Luis Suárez foi protagonista de verão. O mercado de transferências teve efeito para tal, como o avançado confirmou depois da vitória do Sporting sobre o CD Nacional. Agora, com o mercado fechado, será protagonista da principal novela, aquela que se arrastará até maio com derrotas, empates e vitórias. Essa não se jogará à mesa de negociações, mas dentro de campo, onde interessam os pontos, mais do que os milhões, e interessa o rendimento, mais do que qualquer acordo.
Nesse campo, Luis Suárez é uma peça fulcral para o Sporting. Se na temporada passada teve impacto goleador, mas também como elemento de ligação, com apoios curtos, toques para enquadrar as ruturas e impacto baixando em campo para também dar alguma organização, todo esse jogo será reforçado na nova época. Não é de estranhar que, depois de um início de temporada a recuperar a melhor forma, ainda como um corpo meio estranho, quando foi capaz de assumir o protagonismo, o Sporting fez os dois melhores jogos da época. Primeiro em Vila do Conde, contra o Rio Ave, agora no Estádio de Alvalade, diante do CD Nacional.
Há no jogo do colombiano duas dimensões ainda mais importantes que os golos. Esses aparecerão normalmente, como uma inevitabilidade certa, quase magnética, que permitirá ao 97 dos leões celebrar e sorrir. O sorriso, esse, deixará de ser tema. Ao final do dia, um carteiro também não celebra cada carta entregue, um padeiro não festeja cada fornada de pão cozida e um jardineiro não sorri a cada flor regada. Há trabalhos e trabalhos e, para o colombiano, os golos são uma consequência.


Antes disso, ou depois, há duas funções mais importantes. A primeira é uma extensão do trabalho feito pelo avançado na última época, sempre que procurava as costas da defesa adversária para receber a bola. Continua a fazê-lo, quer em movimentos mais curtos, quer quando a bola vem de longe, como quando Zeno Debast decidiu abusar da criatividade para meter uma bola tão perfeita que só tocou em Luis Suárez e em Flávio Gonçalves até chegar à baliza.
A segunda também é repetida, mas surge com um ingrediente diferente. Já a época passada era frequente ver Luis Suárez jogar em apoio, saindo do seu espaço para, aqui e ali, ser mais um elemento de ligação. Sem Pedro Gonçalves, Francisco Trincão ou Hidemasa Morita, e com perfis distintos em cada uma das posições, essa tarefa será redobrada e o contributo de Suárez a permitir combinações e apoios curtos será ainda mais importante. Não só porque só assim será possível aos leões desenvolver o seu jogo de uma forma mais fluída e natural como, em último caso, é muito interessante a ideia de ter Issa Doumbia e Rodrigo Zalazar a fazer o contra-movimento para atacar a área e a de ter Flávio Gonçalves com liberdade total para o fazer. Nessa ligação e complementaridade joga-se muito da temporada do Sporting.
Por falar em complementos, e como nota final – até porque Luis Suárez também chegou a passar por lá – é muito interessante a dinâmica no corredor esquerdo dos leões, com Maxi Araújo a meter-se quase sempre por dentro, como mais um elemento de infiltração, e uma rotação para fazer o corredor. Passaram por lá, além de Luis Suárez, Flávio Gonçalves, Rodrigo Zalazar e Issa Doumbia. À direita, é tudo mais simples e menos matemático. Está Iván Fresneda a equilibrar, também já como elemento desequilibrador no passe, e Geny Catamo colado à linha. Está numa fase de lua de mel, que se vai arrastando pelos últimos meses. À qualidade técnica inegável, junta-lhe cada vez maior acerto na definição e variabilidade no jogo, quer para ir à linha de fundo, quer para puxar para dentro e acrescentar em terrenos interiores, a pé trocado. Luis Suárez não está sozinho na tarefa de criar perigo para o Sporting.


BnR na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: Se não me falham as contas, passaram à esquerda, para que o Maxi [Araújo] jogasse um bocadinho mais dentro, o [Rodrigo] Zalazar, o Flávio [Gonçalves], o [Issa] Doumbia e o [Luis] Suárez. Se o Maxi e as incursões por dentro já são bastantes conhecidas, como tem trabalhado esta mobilidade e rotação numa teia de desdobramentos e coberturas para que o Maxi possa jogar por dentro com tanta facilidade sabendo que está sempre alguém por fora?
Rui Borges: Acho que são dinâmicas que nós já tínhamos. Já estão inseridas na equipa há algum tempo. Agora, precisamos de melhorar mais, às vezes, esse conhecimento de uns com os outros, principalmente a malta nova que chegou e mesmo o Flávio perceber a ligação e a micro-relação que tem com o lateral, o fora-dentro e dentro-fora. O Zalazar igual quando está à esquerda e mesmo os próprios médios. Eles estão num conhecimento ainda e é natural. Entrou aqui alguma malta nova, mas as dinâmicas em si já existiam e o Maxi já faz coisas que fazia na época passada. A nossa equipa sempre foi muito móvel dentro de um jogo posicional muito forte a época passada, mas sempre demos muita mobilidade e troca posicional. Este ano acaba, se calhar, por ser uma equipa mais móvel, sem um jogo posicional tão acentuado como tínhamos a época passada. Mas dá-nos outras coisas. Dá-nos mais irreverência de forma geral e esse crescimento tem de acontecer, dos equilíbrios onde estamos melhores, e de micro-relações que existem, seja em corredor lateral, seja em corredor central. Isso vai acontecer com a naturalidade que esperamos.
Bola na Rede: Na primeira parte, o CD Nacional conseguiu por duas ou três vezes sair de forma muito rápida, procurando quase sempre o lado contrário, e praticamente procurando o Stravos Gavriel como uma espécie de estrela polar para orientar as saídas muito rápidas do Nacional. De um ponto de vista coletivo, o que pretendia para ferir o Sporting e, de um ponto de vista individual, que análise faz à exibição do jogador que fez a primeira titularidade pelo clube?
Bruno Abreu: Não querendo individualizar, a ideia que nós tínhamos era exatamente essa. Tínhamos que tentar e trabalhámos para sair pelos dois lados. Sabendo que o lado esquerdo do Sporting é extremamente ofensivo, procurámos com um jogador interior, que pudesse trabalhar ali no espaço livre e criar algum tipo de confusão entre o espaço da linha defensiva e do meio-campo do Sporting. Incluímos o Stravos um bocadinho mais dentro exatamente para poder receber essa bola e sair em transição. Procuraríamos também que o Marcus [Jensen] fizesse isso, mas o lado direito do Sporting estava muito mais forte e não conseguimos. A ideia era claramente sair por fora e em transição e aproveitar algum balanceamento ofensivo normal no Sporting. Conseguimos com o Stravos. Quanto à segunda questão relativamente à individualidade, estamos muito satisfeitos com ele e com o Marcus. São jogadores novos e que chegaram agora e naturalmente não têm rotinas e um envolvimento no jogo melhor, mas acreditamos que com o decorrer do campeonato e a própria adaptação, que irão melhorar e ajudar a equipa.












