Recordar é Viver | O brilhante início de século do Lyon

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Gerações recentes responderão sem grande hesitação à pergunta “qual é o melhor clube de futebol francês?”. No entanto, dos 12 títulos da Ligue 1 conquistados pelo PSG, apenas dois aconteceram há mais de 15 anos, o que pode facilmente toldar o julgamento de quem acompanha o desporto rei há menos tempo. Antes do “financiamento árabe” ao clube parisiense, o cenário do futebol francês era bem diferente e, no início do corrente século, houve um emblema que deixou uma marca épica na sua história.

Com as suas origens a remontar ao final do século XIX, o Olympique Lyonnais foi oficialmente fundado em 1950. Até 2000, o clube conquistou quatro títulos da Ligue 2, três Taças de França e uma Supertaça. O estatuto de grande não lhe era atribuído de forma indiscutível e não se adivinhava que, nos primeiros 10 anos do novo século, o número de troféus no seu palmarés aumentaria para mais que o dobro.

Os sete títulos consecutivos da Ligue 1 conquistados pelo Lyon entre 2001 e 2008 constituem um recorde que chegou até aos dias de hoje. Juntando seis Supertaças, uma Taça da Liga e uma Taça de França, o Lyon dos anos 2000 dominou o futebol doméstico, mas pecou pela ausência de títulos internacionais.

Um dos grandes obreiros deste período dominante foi Jean-Michel Aulas. O empresário francês assumiu a presidência do clube quando este militava no segundo escalão, em 1987, e a sua estratégia financeira e de recrutamento ditou a autossuficiência da equipa. Comprar barato, desenvolver talento e vender caro foram os princípios teoricamente simples que Aulas conseguiu aplicar como poucos.

Aproveitando erros na gestão de rivais como Marselha ou PSG, o Lyon conseguiu assumir-se como a maior potência do futebol gaulês. Aulas deixou a presidência em 2023 e é considerado por muitos como um dos melhores presidentes da história do futebol.

A política de contratações objetiva, que visava a aquisição de jogadores ainda jovens mas com valor comprovado, levou ao Stade de Gerland inúmeros jogadores de enorme qualidade. Entre eles destacam-se os brasileiros Sonny Anderson, Edmílson, Fred e Juninho Pernambucano, sendo este último um exímio batedor de livres diretos e um dos jogadores mais talentosos a vestir a camisola do clube.

Talento com origem africana, algo bastante comum no desporto francês, rendeu também quantias avultadas para os cofres do Olympique, sendo de realçar as passagens de figuras como Michael Essien e Mahamadou Diarra. A qualidade encontrada a nível nacional foi também bem aproveitada, com nomes como Coupet, Malouda, Wiltord e os localmente formados Benzema e Gouvou a assumirem grande importância.

Durante anos, o Lyon preparou muito bem a venda dos seus maiores ativos. Os jogadores fulcrais para o desempenho em campo saíam apenas quando a quantia adequada (ou até acima disso) era apresentada e quando um substituto à altura já estava “na calha”. A entrada do internacional português Tiago após a saída de Essien (por um preço substancialmente menor) é um excelente exemplo desta preparação.

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Em equipa que ganha não se mexe, mas o Lyon ia mexendo, e nos oito anos do heptacampeonato teve quatro técnicos diferentes: Jacques Santini, Paul Le Guen, Gérard Houllier e Alain Perrin. No entanto, as mudanças no sistema táctico foram sempre subtis, com o 4-3-3 a manter-se, bem como as principais características dos diversos setores.

Com um núcleo tático bem definido que se apoiava na solidez defensiva, meio-campo extremamente físico e ataque criativo e veloz, o Lyon aproximou-se de um título da Champions League, que viu fugir nos quartos de final por três ocasiões consecutivas. FC Porto, PSV e AC Milan foram os carrascos que afastaram o emblema francês da glória europeia

Já depois de perder a hegemonia na Ligue 1, o Lyon aproximou-se ainda mais do título europeu, ao chegar às meias-finais da competição em 2009/10 e mais recentemente em 2019/20 (edição atípica em que os quartos de final e meias-finais foram disputados em jogo único, em território português, devido à pandemia). Sem qualquer título desde 2012, os Gones tentam agora aproximar-se dos lugares de qualificação para a liga milionária, na qual não participam precisamente desde 2020.

João Pedro Santos
João Pedro Santos
Licenciado e mestre em Biotecnologia pela Universidade de Aveiro, é atualmente estudante do Programa Doutoral em Engenharia Química e Biológica da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Tendo a música e o desporto como grandes interesses, dedicou-se recentemente à escrita de artigos de opinião para o projeto Bola na Rede.

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