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Vida de Árbitro – Entrevista a Olegário Benquerença

Tomás Gomes · 19 min

Vida de Árbitro – Entrevista a Olegário Benquerença

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Olegário Benquerença é um dos nomes de referência na arbitragem portuguesa e marcou, sem dúvida, o início do século. No seu currículo conta com o Euro’2008 e Mundial’2010 e vários jogos para as competições de clubes da UEFA. É um árbitro de elite. O antigo árbitro leiriense fala, pela primeira vez desde que terminou a carreira, sobre como é este mundo da arbitragem e as suas opiniões em relação às novas tecnologias no futebol, à próxima geração de árbitros e aos presentes de clubes a árbitros.

Bola na RedeFaz em Junho um ano que se afastou dos relvados. Sente saudades?

Olegário Benquerença: Eu nesse assunto digo muito simplesmente: não tenho saudades. Tudo na vida tem um tempo e se há actividade que está devidamente estipulada quanto à sua permanência é a arbitragem. Todos os árbitros sabem que aos 45 anos de idade terminam as suas carreiras. Portanto, penso que quem for organizado mentalmente se prepara atempadamente para chegar ao fim; fechar a porta e viver apenas de recordações dos bons momentos que teve ao longo desses anos todos.

BnR: Durante os anos em que arbitrou conseguiu sempre separar a sua profissão da actividade de árbitro?

O.B.: Quando se chega ao nível de uma primeira categoria, a árbitro internacional, a arbitragem torna-se muito absorvente em termos de tempo e disponibilidade para o exercício da função. Os árbitros adequam as suas vidas para poderem estar em disponibilidade total para a arbitragem. Portanto quando se fala no profissionalismo da arbitragem fala-se de uma falsa questão. Os árbitros são já profissionais na atitude, profissionais na dedicação e na disponibilidade que têm para o desempenho, com jogos ao domingo, à quarta, jogos nas ilhas, jogos internacionais… A nossa vida passa por ser-se árbitro e nas horas vagas trabalhar nas profissões que temos. No meu caso concreto, foi uma opção que eu tomei em 2002. Eu era profissional de seguros, trabalhava numa seguradora, e abdiquei da minha carreira pessoal para ter uma disponibilidade total para a arbitragem.

BnR: Qual é que é a história mais marcante que guarda dos anos em que arbitrou?

O.B.: Tenho felizmente muito boas recordações de diversos momentos da minha carreira. Não consigo destacar nenhum momento em particular por razões desportivas, ou porque este jogo foi melhor do que aquele… No entanto, é verdade que o momento mais simbólico de toda a minha carreira foi a estreia no Campeonato do Mundo. Foram muitos anos a sonhar. Quando eu entrei para a arbitragem já alimentava esse sonho e lutei toda a minha carreira para conseguir concretizá-lo. Felizmente consegui e no dia em que fiz o meu primeiro jogo [Mundial de África do Sul de 2010] senti a recompensa por todos os anos de sacrifícios pessoais, profissionais e familiares que tive que fazer ao longo desse período.

BnR: Por falar em competições internacionais de selecções, não há árbitros portugueses no Euro 2016. Acha que se perdeu qualidade na arbitragem?

O.B.: Eu não acho que se tenha perdido qualidade. Provavelmente aquilo que se perdeu, e não foi agora, foi a preparação do momento após a minha saída e após a saída do Pedro Proença. As pessoas, e nomeadamente as pessoas do Conselho de Arbitragem, preocuparam-se sempre muito mais com a gestão das suas próprias carreiras do que com a gestão da arbitragem portuguesa; e a gestão da sua sobrevivência. A prova disso é que ao fim destes anos, nós, arbitragem, fomos forçados a colocar quatro árbitros na lista da FIFA que em conjunto não tinham sequer dez jogos de primeira categoria. Isto é claramente um caso único na história da arbitragem portuguesa, e isto sem pôr em causa o mérito e a capacidade individual de cada um deles.

