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Marco Silva assumiu o comando técnico do Benfica no último verão e está a conseguir bons resultados no emblema da Luz.
O Benfica foi o único dos candidatos ao título em Portugal a trocar de treinador. Tal mexida foi provocada pela saída de José Mourinho para o Real Madrid, embora a continuidade do setubalense não agradasse a todos, dada a prestação abaixo do esperado durante 2025/26. Rui Costa e a cúpula da estrutura sabiam que tinham de trazer um técnico capaz de convencer a exigente massa adepta. Na Luz, é impossível que exista um consenso, mas o antigo número 10 estava obrigado a conseguir agradar a uma vasta maioria.
A escolha recaiu em Marco Silva, seduzido pelo facto de poder orientar o clube do coração. O regresso do timoneiro a Portugal foi facilitado pelo facto de o seu contrato com o Fulham ter chegado ao fim. Para muitos, foi um passo atrás. O treinador era uma figura consolidada na Premier League e podia atingir um outro patamar dentro de Inglaterra.
No entanto, é uma opção ainda mais respeitável quando se trata de um desejo pessoal. Marco Silva, apesar do crédito que tinha no estrangeiro, no seu país natal não tinha deixado ainda a sua pegada. Fez um grande trabalho no Estoril Praia e venceu a Taça de Portugal com o Sporting, batendo de frente com Bruno de Carvalho. No entanto, a sua ausência das capas dos jornais levou a que caísse no esquecimento de alguns durante alguns anos, principalmente enquanto esteve no Olympiacos, Hull City e Watford. Everton e Fulham tampouco são candidatos ao título, o que leva a análises não tão profundas ou que geram tanto interesse.

Aos olhos de hoje, retiramos a conclusão de que Rui Costa acertou em cheio na aposta que realizou. Depois de uma primeira metade de 2026 na qual o presidente foi contestado, a crítica foi sendo silenciada pelos resultados dentro de campo e pela postura do seu treinador, que não se preocupa apenas em colocar a equipa a jogar um bom futebol, mas também procura defender a instituição que representa e pela qual dá a cara. Neste sentido, Marco Silva está um passo à frente de Francesco Farioli e de Rui Borges, que estão mais ‘protegidos’ pelas respetivas estruturas.
Os encarnados fizeram um investimento pesado no último mercado de transferências, uma vez que estão em quatro frentes, que procurarão chegar ao mais longe possível. Gastaram-se mais de 90 milhões de euros durante o verão (pese embora os 128 milhões de euros recebidos, parte deles devido a cláusulas de compra obrigatórias), com o plano de trazer para a Luz atletas com experiência em grandes campeonatos e que pudessem acrescentar no imediato: Alessandro Circati, João Palhinha, Clément Lenglet, Jakub Kaminski, Souffian El Karouani, Claudio Echeverri e Jhon Durán encaixam neste perfil, independentemente da sua idade. Somente Gabriel Índio foge desta órbita, mas a sua contratação é para o longo prazo.
Marco Silva entendeu a urgência de ganhar. No Benfica não existe margem de erro para ninguém. O plantel dos encarnados é completo, tem poucos defeitos, mas o calendário não permitiu que esta situação fosse distinta. Todos os jogadores terão muitos minutos até maio de 2027. O único ponto negativo? A possibilidade de a equipa técnica não recorrer tanto à formação, tão apreciada na Segunda Circular. Porém, a aventura de José Mourinho permitiu verificar que jovens poderiam ser lançados aos tubarões: Daniel Banjaqui, José Neto e Anísio Cabral são as referências. Gonçalo Moreira, Tiago Freitas, Miguel Figueiredo ou João Fonseca terão de esperar por lesões, ou pelos jogos menos exigentes da Taça de Portugal.

Marco Silva terá atenção aos diferenciados, mas não tem luz verde para experiências, uma vez que ainda disputa todas as frentes. Se, eventualmente, o Benfica se atrasar na corrida pelo título ou alcançar o apuramento para a fase seguinte da Europa League de forma antecipada, os planos podem ser mudados. A exigência está no máximo.
Uma outra conquista de Marco Silva nestes primeiros meses de trabalho foi a recuperação de atletas para a causa, jogadores que estavam quase descartados pelo Universo Benfica. Dodi Lukebakio (13 jogos, dois golos e duas assistências) e Enzo Barrenechea (11 jogos e uma assistência) eram nomes desvalorizados pela massa adepta dos encarnados, devido às prestações aquém do esperado em 2025/26. Com a mudança de equipa técnica, o belga está em crescendo, ainda que como suplente utilizado, enquanto que o argentino, até à lesão, estava a encher o olho.
Marco Silva é um treinador capaz de retirar a melhor versão dos jogadores: Gianluca Prestianni (15 jogos, nove golos e cinco assistências) está a mostrar uma consistência que anteriormente não tinha exibido. Rafa Silva (15 jogos, cinco golos e uma assistência) está de volta ao nível que apresentou na sua primeira passagem. Claudio Echeverri (quatro jogos e duas assistências) mostra os laivos de craque que exibiu no River Plate, mas que tinham estado escondidos no Manchester City, Bayer Leverkusen e Girona (necessitava de uma passagem por uma liga fora das Big 5, onde pudesse crescer com menos pressão). Vangelis Pavlidis (16 jogos, 16 golos e quatro assistências), Leandro Barreiro (14 jogos três golos e duas assistências), Fredrik Aursnes (oito jogos e dois golos) e Alexander Bah (13 jogos dois golos e três assistências) conseguiram manter o alto nível competitivo. E isto não é simples com uma mudança de um treinador tão carismático para outro. O técnico conseguiu impor a sua ideia e ao mesmo tempo encaixou as peças da melhor forma, para retirar sumo de todas.

