força da tática

A Costa Rica era apontada, de forma quase unânime, como a equipa que menos probabilidades tinha de passar a fase de grupos do Mundial 2014. Por um lado, porque se encontrava no grupo da morte com três ex-campeões mundiais – Itália, Inglaterra e Uruguai. Por outro, porque é uma equipa com pouca relevância no panorama internacional (o melhor que fez foi chegar aos oitavos de final, em 1990) e com jogadores maioritariamente desconhecidos ao comum fã de futebol europeu. Ninguém melhor, portanto, para mostrar ao mundo que a organização e o trabalho bem feito dão inquestionavelmente frutos.

Perante as palavras de Mourinho, que afirmou que a Selecção da Costa Rica não iria conseguir fazer uma outra surpresa, o técnico Jorge Luís Pinto foi esclarecedor: “Estou realmente surpreso que José Mourinho tenha dito algo assim. No início, alguns disseram que nem um ponto íamos conseguir. Sabemos que a Itália é uma seleção muito difícil de bater, mas estamos confiantes que iremos conseguir repetir o que fizemos no jogo anterior. Estamos a trabalhar na forma como podemos melhorar a nossa táctica, o jogo com bola, as transições e os erros que cometemos frente ao Uruguai. Vamos jogar ainda melhor do que fizemos frente ao Uruguai“. E, 90 minutos depois, frente a uma Selecção com o valor individual da Itália, tudo se confirmou. Melhoraram em quase todos os momentos do jogo. Sorte ou acaso? Trabalho, responde Jorge Luís Pinto.

O jogo frente à Itália, o melhor da sua história

A Itália no jogo contra a Costa Rica acabou com 11 foras de jogo. Este número revela duas coisas: a existência de uma linha defensiva irrepreensivelmente organizada pelos jogadores centro-americanos e… a incapacidade dos italianos em conseguir contorná-la. Durante a 2ª parte, período em que a Itália esteve sempre a perder, não se verificou uma única oportunidade de golo para a equipa de Prandelli. Estamos, assim, perante uma das principais qualidades desta Costa Rica: a capacidade de apresentar uma linha estável, inteligente, capaz de ajustar perante qualquer descompensação e sem medo de subir no terreno tanto quanto possível para encurtar o campo activo de jogo ao adversário. A linha em questão até é de cinco e o facto de ter mais um defesa do que é usual poderia constituir um factor de dificuldade acrescida (porque há mais um a poder errar no posicionamento), mas como se viu nestes dois jogos não é isso que se passa. Um golo sofrido (de penalty) em dois jogos, com o Uruguai e com a Itália, são dados reveladores.

Fonte: FIFA
Fonte: FIFA

Através das estatísticas oficiais divulgadas pela FIFA podemos constatar que, ao contrário do que se poderia prever, a Costa Rica aparece no Campeonato do Mundo como bem mais do que uma equipa que se limita a defender. O mesmo número de remates e apenas menos dois ataques perigosos do que a Itália são factos que ajudam a entender o sucesso deste conjunto. Mas como? Se é clara a afinação da última linha no momento defensivo, não podemos deixar de mencionar a atitude da linha do meio-campo, altamente pressionante inclusive no primeiro momento de construcção, ainda no meio-campo contrário. Se no 11 que o Uruguai apresentou no primeiro jogo não existia nenhum jogador capaz de organizar e pautar o jogo ofensivo da selecção de Suárez, na equipa italiana existia nada mais nada menos do que Andrea Pirlo. E De Rossi, e Marchisio, claro. Certo é que todos esses médios de grande qualidade não foram capazes de colocar sérias dificuldades ao adversário também devido à intensidade que o meio-campo costa riquenho exerceu. No processo defensivo há apenas a apontar a lenta adaptação à entrada de Cassano que, durante os primeiros 20 minutos da 2ª parte, conseguiu receber muitas vezes entre linhas e, assim, gerar alguns desequilíbrios. No entanto, por algum demérito da Itália, esses desequilíbrios nunca chegaram a constituir realmente perigo. A partir de certa altura um dos três centrais da Costa Rica passou a subir no terreno cada vez que Cassano descia para receber e essa correcção acabou por apagar o nº10 italiano do jogo.

