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Numa primeira instância, os factos: sou adepto de um clube rotulado de “grande do futebol português” – por mais interpretações e juízos que daí se possam extrair – e possuo um sentimento de compaixão e de vínculo, ainda que mais tardio, com o Moreirense FC, clube da terra na qual colori a maior parte da minha infância. Perante este desabafo, e ainda no campo factual, fui também vítima do bairrismo bacoco e da diversidade argumentativa que suporta a bizarria infundada.
Numa segunda instância, o prazer oculto: em todo e qualquer campeonato, apraz-me assistir a uma partida na qual alegadamente está na moda a equipa que preencha uma checklist do supremo, ou seja, seja desarmada, dominada e esconjurada. A igualdade, palrada desde o urro dos primatas, atinge o futebol com pequenas alfinetadas, e ver isso é estimulante.
Uma equipa que não recue, que aproveite meticulosamente as debilidades defensivas e que urda uma tática responsável que cesse a atividade das peças chaves adversárias não se agiganta perante o dito gigante? Como na gíria se distancia o “à vontade” do à vontadinha”, no futebol urge segregar o “respeito” do “respeitinho”. Que se deixe de pedir licença para trespassar a soleira da porta quando os dois pés já a transpuseram!
Em conformidade com a moratória, encerram-se aqui cinco exemplos ilustrativos:
5.
Moreirense FC 2 – 2 Sporting CP (2012/2013): Elias envergou a braçadeira de capitão, Daniel Pranjic (quem?) jogou 65 minutos e Vercauteren orientava a formação leonina. A famosa época do sétimo lugar do Sporting CP. Foi só um dos bonitos capítulos para o epílogo desastroso. Primeira parte de avanço, dupla desvantagem e uma equipa a vomitar falta de ambição. Segunda parte com ambição muito reduzida (melhorou!), dois golos em cinco minutos, Carrillo embevece com uma jogada que pecou na finalização. Juventude Leonina perpetrou 90 longos silêncios. Moreirense FC agiganta-se perante o pequeno. À data, o resultado favoreceu os leões.
4.
Sporting CP 1 – 1 Moreirense FC (2014/2015): Em Alvalade, manda(m)… os dois. Neste caso, o demérito leonino equidistou-se ao mérito dos cónegos. O cerco foi montado por Miguel Leal e a aposta recaiu sobre a solidez defensiva, impedindo a reaproximação dos avançados e a facilidade de remate proveniente de Montero (autor do golo do empate, minuto 90+2), com o contra-ataque na mira, servindo, sempre que possível, a velocidade de Paulinho, Elízio e Arsénio. Marco Silva, fruto da sua inexperiência, não soube contornar a situação.
3.
Sporting CP 1 – 1 Moreirense FC (2011/2012): um Sporting CP capaz do melhor e do pior: o empate com o, à altura, não primodivisionário Moreirense FC é uma mancha na secção do currículo que diz respeito à Taça de Portugal. Pode argumentar-se que o Ribas jogou 15 minutos? Efetivamente! Mas creio que não seja uma desculpa viável. Nabil Ghilas desgastou o Capitão América Onyewu, Valeri Bojinov entrou e decidiu o jogo: no último minuto da partida, vilipendia Matías em búlgaro, pega na bola e converte o penalty… para as mãos de Ricardo Ribeiro. Acima de tudo, experiência!
2.
Moreirense FC 1 – 0 Sporting CP (2003/2004): O cónego doutrinou o leão. Uma das melhores exibições já realizadas diante de um grande do futebol português. O futebol de Manuel Machado – sim, leu bem – foi jogado temerariamente, com o devido aproveitamento dos espaços e com a guarda da posse de bola durante a íntegra da primeira parte. Na segunda, o leão desestabilizou e, ainda que sem brilho, sairia – em condições normais – com os três pontos de Moreira de Cónegos. Não o conseguiu e deve-o à encomenda feita ao árbitro Martim dos Santos. Lito correu desenfreadamente e constituiu um genuíno apoio a fim de Manoel cruzar a meta. A acalmia num prado verde com uma arbitragem Dourada.
1.

Fonte: Sporting CP
Moreirense FC 3 – 2 Sporting CP (2012/2013): Taça de Portugal, terceira eliminatória: estava escrito desde o Big Bang que iria ser a noite de Pablo Olivera. O uruguaio foi indomável e utilizou a sua técnica para domesticar um leão que nunca se soube colocar confortável, mesmo estando na dianteira desde o minuto sete. Ligou-se o “complicómetro” escusadamente e adivinhava-se o epíteto de “tomba-gigantes” no noticiário informativo do dia seguinte. Wagner assentiu e ordenou que o acontecimento seguisse viagem. Um Moreirense repleto de maturidade, discernimento e perspicácia que foi David e um Sporting complacente, débil e à deriva num Oceano que foi Golias.
Artigo revisto por Mariana Plácido