Ainda que não seja algo público, o balneário do Benfica aparenta estar calmo, sem margem para polémicas. Sempre se murmurou que dentro do vestuário existia um grupo líder, ao qual o treinador teria de prestar especial atenção. O mito deve ter chegado ao fim. Para Marco Silva, todos são iguais. Se o atleta não trabalhar, não estará no onze inicial. Mesmo a troca de guarda-redes na Primeira Liga, com Samuel Soares a assumir-se como titular, não criou grandes agitações e Anatoliy Trubin é uma figura de impacto, com um salário de peso e um elevado estatuto que terá de manter somente com a Europa League, pelo nesta fase.
No que diz respeito ao balneário e ao que se passa dentro das quatro linhas, há algo que Marco Silva ainda não conseguiu melhorar face à última época: as prestações de Georgiy Sudakov (16 jogos, um golo e uma assistência). O internacional ucraniano foi contratado por 26 milhões de euros, mas não logra alcançar o padrão da equipa. Apesar de continuar a ser aposta forte, a sua presença é irrelevante e pode não existir uma solução para este problema. O jogador é colocado a médio ofensivo centro, o que provocou a mudança de Rafa Silva para o corredor direito, mas ainda não produzir resultados. Nem tudo é perfeito. Será altamente complicado recuperar o dinheiro investido, mas a equipa técnica continuará a trabalhar o atleta até ao final da temporada.
Marco Silva, como referido anteriormente, tem uma comunicação muito própria, transformando-se no rosto do projeto desportivo. O seu discurso é sério, com poucos sorrisos e nenhuma margem para o exterior. Em primeiro lugar, está a defesa dos valores da instituição e de quem a representa. O técnico não quer estar envolvido em polémicas e trata de colocar um ponto final nas mesmas.

A atitude perante as notícias de que Anatoliy Trubin poderia sair do Benfica, exibe a sua forma de estar, sem elevar a voz e mantendo o respeito perante toda a sala. O técnico não foi questionado pelos jornalistas sobre o tema. Mas trouxe-o à conversa com frieza e transmitiu a mensagem de que conta com o atleta. Isto tranquiliza o jogador, passa a mensagem de controlo total aos adeptos e faz com que ganhe ainda mais margem. Não está com meias palavras ou um discurso encomendado. No entanto, não deveria ser trabalho de Marco Silva a abordagem deste tipo de assuntos. Afinal, a estrutura conta um diretor de comunicação e um diretor desportivo.
Neste ponto, pouco ou nada mudou. Bruno Lage e José Mourinho foram os principais comunicadores do Benfica em 2025/26 e Marco Silva assumiu tal papel, que nenhum dos três deveria ter. Será algo a corrigir por Rui Costa (que não é um comunicador por excelência) nos próximos meses.
Marco Silva tem a vasta maioria do Universo Benfica do seu lado e isso não é simples de alcançar, principalmente em cerca de quatro meses de trabalho diário. O facto de ser adepto do emblema ajuda a tal fenómeno. As águias estão a cinco pontos do FC Porto à oitava jornada da Primeira Liga. Noutros anos, já se estaria a pedir a cabeça do treinador. É ver o caso do Sporting de Rui Borges, que só tem um ponto a menos (ainda que tenha outro tipo de histórico).
O panorama que se apresenta em 2026/27 é totalmente diferente. Marco Silva explicou aos adeptos que há um caminho a percorrer e que também há que saber olhar para o longo prazo e entender que não é possível conquistar todos os pontos. Uma norma que se aplica a todos.

É tão irreal imaginar que o Benfica de Marco Silva vai conquistar os troféus que estão em disputa? Há direito a sonhar. A Primeira Liga é uma longa caminhada e os encarnados terão tempo de recuperar a desvantagem. Na Europa League, poucos estão a mostrar a qualidade de futebol jogado que as águias estão a exibir. Bayer Leverkusen e Bournemouth são, em outubro de 2026, as grandes ameaças ao conjunto da Luz.
O Benfica tem primeiras e segundas linhas capazes de disputar todos os jogos até ao final da época. O banco está recheado de nomes que querem acrescentar. Souffian El Karouani, Daniel Banjaqui, Anatoliy Trubin, Enzo Barrenechea, Andreas Schjelderup, Jhon Durán seriam titulares indiscutíveis na maioria das equipas do nível das águias. Na Luz, sabem que têm rivais de posição capazes de fazer-lhes frente.
Uma das primeiras conclusões de 2026/27 é que Marco Silva foi uma grande notícia para o Benfica e para o futebol português. É o homem indicado para recuperar uma instituição que estava eclipsada, deixando o protagonismo todo para FC Porto e Sporting. A luta é novamente a três.











