Publicidade

Força da Tática: O cérebro azul e branco #1

Diogo Silva · 6 min

Força da Tática: O cérebro azul e branco #1
Foto: FC Porto Sports

Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

Com o desfecho precoce da Liga Profissional de Basquetebol, é tempo para rever aquela que foi uma das principais equipas do campeonato e a melhor equipa nortenha da liga (algo que já não acontecia há dois anos, na altura do bicampeonato da UD Oliveirense).

Este artigo irá ser dividido em duas partes. Numa primeira fase iremos abordar a filosofia de Moncho López e o processo ofensivo do FC Porto e numa segunda fase as dinâmicas defensivas e os jogadores de referência nessa vertente do jogo.

O LÍDER

Com mais de dez anos a representar o FC Porto, Moncho López tornou-se uma das principais personalidades do clube azul e branco e do basquetebol nacional. A importância de manter a mesma figura no comando técnico tornou-se fulcral nas conquistas subsequentes, revelando uma lealdade ao clube invulgar.

A filosofia disciplinada proporcionada pelo treinador espanhol, contudo, não foi sempre do agrado da maioria da massa adepta portista, ao passo que os resultados nem sempre apareceram quando mais interessavam (momento dos playoffs), sendo que, em adição, as exibições demonstravam-se por vezes um pouco cinzentas. A filosofia de um treinador é construída através das experiências e conhecimentos adquiridos ao longo da respetiva carreira, contudo, por vezes há a necessidade de alterar e adaptar as suas filosofias consoante o que o basquetebol «exige» na respetiva época.

Com isto, o basquetebol, à semelhança de outros desportos, sofreu constantes mutações com o passar dos anos. Por mais que um treinador tenha “a lição toda estudada”, é importante ter visão e percepção da conjuntura em que se encontra inserido. Atualmente, é inegável que o basquetebol está cada vez mais transfigurado para uma vertente onde os jogadores exteriores são os mais preponderantes na equipa.

A PRÁTICA EXIGENTE, PORÉM TRADICIONAL

Em antagonismo, Moncho López ainda vê a presença interior como a primazia para atingir o sucesso. Basta ver quem foi o melhor jogador azul e branco esta temporada (Sasa Borovnjak).

Apesar de ser uma posição essencial nas duas vertentes do campo, não devia ser a primordial, ou aquela onde o treinador investe mais. Um dado evidente desta aposta por parte de Moncho López, passa pela existência de seis postes no plantel (isto, sem contar com Kayel Locke, que apesar de ser considerado um extremo atuou nessa posição aquando da lesão de Tanner).

Naturalmente, não é o facto de ser poste que influencia negativamente a equipa, aliás, a contratação de Tanner McGrew foi uma das melhores contratações portistas dos últimos anos. O problema, por outro lado, passa pelas limitações evidentes na maioria dos postes azuis e brancos, ao passo que o sistema em que se encontram inseridos obrigam os mesmos a executar e a finalizar jogadas de forma desnecessária. Moncho López, com este sistema, acaba por vezes por criar problemas e constrangimentos, até para os jogadores exteriores, que por norma são quem devem ter mais tempo com a bola. Isto, ainda para mais quando se encontram no plantel atletas com muito boa tomada de decisão.

Esta aposta exacerbante em jogadores interiores, não significa que seja algo negativo, mas antes reitera a filosofia estrutural e princípios de modelo de jogo enraízados, por parte do técnico espanhol, alicerçados numa disciplina firme e mandante, que não se alterou com o passar dos anos.

O clube portista, ao leme de Moncho López conquistou três ligas portuguesas, três taças de Portugal, três taças da liga e três supertaças. O número três que curiosamente representou os anos em que Porto esteve afastado da principal divisão nacional, arrecadando duas Proligas nesse período.

