonseca uma equipa com nove pontos e o caminho bem aberto na Champions League, mas o novo timoneiro leonino já sabe por onde terá de começar o trabalh, ensinar este Sporting a descansar com bola quando o marcador lhe é favorável.

Duarte Rêgo

Redação Bola na Rede · ver artigos

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