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O jogo com o Rio Ave mostrou um Sporting pouco dinâmico, que fez o suficiente para ganhar o jogo mas que, ao mesmo tempo, esteve longe de ser demolidor. A equipa não está no seu melhor período e, apesar de continuar a ser líder, deixou de estar isolada e tem um calendário mais difícil do que o rival Benfica. Os principais problemas da equipa – uns exclusivos do último jogo, outros nem tanto – são a meu ver cinco, e podem ser divididos da seguinte forma: três questões mais recorrentes, uma realidade incompreensível e outra de carácter potencialmente irreparável. Aqui ficam:

 

OS TRÊS PROBLEMAS RECORRENTES DO SPORTING:

– Entrada entorpecida em campo… outra vez

O Sporting tarda em resolver os seus jogos. E se dissermos que, esta época, os leões já foram 8 vezes para o intervalo empatados em jogos do campeonato, e o Benfica apenas 5? E se a isso juntarmos que, desde que Luís Filipe Vieira pressionou os árbitros, após o jogo com o Rio Ave – isto é, cingindo-nos apenas a 2016, uma vez que essa partida foi a última de 2015 – o Benfica foi para o intervalo por 3 vezes a ganhar por 2 ou mais golos, e o Sporting somente uma? Acrescente-se a desvantagem dos leões por 0-2 ao intervalo com o Braga, por 0-1 com o Tondela a jogar com 10, e ainda o golo do empate (irregular, mas que contou) da Académica em Alvalade no início do segundo tempo, e encontramos uma parte da explicação para os recentes resultados negativos do Sporting.

Pouco interessa para o caso o “factor-colinho” – adensado precisamente desde essas palavras natalícias de Vieira, que tiveram repercussões práticas nos jogos contra Guimarães, Nacional e Arouca. A verdade é que, nesse mesmo período desde o início do ano civil, os únicos jogos em que o Benfica não foi para o intervalo em vantagem foram a deslocação à Cidade-Berço e o jogo fora com o Estoril. Ao contrário, nessas mesmas 7 jornadas, o Sporting teve apenas 3 jogos relativamente tranquilos: com o Porto (e aqui a tranquilidade é discutível, porque se tratava de um clássico e porque o golo da confirmação só aconteceu a cinco minutos do fim), com o V. Setúbal e com o Paços de Ferreira.

Qual é, pois, a consequência prática de a equipa não resolver cedo os seus jogos? Não é difícil adivinhar: maior pressão, ansiedade e sobrecarga física, resultantes de um campeonato invariavelmente disputado em contra-relógio. Jogadores como Aquilani ou Matheus Pereira têm tido menos minutos do que seria expectável, em parte porque, precisando o Sporting de marcar, a entrada de um e de outro em campo nem sempre é oportuna (embora por razões diferentes).

E é bom que tenhamos uma coisa bem presente: no campeonato português, em que 90% das equipas recuam as suas linhas e jogam para o empate com os grandes, é crucial marcar cedo. Para isso, a procura do golo tem de ser incessante desde o início. Marcando o primeiro, a probabilidade de se seguirem mais golos, em virtude de o adversário ser obrigado a subir, é muito alta. Há também que ter em conta, no entanto, que a escolha dos titulares tem influência no ritmo do jogo, porque há atletas mais imprevisíveis, explosivos e rápidos a atacar a mais pequena nesga de terreno que o adversário conceda, e outros talhados para um estilo mais paciente e de posse, óptimo para gerir resultados mas não tanto para sobrecarregar adversários que desmontam pouco o bloco. Ao Sporting faltam atletas que caibam na primeira descrição e sobram-lhe futebolistas que encaixem na segunda.

 

– Pouca largura e profundidade

Pouco mais há a dizer quando os flancos são quase exclusivamente explorados pelos laterais. A procura do espaço interior é benéfica porque confunde marcações e aproveita espaços “mortos” entre linhas, mas torna-se algo contraproducente quando é explorada até à exaustão sem que haja um plano B mais veloz e directo. Ou seja, um extremo ágil, que não descure a capacidade de vir para o meio, mas que tenha grande qualidade no 1×1 e seja capaz, portanto, de baralhar as defesas com a imprevisibilidade das suas decisões (“Será que vai tocar para o lado ou partir para cima do defensor? Será que é preferível o defesa sair de posição e atacar a bola ou fazer contenção?”). O Sporting tem um plano A, mas o plano B é insuficiente. E, quando as alas estão entregues a Bryan Ruiz e João Mário (não está em causa a qualidade dos jogadores em questão), isso torna-se ainda mais claro.

