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Jogadores Que Admiro #117 – Rúben Neves

João Pedro Rocha · 8 min

Foto: Wolverhampton Wanderers FC

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Infância e formação

No dia 13 de março de 1997, na pequena freguesia de Mozelos, no concelho de Santa Maria da Feira, nascia o miúdo que passou a sua infância com a bola agarrada aos pés, com a camisola do FC Porto. Rúben Neves demonstrou, desde cedo, um sentimento especial pelos dragões, e sempre lutou para alcançar todos os feitos até ao momento. O facto do seu pai ter ido para Espanha trabalhar durante três anos fez com que o Rúben sentisse a obrigação de cuidar da sua mãe e irmã mais nova, e se tornasse um adolescente maduro e responsável, o que se reflete no ser humano que é hoje.

Tinha vários familiares ligados ao futebol, que o incentivaram a ingressar no Lusitânia de Lourosa, um histórico de Santa Maria de Feira. Em pouco tempo, chamou à atenção de outros clubes, e, aos oito anos de idade, foi chamado para se juntar às escolinhas do FC Porto, clube que viria a representar durante 12 anos.

O seu amor pelo clube da Invicta foi ganhando força ao longo dos anos, adquirindo aquilo de que tanto se fala: a mística do Porto. Os relatos sobre Rúben durante a formação nos azuis e brancos dão a conhecer um jovem que tinha níveis de concentração e preparação psicológica acima da média, comparativamente com os colegas de equipa.

Passou a época 2012/2013 emprestado ao Padroense, e regressaria na seguinte para atuar nos juvenis do FC Porto. Nessa temporada, elevou o seu futebol a outro nível e chamou rapidamente à atenção de Julen Lopetegui, que viria a ser treinador da equipa em 2014/2015. O técnico espanhol chegou a Portugal para orientar os dragões e realizou um forte investimento, incluindo o médio do Real Madrid, Casemiro, da mesma posição que Rúben Neves. No entanto, a qualidade do jovem português de 17 anos, desconhecido pela maioria, veio ao de cima e passou a fazer parte do plantel principal do FC Porto.

FC Porto

Os próprios elementos da equipa sénior ficaram surpresos, e alguns deles não o conheciam mesmo, como descreveu Gonçalo Paciência, esta semana, no direto do “FC Porto em casa”, nas redes sociais do clube. Começava, então, a época em agosto, e o primeiro jogo dos dragões era contra o Marítimo, no Estádio do Dragão.

Lopetegui chocou toda a nação portista ao colocar logo de início o miúdo de 17 anos a número 6. Decorriam apenas 10 minutos de jogo, quando Alex Sandro, seguido de um canto curto, despejou a bola na área do Marítimo, que ressaltou num dos jogadores dos sadinos, e sobrou para o número 36 dos azuis e brancos, que viria a marcar o primeiro golo pelo FC Porto, na sua estreia. E que bela estreia…

Os adeptos dos dragões sentiam que estava ali um jogador que lhes podia dar muitas alegrias, e ficavam ainda mais esperançosos por ser um jogador de formação, que aos poucos podia ser útil na transmissão dessa mística que retrata o clube. A verdade é que, até para um jogador que demonstrava uma maturidade tremenda em tão tenra idade, era complicado singrar num clube como o FC Porto, devido a outras opções existentes. Casemiro acabava de chegar de empréstimo e era um médio defensivo fora de série, que teve uma passagem curta em Portugal, visto que, no ano seguinte, já era titular no meio-campo do Real Madrid.

Rúben Neves ainda realizou 37 jogos na sua primeira época no plantel principal do FC Porto, 38 na segunda e apenas 18 na terceira. A realidade é que, mesmo apresentando, acima de tudo, qualidade e confiança dentro de campo, esteve sempre tapado por outros jogadores, enquanto fez parte do clube portista. Inicialmente, foi por Casemiro, e depois por Danilo Pereira, o atual capitão da equipa. Rúben sempre demonstrou uma mentalidade vencedora, espírito de sacrifício pelo grupo, e, mesmo com menos minutos, apresentava evolução e vontade de fazer cada mais.

Neste período, na equipa sénior do FC Porto, Rúben Neves bateu uma série de recordes, pelos quais o próprio deve-se encher de orgulho. Foi o jogador mais jovem da história do FC Porto a marcar na liga portuguesa e o português mais novo de sempre a jogar na Liga dos Campeões (17 anos, 6 meses e 9 dias), batendo o recorde de Cristiano Ronaldo. Com 18 anos e 221 dias, foi o capitão mais novo de sempre da história da Liga dos Campeões, no encontro frente ao Maccabi Tel Aviv, e foi também o jogador mais jovem de sempre a alcançar o jogo 50 pelo FC Porto, com 18 anos e 267 dias.

Realmente, é uma pena um jogador do calibre de Rúben Neves não ter brilhado mais na liga portuguesa, quando teria condições para tal. De qualquer das formas, lançou-se aqui um futebolista formidável, que continua a pisar grandes palcos nos dias de hoje.

Wolverhampton Wanderers FC

Na transição para a época 2017/2018, o FC Porto estaria sob vigilância da UEFA para os próximos três anos. Para assegurar o fair-play financeiro, teria de acertar contas, e portanto a venda de alguns jogadores seria necessária. Esta foi uma das razões que levou o médio português a viajar para Inglaterra para mostrar todo o seu futebol, com a camisola do Wolverhampton. Outra razão foi pelo facto do seu agente, Jorge Mendes, ter boas relações com o clube inglês. A acrescentar, o novo técnico do clube era Nuno Espírito Santo, que tinha orientado Rúben em Portugal e que não desperdiçou a oportunidade de o levar para iniciar um novo projeto.

