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Caro mister Nuno Capucho
Peço desculpa pela audácia, mas não consegui amarrar a vontade de lhe escrever umas breves mas ‘sentidas’ linhas, que espero que não entenda como vergonhosas perante a eventual mensagem que possam vir a passar.
Depois de ouvir as suas declarações, a primeira reacção que tive foi de o aplaudir. ‘Aqui está um homem à séria’ – pensei. No entanto, após algum tempo, parei para reflectir um pouco mais sobre o que o Nuno acabara de proferir. Então decidi escrever-lhe esta ‘humilde’ carta sobre aquilo que me assolou a mente, e essencialmente a alma.
O Nuno colocou o dedo na ferida. Não há dúvida. Mas realmente se é como diz, que o futebol português é uma vergonha e que já sabe quem sobe e quem desce, devo então colocar-lhe algumas questões que me parecem ser de todo fundamentais.
O mister já sabe mesmo quem desce e quem sobe? Pois isso não me parece difícil de adivinhar. O Gil Vicente FC é um dos que sobe (pela secretaria) directamente do Campeonato de Portugal para a Primeira Liga. Esta já toda a gente sabia. Depois, e com o recordista mundial de subidas a treinar o Paços de Ferreira, parece-me óbvia a segunda equipa a subir. Por fim, calculo que se esteja a referir ao GD Estoril Praia. O que também é mais ou menos óbvio que aconteça, dado que toda a gente diz à boca cheia que por norma o principal candidato a subir no ano seguinte é sempre aquele que desceu.
O que para mim ficou claro com as suas palavras, é que já sabemos quem não subirá: o Varzim SC. Se assim não fosse calculo que o Nuno não estaria a fazer aquelas declarações. Portanto, se o Varzim tem pretensões a subir, o melhor será despedir o seu treinador. Desculpe lá Nuno!

Fonte: Varzim SC
Agora mais a sério: se sabe tudo isso então que o diga. De que serve lançar mais achas para a fogueira? Pois que dê ‘o nome aos bois’. Fartos de polémicas estamos nós. Fartos de ouvir todos os dias histórias de possível corrupção, de tráfico de influências, de interesses, de compadrios, etc.
Mais ainda: se é uma vergonha, calculo que o Nuno Capucho não faça intenções de prosseguir a sua vida profissional nessa mesma vergonha. Afinal parece que está mesmo a ponderar abandonar a carreira de treinador. Acho que faz sentido perante o que falou. Se já se sabe quem sobe e quem desce, então não está aí a fazer nada, porque nada será alterado com o seu bom ou mau trabalho. Acho pois que deverá procurar trabalho… lá fora. Onde nada está combinado.
Mas sabe o que acho Nuno? Mesmo lá fora, o Nuno irá sentir o mesmo. Também o futebol Mundial está ‘contaminado’. Basta ver as decisões da FIFA e da UEFA. Basta ver quem organiza Mundiais, quem ganha Bolas de Ouro, quem vence ou vai mais longe na Champions, ou a forma como a UEFA torna os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. O futebol, de uma forma geral, está contaminado (ou será combinado?). E nem sequer vale a pena ir na direcção das constantes notícias sobre resultados combinados. Actualmente, para vencer, vale (quase) tudo. Esse é um mal generalizado, e Portugal não gosta de ficar atrás em nada.
Pois bem Nuno: parece-me que a única hipótese será mesmo deixar este mundo do futebol. Este mundo vergonhoso.

Fonte: Varzim SC
Não sou ninguém para dar lhe dar conselhos, mas há algo que o Nuno se esqueceu: mesmo que o futebol seja nos dias que correm um negócio onde há corrupção, lavagem de dinheiro, contratos por portas travessas, pagamentos de favores e tudo o resto, há algo que é superior a essa mesma vergonha: os adeptos. E ninguém se deve esquecer deles. Daqueles que correm quilómetros por entre sol e chuva, deixando para trás dias com a família ou somente dias de conforto e de tranquilidade nos seus lares.
O Nuno esqueceu-se que há milhares de adeptos em cada recanto de Portugal que enchem estádios das distritais. Que há pessoas que fazem esforços monetários para acompanhar as ‘suas’ equipas que sentem como suas representantes. Claro que estas pessoas sofrem eventualmente de clubite. Claro que às vezes se tornam ‘cegas’ quando os seus clubes não ganham. Mas isso faz parte da génese humana. Faz parte de quem muito ama.
Essas pessoas encontram nos seus clubes e nas suas eventuais vitórias uma forma de serem mais felizes. O futebol, por muito vergonhoso que seja, une casas, famílias, aldeias, regiões e nações. Poucas coisas neste mundo são mais sinceras que o amor à camisola sentindo pelos adeptos, e esse amor também faz parte do nosso futebol. Pergunte aos portugueses que trabalham em França qual foi o dia mais feliz das suas vidas de emigrantes.
O futebol pode ser uma vergonha. Uma das maiores vergonhas do mundo. Porque esta também é uma das maiores paixões do mundo. E essa paixão continuará reflectida nos milhões de pessoas que todas as semanas amam este nosso futebol, mesmo que lá no fundo saibamos que o futebol está envolto, de facto, em vergonhosas acções.
Foto de Capa: Varzim SC













