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As 20 maiores traições do Futebol Português (Parte II)

Diogo Soares Loureiro · 11 min

Foto: Carlos Silva/Bola na Rede

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O Futebol Português não lida bem com trocas de jogadores entre clubes rivais (muitas vezes rotuladas de traições). Ao contrário do que historicamente se foi verificando em campeonatos como Itália ou Inglaterra, um jogador que em Portugal troca o seu clube por um rival direto, fica quase que imediatamente riscado pela massa adepta do anterior clube, normalmente rotulado de vendido ou traidor.

Se a lista da semana passada foi interessante, chegam agora os nomes que funcionaram como verdadeiros barris de pólvora para adeptos e comunicação social.

Jorge Jesus (SL Benfica/Sporting CP)

Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Apesar de alguns nomes bastante polémicos, eu diria que Jorge Jesus ganha a pole positon desta lista. Talvez fruto do sucesso que teve no SL Benfica (títulos de campeão nacional, finais europeias, etc.), ou talvez pelo facto de ser treinador, a verdade é que esta foi a “traição” mais marcante dos últimos anos no futebol Português.

Depois de vários finais de época em que se especulou sobre a saída de JJ do estádio da Luz, tal viria mesmo a acontecer em 2015. Os dirigentes do clube encarnado pareciam tão preocupados com um eventual “roubo” por parte do FC Porto que se deixaram ultrapassar na curva por Bruno de Carvalho. Conclusão? O SL Benfica fica sem o seu conceituado treinador, vê esse mesmo técnico assinar pelos rivais de Lisboa e fica montado um circo que acabaria por durar toda a época, com várias trocas de “mimos” entre JJ e o treinador Rui Vitória ou dirigentes do clube encarnado.

A opção de Jesus teve um misto de coragem e loucura. Coragem por aceitar um desafio sempre complicado de tentar ter sucesso e estabilizar o Sporting CP, ainda para mais trabalhando diretamente com uma figura como Bruno de Carvalho. Loucura por aceitar passar de ídolo a persona non grata aos olhos de um clube e de adeptos que tantas vezes o aplaudiram e que o conceituaram na alta roda dos treinadores Portugueses.

Nos duelos diretos Jorge Jesus ganhou vantagem, o Sporting CP até jogava melhor futebol, mas a verdade é que o SL Benfica foi campeão nas três épocas que JJ passou em Alvalade, facto que deu especial gozo aos adeptos encarnados.

Maxi Pereira (SL Benfica/ FC Porto)

Maxi era o típico jogador Uruguaio, daqueles que sua a camisola, joga no limite, não vira a cara à luta, sempre com enorme raça e vontade de vencer. Durante vários anos, foi o lateral direito mais marcante da Liga Portuguesa, que pelas suas caraterísticas é o tipo de atleta que se adora quando está na nossa equipa, mas que se odeia quando está no adversário.

Ora, com este padrão e tendo em conta que passou oito épocas ao serviço do SL Benfica, tornou-se um símbolo do balneário, tendo acumulado uma enorme quantidade de jogos e inclusivamente envergado a braçadeira de capitão. Quando em 2015 rejeita as propostas de renovação do SL Benfica e decide assinar pelo FC Porto, foi um verdadeiro soco no estômago para todos: Benfiquistas não queriam acreditar que um dos seus jogadores mais leais e queridos estava a deixa-los pelo maior rival, Portistas não queriam acreditar que o FC Porto estava a apostar num jogador que detestavam e que era um dos símbolos do rival.

A transferência fez correr muita tinta, mas a forma sempre empenhada e profissional de Maxi Pereira fez com que rapidamente conquistasse os corações azuis e brancos, onde acabaria por se tornar uma das referências de balneário e onde permaneceu quatro anos.

 “Sentimo-nos muito agradecidos às pessoas da cidade do Porto. Respeito o Benfica, mas o nosso coração cai para o lado do FC Porto.”

João Vieira Pinto (SL Benfica/ Sporting)

Curiosamente, o próprio já admitiu que nasceu Portista, mas que teve de “mudar o chip” quando passou a profissional, até porque foi um dos jogadores mais marcantes nos três principais rivais dos Azuis e Brancos.

Formado no Boavista FC, o menino D´Ouro transferiu-se para a Luz em 1992 onde ficou oito (!!) épocas ao mais alto nível, incluindo o ano do famoso jogo 6 – 3 contra o Sporting CP, onde apontou três tentos. Foi um verdadeiro ídolo dos adeptos do SL Benfica, até que fortes divergências com o Presidente Vale e Azevedo e com o treinador Sounness o levaram a rescindir o contrato, tornando-o um jogador livre. Ora, quem não adormeceu foi o Sporting CP, que aproveitou imediatamente a oportunidade para no ano 2000 fechar com um dos melhores jogadores do futebol Português.

No Sporting CP tornou-se um ídolo ao fazer com Mário Jardel uma das melhores duplas do futebol luso e que valeram aos leões o último título de campeão nacional. Na luz, não podem ouvir falar no nome dele.

