Jogadores que Admiro #10 – Mário Jardel

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Numa próxima Era, quando uma qualquer nova espécie de Ser que habite este Planeta sentir curiosidade em descobrir o que a antecedeu, inevitavelmente constatará que esta nossa espécie humana, num determinado período de tempo, se entretinha e divertia – entre outras coisas – com algo aparentemente tão banal quanto vinte e dois homens a correr atrás de uma bola a saltar num campo relvado. E se essa curiosidade for tão extrema quanto a paixão que a actual Sociedade tem por este Desporto, de forma simples esses novos arrendatários da Terra concluirão que era, então, na Europa que o Futebol tinha a sua maior expressão. E se forem minuciosos, olhando o mapa, não deixarão de reparar no país mais a ocidente do continente europeu – então, vasculhando no baú do futebol português, a curiosidade irá redundar num nome: Mário Jardel. Ou, simplesmente, Golo.

Como todas as lendas, por debaixo do nome e de entre a poeira, emergirá o registo: 24 títulos, entre os quais uma Taça Libertadores, uma Supertaça Europeia, quatro Ligas Portuguesas, três Taças de Portugal, quatro Supertaças de Portugal, uma Liga Argentina e um Campeonato Brasileiro. E no meio de tanto título, ainda mais golo: cinco vezes Melhor Marcador do Campeonato Português e duas vezes Bota de Ouro (Melhor Marcador dos Campeonatos Europeus), para além de outros prémios individuais.

Só que se para os actuais nativos da Terra os números ganharam uma dimensão quase incomensurável, dentro da minha ingenuidade vou crer que a nova espécie vai gostar mais de História e emoção. E então terei pena de não lhes poder explicar, contar e partilhar algo tão simples quanto isto: Jardel foi a maior máquina de fazer golos que este país já viu!

“Conheci poucos avançados como Jardel. Naquela final do Mónaco, eu e o Helguera sentimos que poderíamos dar em loucos" (Iván Campo, ex-Real Madrid) / Fonte: www.lancenet.com.br
“Conheci poucos avançados como Jardel. Naquela final do Mónaco, eu e o Helguera sentimos que poderíamos dar em loucos” (Iván Campo, ex-Real Madrid) / Fonte: www.lancenet.com.br

Refinando o toque pessoal, Super Mário assinou momentos da minha infância com a mesma assiduidade que os meus pais ou os meus amigos de então. Alto e espadaúdo, chegado do Brasil e do Grémio de Porto Alegre (67 golos em 73 jogos), aterrou na Europa para, felizmente, actuar no meu clube… O primeiro capítulo desta bonita história coincide com um dos meus primeiros dias de escola: Milan-Porto, em San Siro (Setembro de 1996). No meio dos Maldinis, Desaillys, Bobans, Weahs e Baggios desta vida, lá entra um tipo meio desengonçado com o 16 nas costas. Lançado por António Oliveira, em meia hora Jardel rubrica dois golos, deixa o seu primeiro cartão-de-visita na Europa (e na Liga dos Campeões), o FC Porto vira o jogo e vence em Itália por 2-3. Nessa mesma época, na Luz, mata no peito e fuzila Preud’homme – tudo sem deixar a bola tocar no solo. Primorosamente assistido, os golos acumulam-se (como aqueles sete diante da Juventude de Évora em apenas 45 minutos, um recorde!), os momentos brilhantes sucedem-se e a História faz-se. Como naquela minha primeira tarde nas Antas, em que fui para o ver jogar. Só.

Verdadeiramente, Mário Jardel nunca foi um fenómeno com a bola nos pés – por incrível que pareça, não era um jogador rápido nem especialmente móvel; não era sequer forte no drible ou na finta; em suma – ainda que tendo evoluído desde a sua chegada ao futebol europeu –, a sua relação pura com o esférico nunca foi a mais íntima. Porém, como todos os génios, tinha um dom: um jogo de cabeça letal e um posicionamento dentro de área fora-de-série. E soube aproveitá-lo como ninguém. A sua imagem de marca, aliás, constrói-se mesclando estas duas características: cruzamento de um dos seus pares – e Jardel tem tanto que agradecer a Drulovic, Capucho, Hagi ou João Vieira Pinto –, Super Mário dá um passo em frente, baralha o seu marcador, dá dois passos atrás, (re)posiciona-se, tempo de salto exacto, gesto técnico de cabeceamento perfeito, … Golo! Muito Golo! E 168 golos depois, como Melhor Marcador da Champions 1999/2000, deixa os Dragões e ruma à Turquia.

