Com Zaidu entregue ao departamento médico e Francisco Moura fora das graças de Francesco Farioli, o FC Porto virou-se para o mercado para resolver uma urgência no corredor esquerdo. A resposta atende por João Souza, um defesa lateral de 20 anos que chega cedido pelo Tottenham.
Souza é um lateral de tração à frente, cujo perfil técnico denuncia os anos de formação no futsal. O seu primeiro toque é exímio, permitindo-lhe enquadrar imediatamente a jogada. No um para um, não é um lateral que se limite a correr em frente, tem um drible curto muito apurado e recorre frequentemente às “pedaladas” para desequilibrar o adversário direto e ganhar o espaço exato para o cruzamento.
Uma das suas maiores qualidades invisíveis é a leitura periférica contínua. Souza tem o hábito de mapear o campo constantemente através do movimento do pescoço, mesmo quando vai em condução. Isto permite-lhe perceber de onde vem a pressão e identificar o posicionamento dos colegas na área antes de soltar a bola, o que justifica a sua taxa de sucesso em cruzamentos tensos e atrasados.
Ofensivamente, é um jogador muito inteligente na ocupação de espaços. Consegue oferecer largura total através de constantes desdobramentos e sobreposições pelo flanco, mas é igualmente agressivo a explorar os corredores interiores. Não raras vezes, vemo-lo a fazer movimentos de rotura entre o lateral e o central adversários, atacando a profundidade pelo meio.
No momento de transição defensiva, mostra uma estaleca mental interessante para um jogador sul-americano tão jovem, reage rápido à perda de bola e tenta sufocar o adversário de imediato. Em organização defensiva, lê bem o jogo. Há lances no Brasil onde é visível a sua boa perceção do espaço, se o central do seu lado sai à queima para pressionar, Souza não fica agarrado à linha, fechando rapidamente o espaço interior para compensar o buraco na defesa.
Com 1,83m e pernas longas, tem uma passada que lhe permite galgar metros em progressão e recuperar posição defensiva com facilidade. Revela boa agilidade e mudança de apoios. Mentalmente, o facto de ter assumido a titularidade num Santos sob grande pressão e de ter arriscado uma ida para a Premier League tão cedo demonstra coragem e um perfil altamente competitivo.
No entanto, há aspetos óbvios a limar. O principal é a sua dependência quase absoluta do pé esquerdo. Souza tem muita dificuldade em utilizar o pé direito, seja para um passe simples ou para variar o drible, o que pode torná-lo previsível perante os defensores. Além disso, precisa de melhorar a consistência das suas decisões no último terço, materializando a sua propensão ofensiva em números de forma mais regular.
O modelo de Francesco Farioli exige laterais com pulmão, rigor no posicionamento e capacidade de morder na reação à perda. Souza tem as ferramentas naturais para cumprir tudo isto. Vai precisar de afinar detalhes táticos, especialmente no fecho do lado contrário em cruzamentos, mas tem um bom potencial. Com as portas da titularidade abertas pela conjuntura do plantel, o brasileiro tem tudo para ser o “abre-latas” que o lado esquerdo do FC Porto procurava.