Terminou a sua brilhante carreira com quase 180 golos e muitas assistências.

Fábio Coentrão (SL Benfica/ Sporting CP)

Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

A história de Fábio Coentrão tem tanto de inusitada como de cómica. Quando ainda estava no Rio Ave FC foi “assediado” pelo Sporting CP, mostrando sempre enorme vontade de continuar a jogar de verde. De repente, aparece o SL Benfica, acabando por contratar o então extremo, posição onde nunca se afirmou e que lhe valeu um empréstimo ao Nacional da Madeira. Regressa à Luz pela mão de Jorge Jesus que o converte num dos melhores jogadores do SL Benfica e num dos melhores laterais mundiais, que lhe valeu a titularidade na Seleção Portuguesa e uma transferência para o Real Madrid CF. Da luz sai a fazer juras de amor eterno e venerado por uma massa adepta que o via como jogador da casa e como símbolo do clube.

Seis temporadas depois da sua saída de Portugal, ao ser associado pela imprensa ao Sporting CP, faz uma declaração nas redes sociais a reafirmar que em Portugal só jogaria no SL Benfica. Dias depois, assina pelos leões e afirma ser Sportinguista desde pequeno. Como devem imaginar, cada jogo de Fábio Coentrão contra o SL Benfica (mesmo depois da saída de Alvalade) é um espetáculo digno de uma tela de cinema onde só falta o balde de pipocas.

Podia ter tido uma história ainda mais interessante, quando no início da época 2019/2020 quase assina pelo FC Porto…

Mário Jardel (FC Porto/Sporting)

Um dos melhores jogadores da história do FC Porto, do Sporting e do futebol Português. O melhor finalizador que vi jogador em Portugal e um dos melhores a nível mundial.

Chegado do Grémio FBPA, faz quatro épocas fantásticas na invicta, tornando-se um ídolo absoluto. Parte para a Turquia onde apesar dos seus 34 golos fica apenas uma época regressando a Portugal. Chega ao aeroporto envergando um cachecol do FC Porto, equipa com quem tinha tudo acertado para o regresso. Otávio Machado, então treinador dos azuis e brancos, recusou o jogador afirmando que não precisava do Super Mário. Resultado: assina pelo Sporting e no seu ano de estreia faz mais de 50 golos oferecendo de bandeja o último título de campeão nacional aos leões.

Apesar do seu coração tender para o azul, ficou sempre como uma lenda dos dois clubes e como figura mítica do futebol Português. Para os Portistas e Sportinguistas um Deus, para os Benfiquistas um dos maiores terrores e lamentos da sua história.

João Moutinho (Sporting/ FC Porto)

O famoso caso da “maçã podre”. João Moutinho foi talvez a traição mais “consentida” e a melhor jogada de bastidores da era Pinto de Costa, no que à contratação de atletas diz respeito.

Aproveitando (mais) uma fase de enorme instabilidade no Sporting CP, onde pareceu existir um divórcio com o médio Português fruto do mesmo ter expressado a sua vontade de se transferir para o Everton FC, Pinto da Costa foi realizando algumas abordagens, tendo reuniões no sentido de perceber a viabilidade de aquisição de João Moutinho.

Podemos até dizer que é de saudar que dois clubes grandes tenham conseguido sentar-se à mesa para negociar um jogador, mas obviamente os sportinguistas não perdoam este ato de gestão danosa feito pelo Presidente Bettencourt: João Moutinho era dos melhores ativos do Sporting CP, foi para um rival por um preço baixo (11 Milhões) e acabou por reforçar grandemente o plantel do FC Porto, tendo desempenhado um papel absolutamente essencial nas várias conquistas do FC Porto, com especial destaque para a super época de André Villas-Boas.

“Era capitão do Sporting e a minha mudança para o FC Porto não foi fácil. Uma grande decisão, uma boa decisão, uma das melhores que tomei no futebol, porque ganhei muitas coisas” – hoje é venerado pelos adeptos azuis e brancos e odiados pelos verdes e brancos. Talvez por isso já várias vezes afirmou: “Espero um dia poder voltar ao FC Porto, sempre disse que gostava de voltar.”

Alan (Vitória SC/ SC Braga)

O presidente do SC Braga, António Salvador, quando questionado sobre a contratação que mais gozo lhe deu, não hesitou em responder: Alan. “Até pela forma como aconteceu. No ano anterior, tinha estado no Vitória SC, nas poucas vezes em que o Vitória ficou à nossa frente nas últimas décadas. Havia um diferendo entre o FC Porto e a Direção do Vitória. O Vitória queria que o Alan ficasse lá na época seguinte, porque o FC Porto não contava com ele. O Pinto da Costa, meu amigo, ligou-me a dizer que o Vitória SC queria o Alan, mas que não estava disponível para o emprestar novamente. Pediu-me para ficar com Alan. Disse a Jesus que tínhamos essa hipótese. Torceu sempre o nariz. Foi preciso esperar toda a pré-época. Lembro-me que Pinto da Costa ligou-me a perguntar como era. ‘Não perca esta oportunidade’. Disse que estava a falar com Jesus, que não tinha Alan no planeamento. Ligou-me novamente, passei o telefone a Jesus, falaram os dois e ficou tudo resolvido”.

