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O futebol está rendido a João Félix! É um craque promissor da sua geração, joga que se farta, desequilibra como ninguém, tem uma leitura e posicionamento de jogo excecional. Daí resultam as inúmeras comparações com os melhores do mundo, os recordes impressionantes e os golos.
A ascensão do n.º 79 permite a identificação destas caraterísticas, apesar de ser o golo mais facilmente percetível para o espetador comum. Nesta que é a temporada de estreia, já totaliza 12 tiros certeiros, como não se esperasse outra coisa do mágico do SL Benfica. Apesar de valioso – no fim de contas, é o que decide jogos! –, um golo é apenas o culminar de um lance, que passa por vários processos: a construção do próprio lance, o posicionamento, e a finalização, que não foram esquecidos nesta difícil e exigente escolha.
Três magos fazem o que melhor sabem: magia (SL Benfica 10-0 CD Nacional) – Que mais posso acrescentar a uma jogada que é perfeita? Mistura o entendimento já conhecido de Pizzi e André Almeida com a criatividade de João Félix, que não fica de fora deste autêntico truque de magia.
A defesa do Nacional não teve uma noite nada fácil, e apesar de este lance não ter dado golo devido a Kalindi se ter antecipado a Seferovic, os três envolvidos na jogada criaram uma sequência de passes e movimentações irrepreensíveis. Por esse motivo, não poderia deixar escapar este momento em claro. Tinha de ser referido especialmente quando falamos de João Félix. Agora sim, passemos aos golos!
5.
O primeiro de 12 (SL Benfica 1-1 Sporting CP) – Numa análise inicial, o primeiro tento de João Félix na equipa principal poderá parecer um simples golo de cabeça, em que tudo correu bem. Mas é muito mais que isso!
A beleza deste golo reside em todo o processo que vai desde a construção até ao momento em que a bola entra na baliza. O setor mais recuado do Sporting mostra-se frágil e permite um passe longo de Fejsa para Zivkovic, seguido de uma desmarcação fraturante de Rafa, que ultrapassa um desconcentrado Jefferson.
A partir do momento em que o extremo encosta no flanco direito e cruza ao primeiro toque, a defesa sportinguista mostra-se inteiramente focada no que Rafa irá fazer, e com a atenção redobrada em Seferovic, que nem se faz ao lance. João Félix está ligeiramente atrás e aproveita a desatenção dos defesas, que estão de costas, para saltar e cabecear para dentro da baliza. Ristovski tenta cortar, mas sem hipótese, porque ninguém estava à espera de que a bola fosse ao encontro de Félix. Como podem ver nas imagens, Coates, André Pinto e Petrovic estão desenquadrados, tal como Salin, que também se deixa enganar.
O cruzamento de Rafa, antecedido pelos passes de Fejsa e Zivkovic, é meio caminho andado para a bola entrar na baliza. A concretização do que viria a ser o empate no derby é possível graças à trajetória da bola, que permitiu enganar os defesas, e ao posicionamento de João Félix, que aproveitou o momento certo para apontar o primeiro golo na equipa principal do Benfica.
4.
O início da cambalhota (FC Porto 1-2 SL Benfica) – Se há coisa que João Félix sabe fazer – e são muitas –, é ler o jogo e posicionar-se da melhor forma para receber a bola e construir. Foi isso mesmo que se sucedeu no clássico com o Porto e, em concreto, no golo do empate que permitiu a reviravolta dos encarnados rumo à vitória e à liderança no campeonato.
Uma vez mais, o ponto forte deste tiro certeiro está na sua construção e na forma como a bola chega a João Félix, que não precisa de pensar muito para finalizar. Casillas procura Adrián López, mas é Gabriel quem interseta. Manafá recupera o esférico, mas Gabriel não desiste e é Seferovic quem vence o duelo com o ex-Portimonense, numa disputa algo duvidosa. Nisto, vê-se João Félix a aproximar-se da grande área e a pedir a bola ao companheiro.
Tal como no golo anterior, com o cruzamento de Rafa, a grande peculiaridade neste lance é o passe de Seferovic que, além de chegar direitinho a Félix, confunde Pepe e permite o domínio para inserir a bola dentro das redes.
