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Esta é, certamente, a época mais atípica dos últimos anos no futebol mundial. A Primeira Liga Portuguesa não foge à regra, e, na tentativa de manter esta temporada “fresca” na mente de todos os nossos seguidores, resolvi elaborar um artigo acerca dos meus treinadores preferidos da nossa liga, tendo por base o trabalho nas respetivas equipas até à “paragem de Covid-19”.
O top que se segue – que começa no quinto lugar e prossegue de forma ascendente – tem um cunho bastante pessoal. Anda à volta das táticas utilizadas e do desempenho das equipas. Em alguns casos, vou tocar até na personalidade de cada um deles no que diz respeito à comunicação. Comecemos então.
5.

Sérgio Conceição (FC Porto) – O treinador que está em primeiro lugar ao leme do FC Porto tinha de figurar neste top de treinadores. Destaco pela negativa a sua forma de encarar os jogos, mas não em relação à tática: oscila entre o 4-4-2 e o 4-3-3 (o que não me parece descabido, face ao plantel que tem em mãos). O problema é que privilegia sempre mais uma equipa com homens possantes fisicamente, em detrimento dos mais “virtuosos”. Eu, enquanto espetador, prefiro ver os mágicos em campo – acho que resolvem mais facilmente do que os “monstros físicos”, principalmente contra defesas muito fechadas.
Não é, de todo, o meu treinador favorito na comunicação aos jornalistas e adeptos. Muito emocional, com um mau perder terrível e quezilento: muito à imagem do que era como jogador.
Por outro lado, pela positiva, destaco a garra que consegue transmitir aos seus jogadores. É claro que a sua mensagem passa, e os homens que tem em campo “comem a relva” para garantir os três pontos. Para além disso, sabe montar uma equipa à sua imagem. É por isso um dos treinadores portugueses da nova geração com mais “mercado” no estrangeiro.
4.

Bruno Lage (SL Benfica) – Começando do mesmo modo que iniciei em relação ao seu congénere do FC Porto, digo que um técnico que está no segundo lugar – depois de várias jornadas em primeiro –, tendo feito a primeira volta que fez, tem de figurar neste top. Em certas alturas, o SL Benfica fez partidas muito boas, destruindo os seus adversários. O problema é que, nesta época, também já fez jogos muito maus, e foram esses que ficaram mais na retina.
Atribuo a culpa a Bruno Lage, porque o plantel do SL Benfica é, de longe, o melhor da Primeira Liga Portuguesa, com imensas opções e com muitos jovens a render bastante no Seixal. Parece-me que o seu 4-4-2 preferido está esgotado e que os treinadores da nossa liga – sempre astutos – já perceberam que há falhas graves nas transições defensivas dos encarnados, procurando infligir mais dano nesse momento do jogo.
O que menos gosto nele é a incapacidade de mexer na equipa durante o jogo, fazendo quase sempre más substituições. Junta a isso o facto de passar a ideia, para quem vê os jogos de forma regular, que tem alguns “preferidos”. Parece que, por pior que sejam as suas exibições, nunca saem do onze. Percebia essas opções se o seu plantel fosse fraco, mas, como já referi, não é esse o caso.
Aquilo que mais admiro é a forma como não fala de arbitragens (quer ganhe ou perca) e como comunica, falando de tática, de opções, sem medos – coisa rara em muitos treinadores. Talvez seja por isso que alguns adeptos estavam com vontade de ouvir explicações sobre as “recentes” pobres exibições e sobre o facto de ter perdido sete pontos de vantagem para o seu rival.
3.
Palavra de mister 🤞🏻
Carlos Carvalhal na antevisão do #RAFCFCP 🦈 #rioavefc #muitonossosemigual pic.twitter.com/XpdWWq3HB0
— Rio Ave FC (@RioAve_FC) September 28, 2019
Carlos Carvalhal (Rio Ave FC) – Muitos podiam pensar que estava a dar um passo atrás na carreira e que seria algo que o poderia fazer estagnar. Porém, o Rio Ave FC já nos habituou, nos últimos anos, a equipas competitivas, que jogam um bom futebol – olhos-nos-olhos dos adversários – e, claro, a treinadores muito competentes. Carlos Carvalhal vem precisamente nessa linha e tem feito um excelente trabalho. Na minha opinião, está a valorizar-se bastante para um regresso a outros “campeonatos”.
Não há grande dúvida de que, quando olhamos para os vila-condenses, há ali dedo de treinador, sempre com uma pressão alta ao adversário, seja ele qual for. Aliás, um bom exemplo disso mesmo foi a atitude da equipa no Estádio do Dragão. Aí, conseguiu um empate, apesar de ter capacidades para ter levado mais do que isso para sua casa. Gosto sobretudo da forma como se preocupa com o processo defensivo, sem nunca abdicar de estar mais perto da baliza do oponente.
2.

