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Pausa técnica: O regresso aos estádios

Redação BnR · 6 min

Regresso

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O apuramento para o Campeonato do Mundo de 2022 traz uma espécie de pausa técnica à Liga Bwin. À exceção da saída de Daniel Ramos do CD Santa Clara, os treinadores da Liga mantêm-se firmes e apesar da indisponibilidade de muitos jogadores, há tempo e espaço para se ajustarem pormenores e testarem novas soluções.

Oito jornadas depois do arranque, não falta matéria para reflexão, mas não esperem encontrar aqui análises técnico-táticas do que já se jogou. Não sei o que teriam a dizer sobre um dos jogos que abriu esta temporada. Provavelmente falariam do golo madrugador do maravilhoso Fran Navarro, da alta rotação de Fujimoto ou da falta de capacidade de resposta do Boavista. Quanto a isso não tenho muito a acrescentar.

Quando partilho alguma ida ao estádio perguntam-me sempre o que achei do jogo, raramente tenho reflexões inovadoras ou disruptivas para fazer sobre o que acontece dentro do campo, é que o estádio é um lugar cheio de vida que me distrai muito. Ainda assim, aproveitei a pausa para seleções para refletir sobre o meu regresso a esse espaço infinito de possibilidades.

Há dois meses voltava a entrar num estádio pela primeira vez nesta era D.C. (depois de covid). Era uma das 2.014 pessoas que marcavam presença no Estádio Cidade de Barcelos para assistir a um Gil Vicente FC – Boavista FC.

A lotação limitada que se praticava no arranque do campeonato abrangia quase exclusivamente sócios, o que defraudava as minhas expectativas para assistir a um qualquer jogo da primeira jornada. Não tardaram a chegar as habituais sugestões: Pede um convite! Não arranjas um convite? Não és amigo do fulano? Queres o contacto do sicrano?

Não nego, nem censuro este tipo de estratégia, é válida e também a uso sempre que preciso. No entanto, queria voltar ao estádio como adepta. Queria perceber que dificuldades existiam, queria a satisfação de conseguir um bilhete. A conquista de um bilhete difícil é de uma satisfação do “catano”. Quem já esteve horas numa fila para conseguir bilhete ou teve de esperar por lotarias de bilhetes ou juntar todos os trocos durante meses para um jogo especial, percebe o que quero dizer.

Perdoem-me! Distraio-me sempre muito, já me conhecem. Voltando ao ponto. Sabia que ia ser difícil, mas tinha um jogo em mente: Gil Vicente – Boavista. Estava prestes a desistir quando na segunda-feira, dia de jogo, apostei todas as fichas. Consegui despachar o trabalho e às 18h49 comecei a disparar mensagens para tentar perceber se ainda seria possível comprar bilhete “público geral”.

Bola
Fonte: Sebastião Rôxo / Bola na Rede

O jogo era às 20h15. O Twitter começou a funcionar com informações contraditórias. Peguei no carro e arranquei de Gaia para Barcelos sem ter a certeza se teria bilhete, mas já levava muita informação. Alguns garantiam que ainda existiam bilhetes e explicavam-me o processo: teste covid ou certificado digital de vacinação, cartão de cidadão. Primeiro deveria dirigir-me à bilheteira e depois seguir para outra fila para mostrar documentos e conseguir uma pulseira que juntamente com o bilhete me daria acesso ao estádio.

Cerca de 70 km depois, cheguei ao Estádio Cidade de Barcelos. Não comento se infringi ou não o código da estrada. Consegui estacionar perto sem dificuldade, facto que me causou alguma estranheza, confesso. Acelerei o passo, subi a rua de acesso ao estádio, aproximei-me de uma das portas e perguntei onde ficava a bilheteira.

– «É do outro lado, tem de contornar o estádio».

O calor a fazer-se sentir, a máscara a apertar e eu a correr sem ter a certeza se teria lugar ali. Chego finalmente à bilheteira. Tem uma fila de quatro ou cinco pessoas. Anda rápido. Há bilhetes! Já de bilhete na mão dirijo-me a outra fila uns passos mais à frente. Não deixa dúvidas porque se vê ao longe, tem algumas dezenas de pessoas.

Não demoro muito até conseguir a pulseira e fico com a sensação de que está tudo muito bem organizado e a fluir. Ainda assim, foram bem audíveis reclamações de alguns adeptos mais velhos para quem todo aquele sistema era algo confuso. Alguns deles já tinham dado a volta ao estádio. Apesar de tudo, achei injusto. Era o primeiro jogo da época com público, estava toda a gente a aprender, clubes incluídos.

 

Quando chego à minha porta percebo que todo aquele processo não levou sequer 10 minutos. “Bem, Gil!” penso eu. Pensamento interrompido por mais reclamações de outros adeptos que tal como eu teriam de fazer mais uma caminhada para conquistar a sua pulseira. Tinham seguramente mais 30 anos que eu e argumentavam não terem sido informados do processo. Foi quando percebi que para mim tudo fluía às mil maravilhas. Sabia o que tinha de fazer, movimentava-me rápido e sem dificuldade de um sítio para o outro. A internet dava a ajuda que faltava. Lembrei-me de como seria se fosse o meu avô, como conseguiria ele a informação. A dificuldade e o tempo que levaria para contornar o estádio.

Fiz uma pesquisa demasiado rápida (e superficial, devo admitir) sobre o perfil do adepto português. Talvez exista, no entanto, não encontrei algo que me respondesse à pergunta: qual é a idade média do adepto português? Quando me lembro dos clubes dos quais sou mais próxima, sobretudo do Campeonato de Portugal, a ideia que tenho é que a sua massa associativa é composta na sua maioria por pessoas +55. Talvez isto esteja tremendamente errado. Ainda assim era bom que refletíssemos sobre a acessibilidade do adepto.

Volto à minha porta. Antes de entrar ainda consigo assistir ao reencontro de duas amigas rejubilando por ali estarem:

– «Ah! Não acredito! Não acredito!»

Fazem aquela dancinha que agora fazemos quando queremos abraçar alguém que não vemos há muito tempo, mas ainda temos de lidar com os receios e distâncias. Matam saudades enquanto ajeitam o cachecol do Gil que lhes cai sobre os ombros.

Entro finalmente no estádio. Caramba, que bonito está o Cidade de Barcelos. O sol põe-se à minha frente por entre as brechas das bancadas enquanto os adeptos do Boavista cantam à minha direita. A máscara impede-me de sentir o cheiro da relva que se estende apenas a alguns metros de mim. As equipas alinham-se sob os últimos raios de sol. Os adeptos do Gil despertam, o meu pé cede ao bater dos tambores. O árbitro apita. Três minutos depois, Fran Navarro tem a bola nos pés, está em posição frontal, aguenta a carga, segura, segura. Começa a desviar-se para a direita. Na bancada dá-se início à primeira suspensão da temporada, o movimento em uníssono, a lenta construção coletiva de um chuta, chuta. Chuta! GOLO!

Começou a época, os adeptos estão de volta a casa e eu sinto que posso continuar o legado de Eduardo Galeano: voltar a ser uma espécie de pedinte que anda de estádio em estádio suplicando apenas por uma boa jogada.

Artigo de opinião de Márcia Ribeiro Pacheco,
Atriz e Produtora de Conteúdos

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