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Oremos, irmãos sportinguistas!

Romão Rodrigues · 3 min

Dirijam-se ao Padre Amorim, confessem os vossos pecados e regressem ao lugar com as respetivas preces. Oremos, irmãos sportinguistas! Tiago Ilori
Foto: Carlos Silva/Bola na Rede

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Quem acompanha os meus escritos religiosamente, entende o meu fascínio por colocar o leitor no campo da hipótese, da suposição e da fertilidade da sua imaginação: largá-lo sem nenhum tipo de explicação ou orientação prévia, e observar a capacidade que o mesmo augura em si para sair da encruzilhada, a maneira e o plano que giza, a astúcia ou a falta dela para contornar um obstáculo surpresa. Além disto, confesso também a imensa satisfação quando tudo se abate sobre ele e a clausura se evidencia.

Desta vez, não está nos meus planos encarreirar por uma vertente distinta. O parágrafo anterior levantou o véu sobre o cenário mental que se pretende construir, mas, pela inexistência do destaque nas palavras que – a meu ver – o mereciam, o leitor não alcançou e deitou por terra o planeamento cuidado. Sim, a culpa foi toda minha. Não confio em atos de vassouras voadoras nem no lançamento de búzios. Peço, educadamente, que confira os termos “confesso” e “religiosamente” e que os mais devotos terminem a leitura no final desta linha.

(Silêncio, já estamos dentro da catedral leonina.)

(Alinhem-se por posição, da defesa para o ataque, e não por índice de incompetência)

(Dirijam-se ao Padre Amorim, confessem os vossos pecados e regressem ao lugar com as respetivas preces.)

Comum Rosier – Sr. Padre, não lhe vou mentir: vim de uma lesão e ainda não encontrei a forma física desejada: além disso, peco na antecipação ao adversário e na postura a adotar defensivamente; tenho medo de disputar a bola e dou imenso espaço ao adversário.

Padre Amorim – Menino Rosier, tenha mais atenção nos treinos. Implementei o sistema tática 3-4-3 precisamente por ser um dos promotores desse pensamento. Se prometer que a sua vontade passa por mudar de comportamento, dirija-se ao altar e reze 20 Avés-antecipações e 30 Santas- disputas de bola.

(Próximo!)

Comum Ilori – Sr. Padre, eu assassinei o termo “defesa central”. Deparei-me com ele à chegada a Alvalade. Tentei que ele me desse atenção e era contraproducente. O efeito em mim foi contraditório: em vez de gerar desinteresse, apaixonei-me. Contudo, faltava a reciprocidade e as maiores preocupações dele foram sempre Mathieu e Coates. Um dia de muito nevoeiro, conduzido pela minha insanidade, degolei-o.

Padre Amorim – Que desilusão! Por mais que quisesse perdoar tal ato hediondo, o que me acabas de transmitir impossibilita tal coisa. Vá-de Retro, Ilori!

(Próximo!)

Comum Borja – Sr. Padre, confesso, em primeira mão, que ando a folhear Crónica de uma Morte Anunciada. Digo-lhe isto, porque sou conhecedor dos seus amores por Gabriel García Márquez. É inútil confessar-me, porque já sabe de cor e salteado todos os meus atos pecaminosos. Estou perdoado?

Padre Amorim – Borja, não me comove minimamente com as suas preferências literárias. Portanto, não tente armar-se em narcotraficante e subornar-me. Dirija-se ao altar, reze toda e qualquer oração 100 vezes, leia a Bíblia e transcreva-a e não volte a colocar cá os pés.

Comum Doumbia – Sr. Padre, sinceramente, desconheço a razão que me trouxe aqui. Sou o único médio-defensivo de raiz do plantel, não tenho qualquer pecado ou ato passível de condenação. A culpa é do Padre, sim, é do Padre, porque nunca me coloca na posição de estanque de possíveis hóstias fugidias.

Padre Amorim – Que arrogância e prepotência! Seu agnóstico de meia tuta! Saber reconhecer defeitos é uma virtude e o menino Doumbia está a surpreender-me pela negativa. Perdi a vontade de o encaminhar. Solicite o empréstimo ou a compra futura!

Comum Eduardo – Sr. Padre, antes de mais, desculpe o incómodo. Queria só pedir, pela última vez, uma oportunidade de perdão. Eu prometo que me esforço para combater o pedantismo. Aliás, eu a….

Padre Amorim – Mas quem é que o deixou entrar outra vez? Já não tínhamos falado acerca deste menino e do seu comportamento? Vou repetir pela última vez: menino Eduardo, não o quero junto dos mais jovens nem do resto do plantel. Vá-se embora! Já!

Oremos, irmãos sportinguistas!

Artigo revisto por Joana Mendes

Romão Rodrigues

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