Ivo Vieira (Vitória SC) – Depois da excelente temporada no Moreirense FC, Ivo Vieira mudou-se para um clube que tem outra ambição e, na minha opinião, está a colocar o Vitória SC a jogar o melhor futebol desde que me lembro. Jogar como uma equipa grande é não ter medo de atacar seja contra quem for. E não são todos os treinadores que o fazem. É saber que a qualidade que tem no plantel dá para lutar taco-a-taco contra qualquer adversário. Mais do que saber, é colocar essas ideias em prática. Algo que, por exemplo, Silas nunca fez no Sporting CP, tendo por isso o fim que todos sabemos.
É certo, a época a nível interno não está a correr como esperado, mas, se há equipa que tem tido azar nos jogos, é este Vitória SC: a bola bate no poste e sai, em vez de entrar. Quando corre bem, assistimos a goleadas demolidoras. Ivo Vieira transmite-me a ideia de que é tão “obcecado” em ver futebol espectáculo nos seus jogadores, em 4-3-3 ou 4-2-3-1, que, muitas vezes, descura o processo defensivo, sofrendo alguns golos desnecessários. Ainda assim, o espetador agradece. Pode ser que eu esteja enganado, mas vai ficar pouco tempo em Portugal, se não tiver hipótese de subir até um dos “grandes”. Para terminar, parece-me um erro de gestão que a direção do Vitória SC não renove com ele.
1.

Rúben Amorim (Sporting CP) – O meu primeiro lugar vai para um homem que, há menos de seis meses atrás, nem sequer estava a treinar ao mais alto nível (tanto que ainda nem sequer tem a graduação necessária para tal). Porém, acho que vai ser a nossa próxima “coqueluche”, em termos de treinadores, nos próximos anos. Vou até mais longe: o Sporting CP foi muitíssimo inteligente em ter “pago” os 10 milhões pelo técnico que estava no SC Braga. Estamos a falar de uma aposta de futuro e de passar à frente da concorrência direta. O facto de ele ter aceitado é que me causa mais desconforto, porque não acho que o Sporting CP tenha a estrutura necessária para fazer singrar seja quem for.
Considero que aprendeu muito com Jorge Jesus. Ter como “modelo” um treinador que tanto admiro e que tem muita qualidade pode ajudar a explicar o seu sucesso. Em cima disto tudo, o facto de me transmitir uma ideia de que é mais equilibrado no controlo das suas emoções do que o treinador do Clube de Regatas do Flamengo diz muito sobre a sua postura, e pode até transmitir mais “tranquilidade” ao plantel.
O seu 3-4-3 preferido – se quiserem, 5-4-1 em processo defensivo – é um modelo que não vemos assim tantas vezes em solo nacional, o que demonstra que monta as equipas com um cunho muito próprio e uma tremenda vontade de trazer coisas novas ao nosso panorama desportivo, com intérpretes tantas vezes acusados de não inovar (o que eu discordo).
Parece ter ido “beber” inspiração à escola italiana, mas com algumas nuances: enquanto que os transalpinos privilegiavam a consistência defensiva com esta tática, Ruben Amorim parece privilegiar o ataque, através de uns alas sempre mais ofensivos do que defensivos, defesas que saibam sair a jogar com a bola nos pés e extremos que aparecem na área para finalizar. Aliás, assim que chegou ao Sporting CP, vindo de Braga, colocou logo a sua tática à prova. Apesar de ter sido contra um adversário com muitas fragilidades e que viu dois cartões vermelhos, passou com distinção. Onde tem de melhorar é precisamente na consistência defensiva, algo que vai acontecer nos próximos tempos, penso eu.
É certo, o plantel do SC Braga está bem composto para este ano, mas quem ganha a FC Porto (2x), Sporting CP (2x) e SL Benfica (1x) no espaço de um mês e meio (para competições diferentes) é treinador de equipas grandes, e vai-se tornar ainda melhor.
Nota: Há mais treinadores sobre os quais gostaria de falar, mas o top que idealizei tinha só cinco integrantes. Então tive de deixar João Pedro Sousa, Vítor Oliveira ou João Henriques, que também admiro, de fora.
Artigo revisto por Mariana Plácido