Acima de tudo, esta é mais uma prova de trabalho e esforço, não só de Félix, que soube posicionar-se adequadamente, mas também de Gabriel, particularmente insistente, e Seferovic, que prosseguiu com um passe magistral. Há ainda que realçar a garra e a persistência dos encarnados em cada lance, mesmo que não seja totalmente eficaz. Isso consegue-se através do treino, que Bruno Lage tanto gosta de teorizar, e do entendimento e companheirismo entre os jogadores, aliado à tática e estratégia do treinador.
3.
Seferovic aguenta tudo e Félix finaliza (SL Benfica 4-2 Rio Ave FC) – Na partida de estreia de Bruno Lage no Benfica, João Félix bisou frente ao Rio Ave, na única vez em que marcou mais que um golo no mesmo jogo.
Dos dois tentos, quero destacar o primeiro em particular, pois nasce de um roubo de bola que Pizzi oferece a Seferovic. Sob pressão intensa, o suíço percorre uns bons metros em profundidade e, perante três adversários, assiste à segunda tentativa para dentro da área, onde está o homem do costume: João Félix, que supera outros três jogadores, de forma soberba, e atira para dentro das redes.
Neste lance, e aconselho que o (re)vejam, há três pontos a destacar: a “cavalgada” impressionante para um jogador como Seferovic; o passe que confunde os centrais e abre espaço para João Félix; e o gesto técnico do 79, fruto do excelente posicionamento e visão de jogo. Mais um excelente entendimento, numa abordagem exigente, pela forte pressão dos opositores, mas executada de forma letal.
2.
Pura criatividade (SL Benfica 2-0 CD Aves) – Na quinta jornada, depois de se ter estreado a marcar contra o Sporting, João Félix apontou o segundo golo no Benfica e abriu o marcador diante do Desportivo das Aves.
O lance é mais um de grande qualidade e é a prova de que a leitura, entendimento e posicionamento perante o jogo são fatores vitais. Antes da linha de meio campo, Grimaldo adianta Pizzi, que aguenta a pressão de Rodrigo Soares. Ao mesmo tempo, João Félix vai acompanhando a condução do transmontano, que faz um passe exímio por entre as pernas do lateral do Aves e para as costas dos centrais, onde está João Félix – em posição legal – para receber e, ao primeiro toque, levantar a bola e bater Beunardeau, que ainda estica os braços, mas em vão.
Este é mais um lance em que João Félix foi uma peça decisiva. Não só finalizou como ajudou Pizzi a dar seguimento ao momento ofensivo, com uma desmarcação que só mostra a capacidade criativa e a facilidade de posicionamento e desequilíbrio perante os adversários.
1.
Melhor seria impossível (Sporting CP 2-4 SL Benfica) – Na segunda volta do campeonato, João Félix voltou a marcar ao Sporting, num golo de qualidade máxima. Tudo correu bem e o futebol praticado foi irrepreensível. Desde o momento em que Samaris dribla sobre Wendel até à bola entrar na baliza, a defesa sportinguista mostrou-se passiva e novamente desconcentrada.
Nas imagens que passarão a ver, é Samaris quem dá início ao segundo golo do derby. O grego observa Wendel, que se aproxima, e bastam dois toques para trocar as voltas ao brasileiro e passar para outro brasileiro, Gabriel rodopia e coloca em Seferovic, que, ao segundo toque, assiste João Félix por entre os centrais.
A partir daqui, é académico e a redondinha entra no canto esquerdo da baliza de Renan. O golo suscitou algumas questões de posicionamento, mas o gráfico é claro e mostra que, uma vez mais, Félix foi mais esperto e soube exatamente quando estava dentro da linha de jogo, uma vez que Bruno Gaspar estava mais atrás e era o último homem antes do guarda-redes. Mais que ninguém, João Félix tem provado ser o tipo de jogador que sabe quando deve avançar para finalizar uma jogada, ou recuar, se estiver em fora de jogo.
Apesar de este Top ser o reflexo de uma opinião, elegi este golo como o melhor que João Félix apontou na equipa principal. E foram muitos, o que tornou a escolha ainda mais difícil. No desempate, prevaleceram os pequenos pormenores, apesar de a maior parte dos tentos terem sido construídos e executados a um nível técnico acima da média. Este não foi exceção e, a meu ver, foi perfeito e sem nada de contraditório a apontar.
Texto revisto por: Mariana Coelho
Foto de Capa: Carlos Silva/Bola na Rede









