Jogadores que Admiro #22 – Rui Costa

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O futebol, quando visto apenas como uma bola que “saltita” entre 22 jogadores, ultrapassa a barreira clubística que às vezes nos faz cegar e deixar de sentir a poesia deste jogo. Pois bem, talvez o leitor ache estranho eu, um portista aficionado que respira azul-e-branco, vir escrever sobre uma pessoa que foi enquanto jogador e é enquanto dirigente uma das lendas vivas do Benfica: falo, como já entendeu, de Rui Costa.

Nascido na Amadora a 29 de Março de 1972, cedo se percebeu que Rui Costa tinha a arte de tratar bem uma bola de futebol, e com apenas cinco anos de idade (!) já jogava com os meninos mais velhos da equipa do Damaia Ginásio Clube. Aos nove anos, e a ser alimentado pelo sonho de qualquer menino benfiquista daquela idade, tentou a sua sorte num treino de captação do SL Benfica, e é aqui que a história fica interessante: Eusébio, já na altura uma referência no mundo benfiquista, estava presente nesse treino e dez minutos bastaram para que ficasse impressionado com as capacidades coordenativas do pequeno Rui (a facilidade com que se movia e a forma como tratava a “bolinha”). Chegou, viu e… ficou. Todo o seu processo de formação foi feito no clube da Luz, até que no ano de 1990 foi emprestado ao Fafe, clube que serviu para ganhar minutos e “calo” para o futebol sénior. Uma época volvida e retornou ao Benfica, onde nas três seguintes épocas realizou 111 jogos, nos quais marcou 19 golos e fez um sem número incrível de assistências.

Como era de esperar, o menino bonito da “cantera” das águias começou a despertar o interesse de grandes clubes europeus, e foi a Fiorentina, na época de 94/95, que garantiu o concurso do jovem médio ofensivo, por uma quantia de cerca de 6 milhões de euros (1,6 milhões de contos, na época). Até no momento da sua saída Rui Costa foi grande: “abandonou” o clube (também) para poder ajudar a desafogar os cofres do clube, que viviam tempos controversos, e deixou no museu da Luz uma taça de Portugal e um campeonato. A sua passagem por Itália foi mais duradoura do que o próprio imaginara, e no total foram 12 anos a viver no país da “Squadra Azzurra”, dividos por sete épocas em Florença e cinco em Milão, ao serviço do AC local. Durante a sua estadia fez um total de 468 jogos e 61 golos (querem falar sobre o absurdo número de golos que deu a marcar?!) e ganhou alguns prémios de relevo, como o de melhor nº10 de Itália, batendo, na altura, um senhor chamado… Zidane, uma das estrelas maiores da Juventus. Ao serviço da Fiorentina ganhou duas taças de Itália e uma Supertaça, mas o apogeu da sua carreira foi vivido ao serviço do AC Milan, onde ganhou cinco troféus, todos eles distintos: Campeonato, Taça de Itália, Supertaça de Itália, Liga dos Campeões e Supertaça europeia. 

Rui Costa nas “nuvens” de San Siro, onde passou os melhores momentos da sua longa carreira Fonte: thedaisycutter.co.uk
Rui Costa nas “nuvens” de San Siro, onde passou os melhores momentos da sua longa carreira
Fonte: thedaisycutter.co.uk

Contada pelo próprio Rui Costa (e uma das coisas que mais me faz admirar este homem enquanto jogador), remonta à época de 94/95, quando a Fiorentina é convidada para o jogo inaugural do Benfica e a equipa local perde por uma bola, com o novo nº10 da equipa italiana a fazer o único golo da partida. As lágrimas escorreram-lhe e o próprio no final admitiu ter sido o “golo mais difícil da sua carreira”, coisa que ainda hoje mantém. O terminus de sua carreira deu-se na época de 07/08, num jogo frente ao Vitória de Setúbal em que Rui Costa já vestia novamente a camisola encarnada e saiu aos 86 minutos para ovação do público em geral, numa bonita e merecida “homenagem” do momento.

Voltando atrás e depois de “esmiuçar” os pontos altos da carreira de Rui Costa, vou agora pegar na minha primeira frase (“…uma bola que “saltita” entre 22 jogadores…”) e dizer o seguinte: o criativo português foi um dos atletas que conseguia fazer o que poucos fazem: recebê-la a saltitar e entregá-la cheia de perfume, direitinha. E sempre foi isso que me fez ver em Rui Costa uma referência intemporal e uma figura enorme no futebol português. Um nº10 que era muito mais do que isso… O seu futebol fez dele um jogador que dava mais nas vistas quando não jogava; a equipa deixava de jogar um futebol “lentamente rápido” e passava a jogar sem grande conexão no último terço do terreno (na última época na Luz, então, isso era por demais evidente, ao passo que no AC Milan era possível “disfarçar”, dado que jogava com jogadores como Pirlo, Ambrosini, Gattuso ou Seedorf). Rui Costa deliciava qualquer amante de futebol, e foi um dos jogadores que me deram mais pena ao ver abandonar a titularidade da selecção em detrimento de… Deco. Como portista e português, era mais um a ver que Deco estava melhor, claramente melhor, do que Rui Costa no euro’04, mas isso não me fez deixar de sentir aquele aperto de ver um 11 da selecção das quinas sem o “mágico” da Luz.

Rui Costa em lágrimas na hora do adeus aos relvados Fonte: Sapo
Rui Costa em lágrimas na hora do adeus aos relvados
Fonte: Sapo

Não sei o que se pode dizer de um jogador que foi apelidado de “líder de Florença, príncipe de Milão e Rei da Luz”, apenas posso expressar a minha enorme satisfação em poder escrever algo sobre uma pessoa que, enquanto jogador, ganhou o respeito e admiração de todos os fanáticos, como eu, por futebol que são de outros clubes. Alguém é capaz de dizer algo mau de Rui Costa, enquanto jogador? (sim, permitam-me vincar e reforçar estas duas últimas palavras antes da interrogação).

E para finalizar, um desabafo: tenho medo. Tenho medo de, enquanto amante do futebol e vendo a evolução que o mesmo leva, o espaço para jogadores como Rui Costa se esteja a perder… Nº10 puro, de classe, de alto retoque, e que jogam de “smoking”, do nível de Aimar, Riquelme, Deco, Pirlo ou Zidane… Jogadores destes até a central poderiam jogar, quero acreditar, mas cada vez mais se veem menos jogadores assim…

Obrigado Rui Costa, tornaste a minha infância mais rica.

José Maria Monteiro
José Maria Monteirohttp://www.bolanarede.pt
O Zé Maria é um estudante de desporto e apaixonado por futebol (onde o pratica como guarda-redes por esses grandes distritais e tem o curso de treinador). Adora discutir o desporto-rei e tenta ser o mais imparcial possível.                                                                                                                                                 O José não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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