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José Juan Romero é um treinador que tem o Real Bétis no seu coração. No entanto, o técnico transformou-se num histórico do Ceuta.
SEVILHA, ANDALUZIA- Espanha não tem sido notícia apenas por boas razões nos últimos meses, bem pelo contrário. A queda do governo de Pedro Sánchez está na ordem do dia e tal ‘crise’ justifica-se com vários pontos: alianças políticas que já não estavam a funcionar, aumento do descontentamento da população, salários que não acompanham o custo de vida, crise habitacional que levou a manifestações por todo o território… No entanto, a memória é traiçoeira. Faz-nos pensar que certos acontecimentos já ocorreram há bastante tempo, quando não é bem assim. Quantos se recordam do dia 30 de julho de 2026?
Foi nessa data que ocorreu o começo da crise migratória de Ceuta e as consequências da mesma ainda se fazem sentir hoje em dia. 70 mil pessoas oriundas de Marrocos entraram no território a partir do mar durante as 48 horas, provocando uma crise migratória totalmente inesperada. As razões que estiveram na origem desta entrada em massa não são o foco desta análise. A maioria das pessoas teria uma boa índole, procurando o melhor para si e para os seus. Histórias de vida diferentes umas das outras, mas o objetivo comum de atingir a felicidade. No entanto, também existiu o outro lado da moeda: quem procurou o conflito e a criação de um ambiente tóxico.
Ceuta ainda sofre. O processo de deportação ainda não está concluído e a cidade está transtornada. Negócios destruídos, pessoas assustadas, sobrecarga nos serviços básicos, espaços inacessíveis, policiamento constante. Uma população que necessita da ajuda do seu governo, um incentivo que tarda em chegar, pelo menos na quantidade desejada. Numa fase em que se falava numa anexação do território por parte de Marrocos, em que se questionava a segurança do Espaço Schengen, falou uma voz aos microfones para provocar a reação.
José Juan Romero, treinador do Ceuta, emblema da La Liga 2, teceu críticas duras à forma como a situação estava a ser tratada:
«É humanidade, e estou a perceber que, infelizmente, há muito pouca. Estou muito desiludido com o meu país e com tudo. Os meus jogadores foram apanhados pela onda dos «invasores» no meio de tudo aquilo. Tiveram de sair dos carros, houve interrupções, uns foram detidos, outros foram confundidos...», referiu em agosto, com lágrimas nos olhos.
Do outro lado do Estreito de Gibraltar não há muita margem para pensar em futebol, há preocupações bem mais importantes. No entanto, o desporto-rei continua a ser um escape e, acima de tudo, uma voz para a Espanha Continental. A La Liga deu o exemplo e associou-se à causa, com mensagens de apoio (Vinícius Júnior ou Kylian Mbappé seguiram o caminho contrário, causando alguma estupefação e dando muita margem para serem criticados) que foram bem acolhidas em todos os estádios. Grandes figuras do futebol quiseram ajudar e tal atitude é de saudar. Vozes fortes dão outro tipo de força ao que se reinvidica.
José Juan Romero é um exemplo a seguir. Um andaluz que se transformou num ceutense. Nascido e criado em Gerena, foi na pequena localidade que começou a construir a sua história dentro do futebol, até que em 2016 cumpriu o sonho de integrar os quadros do Real Bétis, assumindo o comando da equipa B. A sua missão de formar jovens durou até 2019, com resultados positivos. Pelas suas mãos passaram nomes como Junior Firpo ou Loren Morón, que conseguiram estabilizar-se na equipa principal.
O técnico de 51 anos já foi franco sobre o seu sonho: orientar os béticos no Benito Villamarín. Ainda vai mais do que a tempo. Contudo, José Juan Romero entendeu que necessitava de crescer fora da ‘bolha verde e branca’. Assim sendo, rumou ao Alfonso Murube pela primeira vez em 2019/20, quando o Ceuta ainda estava no quinto escalão do futebol espanhol. A sua primeira passagem durou dois anos, com uma subida à Segunda RFEF, mas o regresso tinha data marcada.
Em setembro de 2022, Luhay Hamido confirmou a chegada do técnico ao clube do qual é proprietário. A temporada ficou marcada pela concretização de um autêntico milagre. O Ceuta chegou a estar a 14 pontos da linha de salvação, mas uma segunda volta brutal levou o clube a terminar num 12.º posto. José Juan Romero foi o obreiro principal desta recuperação, contando com todos os jogadores do seu lado.
Esta é uma das grandes valias do espanhol; o seu lado humano, a capacidade de ter o grupo de trabalho mais unido que nunca. Daí que o crescimento das últimas temporadas não cause grande espanto. A promoção acabara por chegar em 2024/25, sem um grande investimento, numa Primera RFEF pautada sempre pelo equilíbrio.
Vários jogadores viraram heróis: Pedro López, Guillermo Vallejo, Aisar Ahmed, Rodri Ríos, Rubén Díez… Todos daquele plantel ficaram no coração dos aficionados. Guiaram o Ceuta de volta à La Liga 2, onde já não estava desde 1980/81.
A temporada 2025/26 foi marcada por uma felicidade atípica, com um Ceuta a surpreender e inclusivamente a poder sonhar com uma presença nos playoffs de acesso à La Liga. No final, fechou a classificação num honroso 11.º posto. Não se imaginava sequer a tragédia humanitária que estaria a chegar.
A La Liga 2 ensina algo aos seus participantes: a segunda época é sempre mais complexa do que a primeira. Na estreia, és a novidade, ainda não conhecem bem os teus pontos fracos. Quando já és um adversário bem estudado, é mais fácil seres batido. Em Ceuta havia essa consciência. O objetivo teria de passar pela manutenção, algo confirmado com o baixo orçamento apresentado. Estima-se que o mesmo ronde os 11 milhões de euros, um dos mais baixos da competição.
O Ceuta encontrava-se a montar o seu elenco quando chegou o dia 30 de julho. Quantos jogadores se recusaram a assinar pelo clube devido ao receio da insegurança que se vivia? José Juan Romero terá novamente de criar estrelas, trabalhar com o que existe. O plantel é incompleto e com poucas referências. Apesar disso, Carlos Hernández, José Matos, Alejandro Camacho ou Jordi Escobar procurarão capitanear este barco.
Uma tarefa bem mais complexa do que a da última temporada. José Juan Romero não o esconde:
«Somos uma equipa com limitações. No ano passado, dizia que tínhamos de dar 200%, mas este ano 200% não chega, temos de dar 300%. É óbvio que estamos mais perto de ganhar jogos se não sofrermos golos, mas há limitações. Se amanhã for preciso ganhar por 10-8, então ganharemos por 10-8. Prefiro isso a um 1-0», referiu na mais recente conferência de imprensa.
Poucos treinadores aceitariam trabalhar nestas condições. Dentro das quatro linhas, uma equipa debilitada em termos de qualidade. Fora das mesmas a cidade atravessa uma realidade que condiciona o quotidiano de quem lá vive. José Juan Romero já era um herói pelas ruas de Ceuta, mas nestes últimos meses acabou por se transformar numa referência ainda maior, criando uma ligação a roçar o familiar.
Será que o seu sonho continua a ser orientar o Real Bétis? Dadas as circunstâncias, o regresso à normalidade será o objetivo número 1. O regresso a casa pode esperar.