Uma verdadeira “facadinha” à Portuguesa. O resto foi história, um jogador que além de deixar a sua marca dentro das quatro linhas, ainda hoje faz parte da estrutura do SC Braga e se converteu num símbolo do clube.

Paulo Futre (Sporting CP / FC Porto / SL Benfica)

O genial Paulo Futre é mais um dos raros casos que conseguiu fazer o “pleno” dos três grandes. Formado em Alvalade, onde começou a encantar o público Português com o seu famoso pé esquerdo, muda-se surpreendentemente para o FC Porto onde foi muito feliz. Na invicta juntou ao seu palmarés o título de campeão nacional e Europeu num impensável ano de 1987. Sai, entretanto, para o Club Atlético de Madrid onde fica até 1992, cumprindo um período que também todos sabemos como correu. Nesse mesmo ano, regressa a Portugal para jogar no SL Benfica, onde conquistou uma Taça de Portugal.

Curiosamente, não obstante a enorme preponderância que teve nos três clubes, é uma figura que ainda hoje nutre simpatia junto dos adeptos. As suas mudanças não tiveram um impacto tão negativo como seria de prever.

Apesar de se assumir como sportinguista, não vacila em escolher o momento decisivo da carreira: “Eu estava para ir para a Académica OAF. Depois aparece o presidente Pinto da Costa e pronto… Com todo o respeito à minha mãe, às mulheres, às meninas… Eu tinha 18 anos e ia para uma cidade académica, de estudantes. Como é que eu ia chegar ao domingo, ao dia de jogo, a 100 por cento? Se não tivesse ido para o FC Porto talvez não me tivesse tornado no jogador em que me tornei”.

Rui Águas (SL Benfica / FC Porto)

“Saí do Benfica para o Porto porque fui ganhar 11 vezes mais”. É assim que o ex-avançado ainda hoje justifica a sua mudança para a invicta. Filho de uma lenda encarnada, marcou golos que levaram as águias à final da Taça dos Campeões Europeus, onde se tornou um símbolo, mas o estigma de ter jogado no FC Porto ainda o persegue, passados 30 anos.

Três anos na luz, dois no estádio das Antas, para depois regressar novamente ao clube encarnado onde ficaria mais quatro épocas. Um percurso nada usual, já que não me recordo de um outro caso em que um jogador tenha regressado ao clube depois de o ter trocado por um dos rivais. Pelo menos não em Portugal.

O jogador acabou por sofrer nos dois lados: se alguns adeptos encarnados ainda hoje o apelidam de “traidor”, na invicta a integração não foi fácil – havia o estigma por ser ex-Benfica. O clube azul e branco tinha um grupo muito fechado, atletas com história, com títulos, pelo que vindo alguém exterior, e ainda por cima do rival, ficou com a vida dificultada. Referiu numa entrevista em 2017 – “há coisas que se sentem mesmo dentro do campo. Havia um ou outro que não gostava especialmente de me passar a bola – nem em treinos! E eram pessoas que eu já conhecia, éramos colegas de seleção. Mas nessa altura, a seleção não era como agora, um bloco, um espírito de união: eram dois clubes rivais que transportavam essa rivalidade para a seleção.

João Pereira (SL Benfica / Sporting CP)

Confesso que a decisão aqui não foi fácil. Entre João Pereira e Paulo Bento, os dois tinham alguns pontos em comum, mas acabei por optar pelo lateral direito do Trabzonspor Kulübü por ser mais atual.

Formado na Luz, começou por dar nas vistas pela sua velocidade e qualidade, mas essencialmente por uma entrega, raça e uma energia que rapidamente o fez “cair no goto” dos Benfiquistas. João Pereira gozava de um invejável estatuto junto dos adeptos, uma vez que há muito que das escolas do SL Benfica não emergia nenhum ‘craque’, excetuando o guarda-redes Moreira.

Por ser um jogador que gostava especialmente de criar picardias com os jogadores e adeptos do Sporting CP, foi com enorme estranheza que vimos o mesmo, em 2009, a trocar o SC Braga por Alvalade, onde jogou três temporadas até emigrar para Espanha. Acabaria por regressar ao equipamento verde e branco para mais duas temporadas em 2015, onde somou alguns episódios de rivalidade, desta vez contra o seu clube de formação.

“Obrigado pelo carinho com que sempre me trataram. Desejo o melhor a este enorme clube e serei eternamente grato. Um adepto mais”, escreveu o defesa após a sua saída de Alvalade. Mais recentemente, admitiu que não nasceu sportinguista, que até era um clube que não simpatizava, mas que tudo mudou depois de ter representado os leões, confessando-se como enorme admirador do clube verde e branco.

Diogo Soares Loureiro

Redação Bola na Rede · ver artigos