ORGANIZAÇÃO OFENSIVA

FC Porto é a terceira equipa com a maior média de pontos por jogo (86.6), atrás de Sporting (1.ª) e Benfica (2.ª)
Fonte: FPB

Como foi mencionado previamente, o estilo do FC Porto oferece grande relevância aos jogadores interiores, com a procura incessante de Sasa Borovnjak através de bloqueios que o libertem, ou simplesmente através de isolações que o «obriguem» a atacar o adversário. Esta procura faz sentido, ao passo que Sasa é claramente o poste mais versátil e perigoso em zonas perto do cesto na liga, sendo que, em adição, conquista frequentemente faltas nessas zonas. Para além disso, o poste sérvio é bastante eficaz na linha de lance livre (82%).

O problema surge, quando o FC Porto inicia e desfecha as jogadas com jogadores interiores a tomarem a decisão final, na medida em que tal ideia de jogo promove poucos rasgos de criatividade, alguns «turnovers» desnecessários e lançamentos forçados a colegas de equipa ou até aos próprios. O único jogador interior, esta temporada, capaz de contrapor os restantes colegas da mesma posição foi Tanner McGrew. Isto acontece, porque o atleta norte americano é um jogador distinto, com recursos mais vastos que o típico jogador tradicional a atuar em zonas perto do cesto, sendo capaz de decidir de forma exímia e de finalizar em qualquer zona do campo. Aliás, não é por acaso que o melhor momento da temporada portista corresponde ao momento em que Tanner está em campo (o norte americano lesionou-se em inícios de novembro).

No vídeo abaixo, será possível averiguar alguns pormenores (positivos/negativos) da ofensiva portista, desde as boas “leituras” de quem deve ser o cérebro da equipa, às más decisões que mesmo não prejudicando a equipa com turnovers, resultam em embaraços e consequentes lançamentos forçados.

Os azuis e brancos deviam aproveitar melhor os recursos ao seu dispôr, na medida, em que com tantos jogadores de capacidade atlética elevada (Soares, Purifoy, Sheehey, Alkins), a transição ofensiva devia acontecer com maior frequência. A exploração de um jogo mais rápido, sairia a benefício do FC Porto, ao passo que firmava um estilo mais solto que salientasse de forma irrefutável os recursos técnicos individuais de cada jogador. Isto, sem naturalmente desvirtuar o coletivo.

Não obstante, o Basquetebol não deve ser uma anarquia, onde se deve atacar sem harmonia ou lógica, contudo o jogo do FC Porto é por vezes demasiado cerebral e pouco objetivo, avançando com ataques longos e por vezes mal decididos.

Por exemplo, quando o clube azul e branco ataca o adversário com situações simples de 2×2, com jogadores (transportador de bola ou o bloqueador) por norma, superiores em termos de recursos técnicos e físicos, a jogada acaba por fluir com maior naturalidade. O desfecho destas mesmas jogadas, surge quase sempre com um tiro sem grande oposição ou com uma vantagem criada.

Para terminar, no que diz respeito ao processo ofensivo e à organização ofensiva, o FC Porto é das equipas mais disciplinadas e tradicionais do campeonato. Dispondo de jogadores das mais variadas características, Moncho López utiliza várias ações que potenciam o jogo interior azul e branco. Desde box-to-box screens, à utilização dos mais diversos tipos de bloqueios diretos (sendo o mais comum o lateral), ou a uma set play que traz sempre os postes à periferia da linha dos três pontos (com o objetivo de criar situações eficazes a partir da visão abrangente dos mesmos), o treinador azul e branco tem a primazia de explorar a criação de vantagens perto do cesto.

Como foi referido anteriormente, o FC Porto tem jogadores de uma capacidade técnica e física para fazer muito mais. O técnico espanhol ainda trabalha como se tivesse muitas limitações dentro do plantel, não apresentando grande noção dos jogadores ao seu dispôr que parecem constrangidos num «basket» vagaroso e com poucos sinais de adaptação ao basquetebol moderno.

Foto de Capa: FC Porto Sports

Diogo Silva

Redação Bola na Rede · ver artigos