Não há volta a dar: Carrillo faz muita falta, e não é por ser uma pessoa sem carácter, de espírito fraco e ludibriada por um traficante de seres humanos, aliás, “empresário de jogadores”, que deixa de ser um grande futebolista. A sua falta pode não ser sentida no jogo X ou Y – o que leva logo vários adeptos a entrar numa falsa euforia por quererem fazer crer que o jogador era prescindível – mas é muito notada numa competição de regularidade. E quem diz Carrillo diz qualquer jogador totalmente desenvolvido, como o mercenário peruano já era, e que sirva de contraponto malabarista e explosivo a um modelo que privilegia o jogo interior e que, em virtude dos jogadores disponíveis, é um tudo-nada previsível demais. Gelson evoluiu mais rápido do que eu esperava e Matheus também já foi importante, mas não é de todo a mesma coisa.

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Não se entende que Bryan tenha sido deslocado para a esquerda para Teo entrar no 11
Fonte: Sporting CP

– Insistência em William Carvalho

Sei que é fácil “jogar no Euromilhões à segunda-feira”, ou seja, criticar as opções do treinador a posteriori. É por isso que admito que também eu teria iniciado o jogo com William, porque continuo com esperanças de que ele volte a ser o que era. Contudo, ontem foi o tira-teimas: uma vez mais, o médio não acrescentou nada à equipa. William nunca foi veloz, é certo. Mas, actualmente, junta à lentidão na aceleração, que sempre teve – e que, por si só, não é um ponto fraco caso seja bem compensada – a lentidão de pensamento e de processos. Erra passes (só nos primeiros 15 minutos foram 4), chega atrasado a lances onde antes era intransponível, transporta demasiado a bola em vez de a fazer circular, arrisca quando deve jogar simples e toca curto e de forma redundante para o lado quando deve virar o flanco de jogo.

O que se passa com William? Arrisco uma explicação: os seus predicados ofensivos (isto é, com bola para construir) não pioraram mas, num esquema de apenas dois médios, são mais solicitados. O mesmo se pode dizer da aceleração e velocidade, por forma a chegar a tempo de parar transições potencialmente perigosas. Como tal, e sabendo também que atrás de si tem apenas a linha defensiva – bastante subida, por sinal – William tende a resguardar-se mais. O problema é que, não participando de forma palpável na construção, e mais ainda numa equipa orientada para o ataque continuado, o médio perde o estatuto de insubstituível. Aquilani, por exemplo, garante melhor qualidade de jogo ofensivo em partidas de sentido único, e tem justificado mais minutos.

Como consequência, o português modificou um pouco o seu jogo e isso, como não poderia deixar de ser, nota-se em campo. Optar por William numa partida em que o Sporting tem o estatuto de claro favorito é, neste momento, jogar com um a menos. A evolução de Adrien deve chegar para as compensações defensivas, tendo o Sporting a ganhar com o regresso de João Mário à sua posição de origem. Na maioria dos jogos fora, em que os adversários se apresentam, por norma, um pouco mais afoitos, entenderei melhor a titularidade de William. Em Alvalade, chega.

 

O PROBLEMA INCOMPREENSÍVEL:

– Titularidade de Teo Gutierrez (e as mexidas que isso implica)

Teo poderia ter conquistado os adeptos caso, à semelhança de Bryan Ruiz, compensasse o baixo ritmo e a pouca explosão com uma inteligência ímpar e com velocidade de pensamento e de execução. Mas não é o caso. Teo revela-se um jogador de fogachos que, como se não bastasse, disfarça bem a vontade de jogar em Alvalade, se é que a tem. Até à hora do jogo, estava longe de imaginar que o prémio que Jesus lhe daria pelos acontecimentos natalícios seria a titularidade. Tal decisão podia justificar-se caso Teo fosse o jogador imprescindível que nunca mostrou ser; assim, soa apenas a fetiche de JJ. E quem o conhece bem sabe que é comum ele tê-los – César Peixoto, André Almeida e Ola John foram apenas alguns.