BnR: As pessoas parecem estar muito longe de conhecer o processo de selecção…

O.B.: Há um desconhecimento muito grande do público em geral, no que diz respeito à forma como são seleccionados os árbitros para as competições internacionais. E essa ausência de conhecimento leva a que se cometam muitos erros de análise, que se cometam muitas injustiças na avaliação, como dizer que o árbitro A ou o árbitro B teoricamente não fez um bom trabalho no jogo A ou B. Não é nada disso. Posso dizer que quando fui ao Campeonato do Mundo de 2010, a pré-selecção dos árbitros que iriam ao Mundial nesse ano foi feita em 2007. Três anos antes! Três anos antes já o mundo sabia de que lote de 54 árbitros sairiam os 24 que iriam ao Campeonato do Mundo. Portanto, durante três anos foi uma ignorância total sobre aquilo que iria ou não iria ser o Mundial no que diz respeito à arbitragem. As pessoas não percebem que o Europeu de 2016 foi preparado em 2013. Assim que acaba o Europeu de 2012 começa-se a preparar o Europeu de 2016. Neste momento, o Mundial de 2018 já tem os árbitros pré-seleccionados.

BnR: Acha que em 2018 Portugal já vai estar representado ao nível da arbitragem?

O.B.: Salvo qualquer imponderabilidade, como abandono de carreira, morte, enfim… Salvo qualquer coisa do outro mundo, Portugal em 2018 estará representado pelo Artur Soares Dias. Ou não terá árbitros. O Artur foi pré-seleccionado pela FIFA, foi fazer testes já no ano passado e está neste momento a competir, se quisermos assim, com um grupo de árbitros do mundo inteiro. Seis meses antes é apresentada a lista, mas essa lista já vem de um trabalho longo de três anos de preparação, selecção, de presença em competições. O Artur esteve no Campeonato do Mundo na Nova Zelândia há seis meses já no plano de preparação. Foi seleccionado para esse Mundial para ser avaliado, para ser acompanhado, monitorizado, e chegará ao fim e terá resultados, ou não. Portanto já sei que daqui a um ano e meio, quando sair a lista, se por infortúnio nosso o Artur não for seleccionado ninguém irá falar disto que estamos aqui a dizer hoje. Dir-se-á na altura que é por causa das arbitragens que ainda hão-de ser feitas no campeonato de 2017/2018 que os árbitros portugueses não irão estar ou irão estar.

BnR: A visão do público, em geral, é de que quem consegue essa selecção consegue-a por mérito individual e não por um trabalho conjunto. A mim parece-me. Acha isso?

O.B.: Há uma tendência oposta, que é a de considerar que os desempenhos individuais, ou os sucessos individuais, são só individuais. Ou seja, o facto de nós estarmos presentes nas grandes competições, de, inclusive, já termos arbitrado finais de competições internacionais, se deveu apenas e só aos méritos individuais. Não foi o Olegário que conseguiu ir ao Campeonato do Mundo, foi o mérito do Olegário, mas foi sobretudo as condições e o trabalho desenvolvido em Portugal ao longo de anos que permitiram que o Olegário tivesse os pré-requisitos que lhe permitissem impor-se perante os seus pares internacionais. A arbitragem portuguesa é reconhecida em termos internacionais como uma arbitragem de grande qualidade. O Pedro veio acrescentar-lhe uma dimensão mais mediática. Teve de facto uma carreira fantástica, um final de carreira de sonho, mas repito: a arbitragem portuguesa não soube catalisar esses desempenhos e essas afirmações internacionais de um ou dois árbitros para se transportar para uma arbitragem de qualidade em termos mediáticos. Para que se possa dizer que é obrigatório que uma competição internacional tenha árbitros portugueses.

BnR: Acha que em Portugal, e no futebol em geral, a arbitragem beneficiaria com a introdução de novas tecnologias?

O.B.: Continua a criar-se uma grande celeuma à volta desse tema, como se os árbitros fossem os opositores dessas tecnologias. Não somos. Há muitas evidências de que os árbitros querem e pedem que haja suporte para as suas decisões, porque já é tempo de nós deixarmos de ser os únicos responsáveis pela tomada de decisões tão importantes. É importante não esquecer que o que tornou o futebol um espectáculo mundialmente reconhecido, que faz mexer economias de países e todo o povo que gosta de futebol, foi precisamente a sua universalidade. O facto de ser possível jogar futebol em qualquer canto desde que haja uma bola e quatro pedras para fazer balizas. Consegue-se colocar miúdos de dez anos a jogar como se fossem Ronaldos e Messis, mas exactamente por isso: porque o miúdo de dez anos joga exactamente com as mesmas condições do Ronaldo e do Messi. Dir-me-ão, os opositores desta teoria do purismo da modalidade, que o Ronaldo e o Messi ganham milhões e os miúdos de dez anos não ganham nada; é verdade. Mas no dia em que fizermos o futebol dos ricos e o futebol dos pobres estaremos a matar o futebol.