No momento ofensivo, por sua vez, a destacar há sobretudo a simplicidade dos processos. É difícil ser-se assim tão simples, por mais paradoxal que possa parecer. A Itália nunca se encontrou ofensivamente porque optou sempre por caminhos complexos, de difícil exequibilidade ou por atalhos que acabavam invariavelmente por matar a jogada de forma precoce. A Costa Rica, pelo contrário, optou quase sempre pelo melhor caminho e por colocar a velocidade ideal no seu jogo. Estando claramente mais à vontade no momento da transição do que da organização, contrariou a teoria de que todas as transições têm de ser velocíssimas, verticais e exclusivamente através de passes de ruptura e no espaço. Uma transição pode perfeitamente ser feita de forma apoiada, saindo o passe de ruptura a aumentar a velocidade apenas na altura certa, quando foi descoberto espaço por explorar e/ou uma situação numérica de vantagem. De nada vale sair numa transição a toda a velocidade se não existir superioridade numérica ou espacial, pois são essas que geram os desequilíbrios. A base das transições é, aliás, a oportunidade que a perda de bola do adversário gerou e, assim, o número de jogadores da equipa contrária que se encontram desposicionados. Jorge Luís Pinto disse que ia trabalhar as transições e o resultado esteve à vista. Ora através de bolas mais longas à procura de Joel Campbell e da sua qualidade individual (o melhor jogador da sua selecção), ora através de saídas apoiadas sustentadas sobretudo por Bryan Ruiz ou Bolaños com constantes apoios frontais dos seus colegas. Sabendo bem dos seus limites, o segredo desta selecção foi ter a noção de que a simplicidade é o maior trunfo que podia usar. 

A flexibilidade táctica

Fonte: FIFA
Fonte: FIFA

Este Mundial 2014 trouxe consigo o ressurgimento de uma opção táctica em vias de extinção: os três centrais. À partida uma característica conservadora, utilizada em prol da solidez defensiva, a verdade é que os vários desenhos tácticos que utilizam os três homens mais recuados têm obtido excelentes resultados e, mais, excelentes exibições. A Costa Rica tem optado por um 3x2x4x1 com três centrais, dois laterais ofensivos (que recuam para a linha dos centrais no momento de organização defensiva), quatro médios (dois mais fixos e dois mais móveis, nas alas) e Joel Campbell, sozinho na frente, embora bem acompanhado pelos dois médios alas. A verdadeira virtude deste esquema predominantemente utilizado na América Latina é a sua flexibilidade e a forma como se desmonta em vários sub-esquemas consoante o momento do jogo praticado. Em organização defensiva geram-se duas linhas e aparece um 5x4x1 bem delineado. Pressão alta por parte da linha de quatro (mais o avançado) e colocação bem adiantada por parte da linha de cinco, de forma a evitar o espaço entre linhas (que, a meu ver, ainda é um factor que pode ser melhorado). Em organização ofensiva, por norma, o lateral do lado da bola envolve no ataque dando profundidade e isso faz com que o médio ala desse lado possa procurar espaços mais interiores e apoiar assim o avançado que de outra forma ficaria demasiado só. É também dada uma cobertura ofensiva muito importante por parte dos dois médios centros que procuram sempre gerar uma linha de passe segura e uma saída sem risco para o portador da bola. Este é um dos segredos que faz do futebol costa riquenho tão simples: homens a procurar a profundidade e as desmarcações de ruptura e homens a procurar a cobertura e os apoios frontais. Realce ainda para o lateral esquerdo Junior Diaz, do Mainz, que é quem mais envolve na frente, o que explica o facto de a Costa Rica atacar mais pelo lado esquerdo do que pelo direito.

Qual o futuro?

A uma equipa com o valor individual da Costa Rica não se poderá pedir mais do que o conseguido. Não se poderia, aliás, exigir sequer esta qualificação fantástica que Jorge Luís Pinto e os seus jogadores já conseguiram. No entanto, dado o nível apresentado e dado que terão mais tempo para melhorar ainda mais, nada é impossível nos oitavos-de-final para a equipa centro-americana. Principalmente porque o seu grupo emparelha com o de Colômbia, Costa do Marfim, Japão e Grécia, teoricamente o mais acessível. Depois de ultrapassar o grupo da morte, terá capacidade a Costa Rica para fazer frente a uns oitavos com uma equipa outsider? O técnico, no momento dos festejos, não deixou de sublinhar: “estou feliz mas ainda falta muito. Falta o melhor“.

Comentários