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Jogo Interior #9 – A Qualidade do Feedback da Influência da Liderança

Alcino Rodrigues · 4 min

Jogo Interior #9 – A Qualidade do Feedback da Influência da Liderança
Foto: Ben Sutherland

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jogo interior

Um dos componentes mais importantes na aprendizagem e no desenvolvimento em desporto é o feedback. Este é basicamente uma informação de retorno relativa a algo que aconteceu, a uma acção executada pelo atleta, se for o caso. Em todas as dimensões da vida estamos constantemente a dar e a receber feedback. Em particular refiro-me à acção de retorno de informação que o treinador tem com os seus atletas. É um conjunto de mensagens específicas que o treinador transmite com certos objectivos.

Lembro-me de uma história que ouvi em tempos, aquando do início da primeira passagem de José Mourinho pelo Chelsea (em 2004/2005). Numa certa sessão de treino, Mourinho dividiu toda a sua equipa em grupos de três e, em mini-campos com mini-balizas, colocou jogos de três contra três, com umas certas condicionantes e com certos objectivos técnico-tácticos. Definiu o tempo do exercício e ordenou que iniciassem. Passado um certo tempo foi circulando pelos campos, observando e questionando acerca dos respectivos resultados. Chegando ao campo onde se encontravam alguns dos jogadores-chave da equipa reunidos estrategicamente, como por exemplo Drogba, Joe Cole, Terry e Lampard, questionou o resultado, e os jogadores replicaram “8-7”.

Dizem que Mourinho ficou furioso e deu um tremendo sermão aos jogadores, pois estes não se estavam a aplicar defensivamente e que era impossível num exercício daqueles estar aquele resultado. Conclusão: terminou ali o treino após 30 minutos de sermão à equipa toda. O reforço negativo (um componente do feedback) foi enorme. Penso que neste caso Mourinho absteve-se de dar feedback específico acerca do exercício mas forneceu um outro, mais ligado ao comportamento dos seus atletas, principalmente de alguns dos seus jogadores-chave. A intenção de Mourinho foi o apelo ao compromisso, à dedicação, à entrega em prol da coesão da equipa. Nessa época o Chelsea foi campeão após 50 anos de jejum.

Qual a verdadeira importância do feedback na acção?

Poderemos considerar que o feedback é uma bússola, que guia alguém, neste caso os atletas, à execução melhorada em relação a um objectivo predefinido. O treinador deverá ser capaz de fornecer um feedback adequado, equilibrado, contextualizado e verdadeiro (nem sempre, nem nunca). Ele é uma orientação para a acção e não, como muitas vezes observo, uma voz de comando a todo o momento. Aquilo a que se chama “over-feedbacking” (feedback excessivo), a constante emissão de feedback, de instruções, quer no treino, quer no jogo, demonstra falta de preparação. Significa falta de confiança de parte a parte. Observo muitos treinadores, de várias modalidades, de vários escalões etários, em “over-feedbacking”, como se fossem eles que estivessem dentro de campo a jogar.

Fonte: LakersBlog
O feedback é uma orientação para a ação
Fonte: LakersBlog

O “over-feedbacking” aplicado às crianças ou aos jovens atletas é nefasto. Eles mais do que ninguém detestam que alguém esteja de fora a gritar-lhes ordens constantemente e a comandá-los, como se fossem jogadores de um jogo de “Playstation”. Esta acção retira-lhes o que elas podem ganhar com a descoberta guiada, que é uma acção consonante com um feedback adequado. Quando excessivo, ele é prejudicial pois retira o foco da atenção do próprio atleta na tarefa, e este transforma-se quase num boneco perante o comando do treinador. O feedback excessivo e inadequado soa a falso e não é coerente com a execução que está a ser realizada pelo atleta.

O feedback ideal deverá ser composto por palavras-chave em que o seu significado é conhecido pelo atleta e pelo treinador e deverá projectar o atleta para uma execução concentrada e atenta, em que deverá ser usada uma linguagem positiva e clara, incluindo uma não-verbal e para-verbal congruente. O feedback que o treinador fornece deverá estar em congruência com a descoberta guiada permitida. Desta forma o treinador enquanto líder terá uma maior influência e importância na evolução dos seus atletas. A emissão de feedback é parte integrante da comunicação entre o treinador e os seus atletas. Em jogo, e principalmente em terrenos de jogo amplos, como no futebol, a emissão feedback verbal (até mesmo não-verbal e para-verbal) é difícil, e por conseguinte a influência da liderança do treinador neste contexto é bastante menor. Sendo assim, nestes casos tudo tem de ser trabalhado e preparado no treino.

O feedback é sempre uma acção ou uma intervenção individual. Através dele, o treinador controla os estímulos mas controla também o reforço. A melhoria da sua qualidade por parte do treinador é um processo de tentativa, erro e acerto. É através de muita observação, prática, intervenção, análise e autocrítica que ele é melhorado. Um bom feedback está relacionado com uma boa comunicação. O processo de feedback, para ter qualidade, deve ser cíclico. Começará com uma instrução, seguida da execução por parte do jogador e observação por parte do treinador. Segue-se a avaliação da execução, se esta se integra dentro dos objectivos propostos, e, havendo necessidade, o treinador faz uma reestruturação da informação, fornecendo um novo feedback com reforços, reformulado a instrução inicial. O ciclo interrompe-se com o feedback final de concretização do objectivo. Parece linear mas não é. É um exercício constante de gestão e de comunicação assertiva.

Na história inicial de José Mourinho, o seu feedback estava intencionalmente ligado à sua liderança, e o feedback não é feedback sem uma intenção.

Foto de Capa: Ben Sutherland

 

Alcino Rodrigues

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