Olegário Benquerença esteve no Euro'2008 e Mundial'2010 Fonte: FIFA World Cup
Olegário Benquerença esteve no Euro’2008 e Mundial’2010
Fonte: FIFA World Cup

BnR: Há prioridades antes de se pensar na introdução de novas tecnologias?

O.B.: Não há dinheiro em Portugal para relvar campos, não podemos estar a fingir querer estar a tratar de assuntos sérios e dizer que temos de arranjar meios tecnológicos para os relvados. Eu gostaria de que todos aqueles que estão no futebol profissional e que falam repetidamente em colocar tecnologias começassem por pagar os salários aos jogadores por dar condições e ter condições dignas para de facto estarem nesta modalidade na sua vertente profissional. Depois de atingirmos esse patamar, que eu considero ser o patamar mínimo, então, sim, dedicar-nos-emos às questões de elite.

BnR: Considera, então, este um tema mais mediático que prioritário…

O.B.: Isso não invalida o facto de os árbitros não quererem que a verdade desportiva esteja acima de tudo, e para mim, enquanto árbitro, fico muito mais confortável se estiver suportado tecnologicamente do que se tiver de assumir sozinho essa responsabilidade, correndo o risco de verificar mais tarde que a minha decisão estava errada. De qualquer forma, recordo que há alguns anos houve uma final do Campeonato do Mundo de Rugby, modalidade em que o vídeo-árbitro está implementado, que foi decidida com recurso ao vídeo-árbitro e em que se verificou que, três ou quatro dias mais tarde, a decisão tinha sido errada. Esta é uma questão que serve para manter a agenda mediática, serve para pôr as pessoas a conversar, serve de desculpa quando os resultados não nos convêm…Porque também era importante que os agentes desportivos reclamassem meios tecnológicos quando são beneficiados por erros dos árbitros.

BnR: Como assim?

O.B.: Bastava que os clubes propusessem, e seria um gesto bonito, que, e é óbvio que isto que vou dizer é irónico porque são questões regulamentares que não é possível cumprir, no regulamento das competições, sempre que houvesse erros verificados de forma cabal e sem dúvidas das decisões de arbitragem e de que as suas equipas tinham sido beneficiadas, esses pontos lhes fossem retirados. Se começássemos por aí faríamos uma primeira experiência sobre aquilo que são as tecnologias no futebol.

BnR: Muitas vezes os árbitros acabam por ser os bodes expiatórios do resultado. Não acha que as novas tecnologias podem evitar episódios infelizes como o que aconteceu com Jorge Ferreira há uns meses atrás?

O.B.: Eu não respondo a questões concretas sobre colegas, sobre desempenhos, porque não me compete. Não estou na estrutura, não tenho responsabilidades e não quero, dizendo que estou de fora, estar a interferir com aquilo que acontece. Sobre esse assunto não lhe vou responder.

BnR: Falemos de um modo genérico, então…

O.B.: Generalizando a questão, voltamos ao mesmo. Como é que é possível passar para alguém uma tomada de decisão quando, por exemplo, nós vemos semanalmente a pouca vergonha que são aqueles pseudo-programas de comentário desportivo com pessoas que tinham a obrigação de ter formação intelectual, pessoal, educação, e que se atacam e que se insultam e que fazem verdadeiras demonstrações de pouca vergonha de tudo aquilo que não deve ser o desporto e daquilo que não deve ser o espectáculo e a sã convivência? Por ali temos um bom exemplo daquilo que seria o problema. Já agora, para os árbitros seria fantástico porque passados três ou quatro semanas passaria a ser o realizador o mau da fita.

BnR: Passar-se-ia a contestar a escolha das imagens?

O.B.: É importante percebermos que a mesma imagem em quatro ângulos diferentes pode ter quatro perspectivas e quatro opções de decisão. É passar a responsabilidade da escolha das imagens e das imagens para outra pessoa. E, já agora, para reflexão: porque é que nós vemos tantas repetições de determinados lances em determinadas zonas do terreno a favor de determinadas equipas e só vemos x repetições quando os lances são nas áreas contrárias, quando a situação é contra outras?

