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Michael Carrick e o festejar antes da festa | Manchester United

José Vale · 3 min

Michael Carrick Manchester United
Foto: Manchester United FC

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Não sei se a culpa total é de Michael Carrick, mas os problemas do Manchester United ultrapassam o treinador inglês. 

Não é a primeira vez que abordo este assunto. A primeira foi um pouco depois da contratação de Michael Carrick, na época passada, em que os foguetes já iam no ar e o clima era de festa. Falava-se do culminar do ADN United, com um futebol apaixonante de vertigem, capaz de conquistar os títulos que eram, até então, uma memória vaga de outros tempos. Nessa altura, o meu ceticismo já era elevado em relação ao treinador inglês, não por despeito, mas por descrença num eventual aumento de qualidade em comparação com o seu antecessor, Rúben Amorim.

Ora, o tempo deu razão aos críticos de Carrick. Gary Neville, o seu antigo colega de equipa e um dos que pediam um treinador com o ADN do clube, mostra hoje com Carrick uma paciência que não teve com Amorim. Acontece: os momentos alteram-se e a opinião pode mudar. Apesar disso, não deixa de ser irónico. O treinador que melhor representava o que era ser “United” e que chegava com o objetivo de “limpar” o mau trabalho deixado por Amorim já é contestado, após uma série de maus resultados. Os adeptos que viam com bons olhos a chegada do inglês, que até afirmavam que, se tivesse vindo desde o início da época, teriam ganho a Premier League, agora fartaram-se do treinador.

Ruben Amorim Manchester United
Fonte: Filipe Oliveira / Bola na Rede

É engraçado notar o contraste em relação ao que se vivia na época passada, em que as manchetes crucificavam o português pelos maus resultados, com as antigas lendas do clube enraivecidas pelo que acontecia em Old Trafford. Pediam um homem da casa, alguém que sentisse o clube da forma certa, seja o que quer que isso signifique.

A verdade é que os resultados estão longe dos que se viram na época passada. E a questão que se levanta é: do sucesso da época passada, quanto se deve a Amorim? Neste momento, não parece descabido afirmar que muito desse sucesso se devia ao treinador português. A equipa pressionava, corria (algo que não se vê esta época) e praticava um futebol agradável para quem assistia. Era vertiginoso, mas demasiado assente na transição rápida e no contra-ataque. Um clube não pode estar totalmente dependente do contra-ataque, precisa de uma filosofia de jogo, de um estilo duradouro que represente uma forma de jogar. O Manchester United de Carrick não o tem.

Falta pulso na equipa de Manchester, uma identidade vincada, em que os jogadores deem tudo pela camisola que têm vestida, sem egos. O balneário do United sofre do mesmo problema há largos anos: os jogadores sentem que merecem mais e têm à-vontade no momento de criticar a direção e a equipa técnica. Um clube necessita de uma cultura forte, de líderes dispostos a morrer pelo clube e pelo coletivo. Esta mentalidade vencedora encontra-se ausente de Old Trafford desde os tempos de Alex Ferguson. O “ADN United” deveria ser a entrega dos jogadores em campo, não uma desculpa para atacar treinadores que não cumprem as quotas imaginárias que tantas lendas do clube exigem. 

Esta temporada, os problemas voltaram a aparecer e a euforia da época transata desvaneceu-se. O clube inglês procura uma boia de salvação para um barco em naufrágio há já vários anos. As soluções encontradas pela direção do clube mostram-se infrutíferas, como se o Manchester United estivesse preso num ciclo constante de más decisões. O resultado até agora: 13.º lugar na Premier League, uma vitória em três jogos na Champions League, declarações pesadas de Lisandro Martínez e Bruno Fernandes com acusações disfarçadas. 

O sentimento de déjà-vu é já tradição em Old Trafford. Os anos passam, mas continua tudo igual, sem perspetivas de mudança. Muito se falou da contratação de Carrick como uma salvação para o Manchester United, não concretizada até agora. Não sei se a culpa total é de Michael Carrick, mas os problemas ultrapassam o treinador inglês. 

É um problema de estrutura. Parece cliché abordar o conceito de “projeto”, mas é precisamente o que falta ao Manchester United: uma estratégia sólida, sem precipitações. E a maior precipitação foi mesmo a contratação de Carrick, desprovida de razão e mais motivada pela ligação do treinador ao clube. Resta corrigir o erro, pensando a longo prazo. Sem decisões erráticas. 

Em Old Trafford, na época passada, lançaram-se foguetes antes da festa. A história tende a repetir-se, veremos se o Manchester United aprendeu a lição.

José Vale

Redação Bola na Rede · ver artigos

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