A sua transferência foi mal vista por grande parte dos adeptos portistas, pois faziam questão que o jovem continuasse no plantel e obtivesse mais minutos de jogo. Os 18 milhões pagos pelo Wolves para adquirir Rúben Neves também foram contestados pela massa associativa, pois achavam pouco para um talento daqueles. A ida para o Championship (segundo escalão inglês) também foi incompreendida a nível geral. Rapidamente essa opinião foi eliminada, à medida que foram acompanhando a evolução do clube, assim como do jogador.

Rúben Neves fez uma época estonteante no Championship em 2017/2018, e só ficou atrás de Ryan Sessegnon no prémio de melhor jogador dessa edição do campeonato. O Wolverhampton tinha terminado em 15º lugar na temporada anterior e procurava a subida de divisão depois do investimento realizado, com presença forte de portugueses na equipa, tal como Diogo Jota, Rúben Vinagre, Hélder Costa, Ivan Cavaleiro e ainda mais três provenientes da liga portuguesa: Willy Boly, Roderick Miranda e Léo Bonatini.

Rúben Neves foi crucial para o projeto de Nuno, que teve como resultado a subida ao primeiro escalão inglês. O Wolverhampton foi campeão do Championship com uns honrosos 99 pontos conquistados e com exibições categóricas.

O médio português era dos jogadores da liga com mais ações com bola e elevou todo o futebol praticado em Portugal para outro nível, graças ao tempo de jogo concebido e por se assumir como o patrão do meio-campo dos Wolves. Todos os grandes golos marcados e os passes longos tornaram-se virais e Rúben começava então a chamar a atenção de toda a Europa. Marcou seis golos na primeira época ao serviço do clube, e todos eles fora de área. Rúben preenchia o campo com requinte e atirava forte de qualquer lado. Além do remate, proporcionou inúmeras oportunidades através da qualidade do seu passe, principalmente longo, isolando facilmente os colegas de equipa.

O vídeo abaixo mostra os melhores golos de Rúben Neves com a camisola dos Wolves.

No final dessa época, depois de se revelar a todo o mundo, pairava a dúvida acerca da continuidade de Rúben Neves na equipa inglesa, tendo em conta o número de equipas interessadas em adquirir as suas qualidades. A decisão foi permanecer no clube, para se estrear em grande na primeira divisão inglesa, sendo um titular indiscutível da equipa.

Rui Patrício, João Moutinho e Raúl Jiménez chegavam ao clube como reforços de peso e os adeptos estavam confiantes que podiam ter várias alegrias durante a época.

O Wolverhampton realizou mais uma excelente campanha e conseguiu um surpreendente e totalmente merecido 7º lugar, que deu acesso à qualificação para a Liga Europa. Rúben Neves marcou mais cinco golos nessa época e continuou em grande plano no futebol inglês, assumindo-se como um dos melhores médios do campeonato e demonstrando cada vez mais evolução e consistência. Voltava-se a questionar se seria desta que o português iria abandonar o barco de Nuno Espírito Santo.

A verdade é que permaneceu mais uma época nos lobos e continuou a encantar o estádio do Molineux. Nesta época de 2019/2020 já contava com quatro golos até à paragem de todas as competições, e o Wolverhampton seguia firme na 6ª posição, apenas a cinco pontos da Liga dos Campeões. A nível internacional, encontrava-se nos oitavos de final da Liga Europa, sendo um dos principais candidatos a vencê-la.

Posto isto, a arriscada mudança do prodígio dos dragões para Inglaterra tem sido favorável até ao momento. Num período de quase três anos, já adquiriu feitos brilhantes, marcou golos formidáveis, concretizou uma série de passes para golo e tornou-se já numa referência da sua posição. É um médio fantástico a nível mental, e a sua liderança vai tornando-o um treinador dentro de campo. A paixão que deposita dentro das quatro linhas é fascinante!

Apesar de ser um médio mais recuado, sempre demonstrou mais influência no processo ofensivo, pela sua criatividade, orientação, visão e leitura de jogo, qualidade de passe e remate. A nível defensivo, tem demonstrado alguma evolução, principalmente nas disputas de bola e na capacidade de recuperar e intercetar, graças às aptidões de posicionamento e, novamente, de leitura de jogo.

Até à data, tem já escrita uma bonita história no Wolverhampton, com a incerteza sobre a continuidade na próxima temporada. A verdade é que depois de tantas épocas de grande qualidade, dificilmente os Wolves aguentarão Rúben Neves por muito mais tempo. Com apenas 23 anos, o internacional português tem um futuro risonho pela frente e com a possibilidade de dar um grande salto brevemente. Em entrevista realizada recentemente, referiu que tem ainda o desejo de ser campeão com a camisola do FC Porto.

A classe e maturidade dentro de campo refletem-se para fora do futebol. Ser humilde e ter princípios é uma forma de estar na vida. Rúben teve sempre a paciência necessária para que as coisas boas chegassem, e o trabalho e a dedicação acompanham-no diariamente ajudando-o a ser cada vez melhor no que faz. Por todo o lado que passa, consegue cativar quem está perto dele, seja família, amigos, colegas de equipa ou adeptos.

Artigo revisto por Mariana Plácido

João Pedro Rocha

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