BnR: Acha, então, que os portugueses não lidam bem com o insucesso dos seus clubes?

O.B.: O problema dos problemas dos portugueses não se resolve com tecnologia. Resolve-se com educação, formação, com civismo. Há oito dias houve um jogo que foi influenciado por uma má execução de um jogador que fez aquilo que era impensável acontecer… Agora imagine que era o árbitro que tinha tomado aquela decisão. E veja a reacção que tiveram os responsáveis do clube, e muito bem, de protecção ao atleta, comparada com as afirmações e com a atitude que têm quando os erros são das equipas de arbitragem. Todos nós, árbitros e jogadores, directamente, e os treinadores, indirectamente, influenciamos positivamente ou negativamente o jogo, com as nossas decisões e com o nosso nível de desempenho; por isso é que há os melhores e há os menos bons. Os melhores são os que erram menos vezes, porque se quisermos ver dez, vinte, trinta lances do Ronaldo ou do Messi com execuções tão primárias que nem os miúdos dos benjamins as têm também se arranja. É tudo uma questão de perspectiva.

BnR: Nunca se sentiu ameaçado durante a sua carreira de árbitro?

O.B.: Sabe que a vida não se faz de gente medrosa, a vida não se faz de gente que não assume as suas convicções e que não corre riscos. Quem vai para árbitro sabe o risco que corre e sabe que está sujeito a manipulações de massas que tornam o indivíduo, muitas vezes, vítima de culpa alheia. Não é árbitro quem quer; é árbitro quem pode, quem aguenta. Quem tem, de facto, força e coragem. A ameaça é permanente, mas todos os dias em que pego no carro corro o risco de ser morto na estrada por um acidente de viação em relação ao qual não tenho qualquer responsabilidade. Portanto o risco faz parte da nossa vida e esse é só mais um. Até porque se manifestarmos medo estamos a dar força àqueles que usam o terror como forma de coacção.

BnR: Um árbitro é um ser humano como qualquer outro. Tem convicções, opiniões, um clube… Isso nunca o influenciou dentro de campo?

O.B.: A resposta é dada por qualquer um de nós, mas não é entendida por pessoas que nunca viveram a experiência. Quem é sério e quem procura fazer bons desempenhos quando chega ao relvado esquece todo o mundo à sua volta porque tem necessariamente que esquecer. Não é porque quer ou não; é porque tem de ser. É porque a velocidade do jogo e os níveis de concentração necessários fazem com que nós esqueçamos tudo aquilo; se é o A, se é o B, se é o C. Acima de tudo o árbitro tem também a sua competição, quer também progredir na sua carreira, e está focado em ter o melhor desempenho possível. Depois, como é óbvio, eu particularmente passei por ser benfiquista, sportinguista, portista, consoante os jogos e consoante o teórico desempenho que obtive. Numa semana era do Benfica porque errei a favor do Benfica, na semana a seguir já era do Sporting porque errei a favor do Sporting; no dia a seguir era do Porto porque errei a favor do Porto. E, portanto, esta é a riqueza de estar neste espectáculo. As pessoas renegam-se diariamente e fazem acusações. Desmente-se diariamente em função dos acontecimentos do fim-de-semana. Nós passamos por ser tudo e mais alguma coisa e o contrário também. Não tem influência.

BnR: O Duarte Gomes, que também acabou a carreira recentemente, em entrevista ao Expresso disse que simpatizava com o Benfica. Você também simpatiza com algum clube?

O.B.: O Duarte é simpatizante do Benfica, sempre o foi, sempre o assumiu, e não é isso que está em causa. Desde miúdo que as pessoas que comigo convivem sabem quais são as minhas simpatias clubistas. Não são sequer segredo, porque nunca o foram, mas a partir de determinada altura essa simpatia, no meu caso concreto, acabou por se dissipar no meu cérebro porque eu segui outro caminho e o caminho que eu segui foi o caminho da arbitragem. Portanto, quando se está na arbitragem a 100%, física e emocionalmente, o nosso clube é a arbitragem. Todos os intervenientes no espectáculo, as equipas que participam nas competições que nós arbitramos, são parceiros.

