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Recordar é Viver: Benfica vs FC Porto

João Rodrigues · 6 min

Recordar é Viver: Benfica vs FC Porto

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recordar é viver

Hoje é dia de clássico, o jogo mais explosivo do futebol português, neste caso o jogo do título. Num Estádio da Luz que se prevê completamente lotado, os dois grandes rivais enfrentar-se-ão numa partida que poderá muito bem ser decisiva para as contas deste campeonato. Portanto, temos tudo para assistir a mais um desafio inesquecível entre duas equipas, desafio esse que se juntará à galeria dos muitos e muitos clássicos que ainda hoje permanecem na história do futebol português.

Seleccionei três partidas entre Benfica e FC Porto, sendo que todas elas terminaram com resultados diferentes, tendo como ponto comum o facto de terem contribuído de uma forma decisiva para o desfecho de cada campeonato.

Benfica 2-3 FC Porto: Época 1991/92

Resumo do Jogo

Temporada 1991/92, 28.ª jornada, 90 mil espectadores no antigo Estádio da Luz. Fantástica tarde para a prática do futebol e por isso mesmo ambiente efervescente nas bancadas. Cerca de 30 mil (!) adeptos do FC Porto fizeram questão de comparecer na Luz para dar o decisivo impulso à equipa orientada por Carlos Alberto Silva. Os “dragões” eram líderes isolados da prova e viam ao fundo do túnel a hipótese de reconquistar o campeonato ao Benfica, campeão nacional na altura, e que tinha como técnico um tal de Sven-Goran Eriksson, então na sua última época ao serviço dos “encarnados”. Mas já se notava claramente uma mudança de paradigma no futebol nacional. O FC Porto estava cada vez mais forte e ia aproveitando uma progressiva quebra dos rivais lisboetas, apesar de o Benfica ainda contar na altura com grandes plantéis.

Quanto ao jogo em si, um soberbo espectáculo de futebol. Golos, jogadas de perigo, emoção, casos, futebol total entre duas equipas de grande nível. O desafio era mais importante para um Benfica que se perdesse praticamente diria adeus à luta pelo título. A iniciativa de jogo pertenceu quase sempre às “águias”, mas as investidas do Benfica iam quase sempre esbarrando na seguríssima defesa do FC Porto, que era um dos grandes apanágios de Carlos Alberto Silva. À medida que o tempo passava o Benfica perdia fulgor, expondo-se cada vez mais ao letal contra-ataque do rival. Por isso mesmo, não espantou que os azuis-e-brancos de adiantassem no marcador por intermédio de João Pinto, através de uma grande penalidade, depois de uma falta cometida por Rui Bento que lhe implicou a expulsão.

A partir daí o desafio entrou numa fase louca, com golos para ambas as equipas. William empatou a contenda para o conjunto da casa, para de seguida Kostadinov restabelecer a vantagem azul-e-branca. Mas no minuto seguinte o Benfica voltou a empatar na sequência de um golo de Yuran, até que à beira do apito final (e numa altura em que o FC Porto também estava reduzido a 10 unidades, devido à expulsão de Jaime Magalhães), Timofte estabelecia o resultado final, colocando assim a sua equipa na rota do título. Quanto ao Benfica, a época ficava praticamente perdida e Eriksson já se preparava para regressar ao futebol italiano, onde continuaria a ser muito feliz.

Benfica 0-0 FC Porto: Época 1992/93

Resumo do Jogo

Uma época depois e cenário idêntico. O Benfica recebia um FC Porto que se encontrava na primeira posição e que procurava pontuar na Luz para ficar mais perto do bicampeonato nacional. Na segunda temporada de Carlos Alberto Silva no comando dos “dragões”, o FC Porto mantinha a espinha-dorsal da sua equipa, num misto de juventude (Vítor Baía, Fernando Couto, Jorge Couto, Domingos) com jogadores consagrados e mais experientes (André, Aloísio, Jaime Magalhães, Kostadinov). Pela frente tinha um Benfica dotado de um plantel assombroso (Hélder, Mozer, Veloso, Schwarz, Paulo Sousa, Kulkov, Pacheco, João Pinto, Isaías, Rui Costa, Vítor Paneira Rui Águas) e…Paulo Futre, o melhor jogador português da altura. Mas por mais estranho que possa parecer o Benfica tinha mais um campeonato em risco.