A titularidade de Teo parece ser teimosia do treinador, que procura provar que estava certo quando pediu a contratação do colombiano. O problema é que passa a mensagem de que não jogam os melhores nem os mais comprometidos com o grupo e, pior, mexe em peças que deveriam manter-se intactas para encaixar o “seu” atleta. Depois de vários meses a actuar do lado esquerdo, Bryan Ruiz aproveitou a ausência de Teo para mostrar que rende muito mais no meio, o seu habitat natural. Deslocando-o novamente para o flanco canhoto, Jesus não só rebobina desnecessariamente a cassete da época como priva o Sporting de alguém mais veloz e agitador na ala, tão importante neste tipo de jogos em casa. É bom que JJ perceba que Teo não pode ser titular e que Bryan é melhor no centro, porque este ano não há margem para teimosias.

Nesta altura, aliás, seria de esperar que já se tivesse tornado nítido para todos que o Sporting precisa de começar as partidas caseiras com pelo menos um extremo: Bruno César tem estado bem, por que razão não jogou? Com o resultado empatado, por que motivo Gelson não entrou ao intervalo ou, no máximo dos máximos, em vez de Barcos? Esperar até menos de 20 minutos do fim pareceu-me excessivo. O onze do jogo de ontem pareceu uma remodelação um tanto apressada para encaixar Teo como titular a todo o custo… e a equipa ressentiu-se de ter um jogador que já não jogava para o campeonato desde 13 de Dezembro.

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“Só damos pela falta de algo quando já não o temos”. Montero oferecia qualidades únicas ao Sporting
Fonte: Sporting CP

O PROBLEMA POTENCIALMENTE IRREPARÁVEL:

– Saída de Fredy Montero

O Sporting enfraqueceu. Saiu um avançado mal-amado, mas de características únicas e que era um bom complemento de Slimani nos jogos em que era preciso marcar e o adversário já estava desgastado. Montero servia-se da sua técnica, inteligência, velocidade de pensamento e de execução para aproveitar os espaços curtos como ninguém, ora fazendo recepções e remates irrepreensíveis ora recebendo e colocando de imediato a bola bem redondinha nos pés de colegas. A sua magia e imprevisibilidade eram uma espécie de antídoto contra equipas mais fechadas – a esmagadora maioria. Este texto do blog Lateral Esquerdo mostra bem a importância do colombiano.

O “mal” de Montero foi ter marcado “demasiados” golos nos primeiros três meses em que cá esteve, fazendo muitos acreditar que ele era aquilo que nunca foi: um novo Jardel. Ainda assim, em dois anos e meio fez 37 golos. A sua saída fez com que aumentem tanto a dependência da inspiração de Bryan como da cabeça de Slimani – e, portanto, de um jogo exterior que é, nesta altura, deficitário. Pelas características que tem, Barcos será sempre substituto do argelino, e o próprio Teo também não é um segundo avançado (até JJ o disse numa entrevista). Com a venda de Montero os leões tornaram-se, portanto, uma equipa mais previsível. O atleta tem legitimidade para querer sair, mas esta transferência, ainda para mais no último suspiro do mercado, foi incompreensível. Em virtude das qualidades técnicas ímpares do jogador, raras no plantel do Sporting e no nosso campeonato, temo que seja também irreparável.

A fechar, uma curiosidade: em 3064 minutos disputados em 2014/15, Slimani marcou 18 golos. Montero, seu suplente, jogou 2159 minutos (menos 905 do que o colega, o que equivale a mais de 10 jogos completos) e marcou 15 golos. Quase o mesmo registo para alguém que, para além de não ser titular, não gozava do mesmo estatuto perante os adeptos. Talvez por não ser alto, nem atlético, e de não festejar tanto quando marcava. Esta época, Montero já tinha ajudado a resolver 4 jogos. Mas um é “matador”, o outro é o “gajo apático que anda a dormir”. Vá-se lá perceber esta lógica… É o que dá quando se julga o livro pela capa – ou, neste caso, o jogador de futebol pelos seus festejos.

 

Foto de Capa: Sporting CP

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