BnR: Mas agora que terminou a carreira não deixou o ‘clube’ da arbitragem para voltar a apoiar o seu clube?

O.B.: Eu acabei por perder, se quisermos, o fervor clubista que tinha e passei a conviver no meu mundo, o mundo da arbitragem. Aquilo que acontece aos clubes a mim não me diz respeito; não tenho qualquer tipo de influência nas suas tomadas de decisão, não escolho jogadores, não escolho treinadores, não escolho dirigentes. Cada um segue o seu caminho. Os assuntos relacionados com simpatias e clubismos são assuntos que eu nem sequer alimento e portanto não lhe vou dizer, mas não é segredo e toda a gente sabe qual é a minha simpatia. Até porque se eu dissesse estaria a matar o tal mito de que lhe falei há pouco, numa semana sou de um clube, na outra sou de outro… Portanto, é bom que isso subsista na cabeça das pessoas, para alimentar as suas ilusões e as polémicas e a má língua, e que eu não mate 66% dessa questão.

Árbitro de Leiria comentou a atualidade desportiva no BnR Fonte: Torneio Lopes da Silva
Árbitro de Leiria comentou a atualidade desportiva no BnR
Fonte: Torneio Lopes da Silva

BnR: Falando do Benfica, qual é a sua opinião em relação à polémica dos vouchers?

O.B.: É verdade que o Benfica terá oferecido os vouchers aos árbitros e a camisola do Eusébio e isso tudo. Era bom que todos os clubes, os que atacam essa oferta, essa prenda, começassem por fazer um registo de interesses e dizer aquilo que oferecem também, porque, lá voltamos ao mesmo, estar a criminalizar essa oferta é estar a ofender a honra e a dignidade de muita gente, porque significa que as pessoas alteram e adulteram a sua seriedade em função de receberem um vale-refeição. Essa é apenas mais uma daquelas proezas em que a comunicação social portuguesa é pródiga, alimentar em vez de extinguir a polémica, porque é evidente que querem viver com a polémica.

BnR: Recebeu um alguma vez?

O.B.: A única coisa que posso dizer é que não tenho porque não fiz o Benfica, não sei se eles oferecem ou não oferecem porque não recebi, mas não tenho nada contra. E se tivesse feito o Benfica e se mo tivessem oferecido tê-lo-ia recebido embora não o usasse, como é óbvio. Porque felizmente o dinheiro que ganho no futebol, que ganhei, e que ganho na minha vida profissional ainda chegam para eu comer. Não usaria o voucher como, aliás, nenhum árbitro usou, e a notícia é a oferta quando a notícia devia ser sobre os árbitros que a usaram, mas isso extinguia o problema porque nunca nenhum árbitro utilizou esse voucher, portanto nunca nenhum árbitro comeu à conta do Benfica nesse pressuposto.

BnR: Recebeu prendas de outros clubes?

O.B.: Tenho, felizmente, um museu riquíssimo de recordações da minha carreira que inclui centenas de camisolas, inclui o mais diverso tipo de recordações. Fundamentalmente aquilo que sempre me guiou foi… Primeiro, o que quer que fosse não significaria nada, não conseguiria atingir o objectivo de me influenciar ou de me sugestionar de alguma forma. Segundo, toda e qualquer oferta que me fosse efectuada e que me parecesse estar associada a uma tentativa de excessiva simpatia ou até de conquista de favor seria liminarmente rejeitada. E deixei ao longo da minha carreira, várias vezes, as prendas, as lembranças, que me eram dadas naqueles momentos. Agora é uma falsa questão porque toda a gente, em todos os sectores de actividade, entende como gesto de cortesia quando se visita alguém levar alguma coisa ou quando se recebe alguém importante oferecer alguma coisa. E isso é um gesto de cortesia. A maldade das pessoas e a necessidade constante de encontrar bodes expiatórios para os seus fracassos e insucessos é que leva a que se diabolize um gesto tão simples… Ao ponto de… Quer dizer, este ano houve uma história à volta de um roupão. Chegou-se ao ponto de considerar que um roupão colocado num balneário para uso da equipa de arbitragem fosse considerado suborno! – na cabeça das pessoas, entenda-se.

BnR: O seu último ano foi marcado por lesões e pela reprovação nos exames do Conselho de Arbitragem. Esperava um ano de despedida melhor?