Toni era o treinador da equipa desde a 10.ª jornada, substituindo um Tomislav Ivic que teve uma primeira fase de campeonato paupérrimo. A 1.ª volta foi fraca, mas com a 2.ª metade da prova vieram as boas exibições e o futebol que se exigia a tão bom lote de jogadores começou a aparecer. Assim sendo, era com enorme expectativa que se antevia o “jogo do título” na Luz. Com um ambiente extraordinário nas bancadas, a partida decepcionou imenso. O Benfica raramente conseguiu construir grandes ocasiões de golo, ao passo que o FC Porto conseguiu gerir o jogo quase a seu bel-prazer, pese embora tenha passado por um outro susto. Encarando o jogo de uma forma extremamente pragmática, bem ao estilo de Carlos Alberto Silva, a equipa portuense saía da Luz com o mesmo avanço pontual sobre o Benfica, o que viria a revelar-se precioso para a conquista do bicampeonato.

Por seu turno, os comandados de Toni terminariam o campeonato no 2.º lugar, claramente uma desilusão para quem tanto tinha apostado para aquela temporada. Do mal o menos, o Benfica acabou por conquistar a Taça de Portugal daquele ano, mas já eram evidentes várias convulsões internas no clube e que teriam repercussões muito grave passados poucos anos.

Benfica 2-0 FC Porto: Época 1993/94

Resumo do Jogo

Estávamos no dia 6 de Fevereiro de 1994, 18.ª jornada do campeonato nacional. O Benfica, orientado por Toni, defrontava o FC Porto que estreava no banco, em partidas a contar para o campeonato, Bobby Robson. O treinador croata, Tomislav Ivic, voltava a ser o réu e depois de uma má 1.ª volta saía do clube das Antas sem deixar saudades. O Benfica era o líder da prova com uma vantagem de quatro pontos sobre o rival (a vitória valia dois pontos) e por isso mesmo havia a consciência de que uma vitória benfiquista significaria o adeus ao título por banda do FC Porto.

No Verão de 1993 o Benfica havia sofrido uma razia em termos de saídas. Foi o célebre “Verão Quente” em que Paulo Sousa e Pacheco trocaram a Luz por Alvalade alegando salários em atraso, sendo que João Pinto também esteve a um pequeníssimo passo de seguir o mesmo caminho. Paulo Futre também já não morava na Luz, após ter saído para o Marselha, mas mesmo assim os “encarnados” aguentaram o choque e de uma forma surpreendente foram somando pontos, instalando-se no primeiro posto da tabela. Já o FC Porto mantinha a mesma estrutura da época anterior, mas com o Ivic o futebol praticado nunca convenceu, situação que se traduziu em vários desaires. Com Bobby Robson ao leme dos então campeões nacionais, a qualidade de jogo ira melhorar bastante e iriam ser criadas as bases para um ciclo dourado no clube.

Todavia, e em relação ao clássico na Luz, o Benfica triunfou sem grande discussão. Uma vitória por 2-0 em noite chuvosa alicerçada numa boa exibição das “águias” que jogaram com mais uma unidade em campo a partir dos 40 minutos de jogo, após expulsão de Fernando Couto com vermelho  directo, na sequência de uma agressão a Mozer, num lance que motivou uma célebre declaração de Robson na conferência de imprensa pós-jogo, afirmando que o resultado tinha sido de “Benfica 2-0  Fernando Couto”. Com golos de Ailton e de Rui Costa, o Benfica consolidava o primeiro lugar e praticamente arredava o FC Porto da luta pelo título, mesmo ainda faltando muito campeonato.

E a verdade é que a equipa da Luz sagrar-se-ia mesmo campeão nacional, para depois entrar numa espiral de más temporadas que conduziriam o clube a um período muito delicado da sua história. Por seu turno, o FC Porto venceria a Taça de Portugal dessa temporada, para depois…iniciar o trilho do pentacampeonato.

João Rodrigues

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