Atravessa a Europa mas a veia goleadora é inabalável: na estreia, bisa frente ao Real Madrid e oferece ao seu novo clube, Galatasaray, o mais importante título da sua história: a Supertaça Europeia. Marca em catadupa (22 golos em 24 jogos e 2º Melhor Marcador dessa edição da Champions), mas pela primeira vez é afectado por lesões e começam a surgir problemas extra-futebol. Com a possibilidade de regressar ao país que o havia consagrado, chega a surgir no Aeroporto Francisco Sá Carneiro de cachecol azul e branco ao pescoço, com inúmeros adeptos à sua espera – era Verão e tempo de praia mas o meu foco era aquela imagem. Até que assoma uma das figuras mais patéticas do futebol português: Octávio Machado, então treinador do FC Porto, veta a contratação de Super Mário por não tencionar construir uma equipa em torno de um jogador. Como se uma máquina que garante 50 golos por época não o justificasse… Mais perspicazes, Bölöni e o Sporting albergam Jardel e eis que este volta mais Super do que nunca: 42 golos em 30 jogos no Campeonato, mais seis em seis na Taça UEFA (2º Melhor Marcador) e decisivo no título dos Leões. Por que será?

Perante tamanha monstruosidade de época e com o Mundial à porta, os sonhos são mais do que muitos. Não vai com a Selecção Canarinha (17 internacionalizações e 8 golos) ao Coreia-Japão 2002 e a ansiada transferência para um “tubarão” do Futebol Europeu nunca se concretiza… Sem saber lidar com a dupla decepção, de forma irónica ou não, Jardel acaba por ser traído pela ferramenta que melhor utiliza em campo: a cabeça. Ao contrário de até então, a grande área deixa de ser o seu habitat natural e o golo o seu modo de vida. A noite de Lisboa é profunda e Super Mário passa a Vilão. Sem saber, a sua carreira termina pouco antes dos 30 anos.

Recuando no tempo e desprezando o seu comportamento out of the box, Jardel foi o jogador que mais admirei. Por me ter dado incontáveis alegrias com a camisola do meu clube, é certo. Mas, verdadeiramente, por muito mais do que isso. Alargando o horizonte futebolístico, nunca testemunhei um ‘9’ puro com tanto golo no seu respirar: Jardel transformava cada bola metida na área num potencial golo. Vi-o marcar de cabeça – quase sempre –, de pé direito, de pé esquerdo, de meia distância, de letra ou de pontapé de bicicleta. Vi-o marcar a FC Porto, Sporting ou Benfica, mas também a Barcelona, Real Madrid, Bayern Munich, Milan, enfim, a todo e qualquer um. E ainda que nunca possa ser desmentido, acredito que a sua lista de vítimas poderia ter sido muito mais extensa, assim a cabeça o tivesse querido. Porque cabeça tinha ele. Ou um dom: o de ser um extraterrestre dentro da área.

Tu querias perceber os pássaros
Voar como o Jardel sobre os centrais
Saber por que dão seda os casulos
Mas isso já eram sonhos a mais

Conta-me os teus truques e fintas
Será que os ‘Nikes’ fazem voar
Diz-me o que sabes não me mintas
Ao menos em ti posso confiar.

Filipe Coelho
Filipe Coelho
Ao ritmo do Penta e enquanto via Jardel subir entre os centrais, o Filipe desenvolvia o gosto pela escrita. Apaixonou-se pelo Porto e ainda mais pelo jogo. Quando os três se juntam é artigo pela certa.                                                                                                                                                 O Filipe não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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