O.B.: Nos últimos meus dois/três anos de carreira fui já fustigado por algumas lesões que me obrigaram a períodos de paragem mais prolongados e portanto isso serviu até para que eu me fosse habituando a viver sem o relvado, sem o cheiro da relva, sem o dia-a-dia que a vida da arbitragem tem. Sobre a história dos testes, um dia, oportunamente, saber-se-á toda a história que culminou com esse processo. Não queria estar aqui a alimentar ou a lançar farpas ou polémicas porque é isso que fica para a história, e isso é um facto, e nem sequer pretendo minimizar o impacto ou a responsabilidade. Se calhar era importante pensar-se porque é que um árbitro com quase 30 anos de experiência, um árbitro ‘top’, europeu e mundial, chega a um ponto de reprovar num teste escrito. Se pesquisarmos, nos últimos 4/5 anos, nomeadamente desde que este Conselho de Arbitragem entrou em funções, verificaremos que houve vários árbitros internacionais a reprovar em testes escritos. Há uma conclusão óbvia que se pode tirar disto: se calhar era importante fazer os testes a quem faz os testes. Para saber se os mesmos estão bem feitos e se as respostas oficiais estão de acordo com aquilo que são de facto as regras do futebol e as directrizes que os árbitros têm. Depois disso, sim, fazíamos todos um levantamento de tudo aquilo que foi esse percurso no que diz respeito às famosas provas físicas e aos testes escritos dos árbitros de futebol.

BnR: Acha que Vítor Pereira se deveria ter recandidatado?

O.B.: Eu não falo sobre o processo eleitoral da Federação Portuguesa de Futebol; não me diz respeito. Não sou eleitor nem candidato a eleito. Portanto, a prudência, o bom senso e a educação ensinam-me a não falar de realidades que não conheço e de assuntos que não me dizem respeito. Sobre o Vítor Pereira também não falo porque ele termina o mandato, e se termina o mandato para o qual foi eleito só tem duas hipóteses: ou continua ou não continua. Tomou a decisão, que seguramente foi ponderada, de não se recandidatar; pois que siga a sua vida e que seja feliz ao longo da mesma e que encontre novas formas de motivação e de ocupação que lhe permitam continuar a viver de acordo com aquilo que são os objectivos dele. O resto, a seu tempo e quem nele está envolvido que se pronuncie. É um assunto que não me interessa e não me diz respeito.

BnR: Nunca pensou em candidatar-se?

O.B.: Não. Entendo que há pessoas muito mais competentes e muito mais disponíveis para o exercício do cargo. E, portanto, eu costumo dizer amiúde e sobre os mais diversos assuntos, e sobre as mais diversas áreas de intervenção, que nós só somos considerados incompetentes quando não percebemos os limites da nossa competência. E portanto nesse pressuposto não me atiro para piscinas nas quais não sei nadar.

BnR: Então acabou tudo no ano passado. A arbitragem fica noutro capitulo da sua vida?

O.B.: Também manda o bom senso e a inteligência nunca dizer nunca. Porque, quanto mais depressa nós renegamos algo, mais rapidamente o mundo e as circunstâncias da vida nos obrigam a renegar. Portanto, eu não fechei a porta. Metaforizando: eu fechei uma porta, mas não dei a volta à chave e não atirei a chave ao rio. Portanto eu estarei disponível para colaborar com a arbitragem se as pessoas considerarem que sou útil e se for com projectos que me motivem e nos quais eu me sinta competente, mas isso não significa que eu esteja à espera de algo ou que esteja ansioso com o que quer que seja. Não quero. A distância é boa conselheira. Eu não fiz qualquer declaração após o final da minha carreira, sou avesso a dar entrevistas porque não tenho nada de importante para dizer, e portanto uma máxima é: se não tens nada de importante para dizer, cala-te. E, portanto, tendo dito que não dava entrevistas estou aqui a dar uma quase sem querer. Para não me acontecer o mesmo daqui a uns anos com a minha vida com a arbitragem não digo “não”; digo “um dia se saberá” e “um dia, talvez”, consoante os projectos e as pessoas nela envolvida. Agora é deixar trabalhar, deixar criar condições para que outros trabalhem, desejar-lhes felicidades e que sigam o seu caminho. Eu fiz o mesmo.

Foto de Capa: FPF

Tomás Gomes

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