João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Iraque, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.
Quando olhamos para uma final, quase toda a gente fala de táctica, sistemas, qualidade individual ou favoritismo. Mas quem vive o futebol no terreno sabe que uma final começa muito antes do apito inicial, começa durante a semana, no balneário, nas conversas individuais. No silêncio do treinador quando chega a casa depois do treino e começa a pensar em tudo o que pode mexer emocionalmente com a equipa.
E sinceramente, olhando para esta final entre Sporting e Torreense, vejo dois treinadores a viver emoções e responsabilidades completamente diferentes.
Rui Borges chega ao Jamor com aquilo que muitas vezes é o peso mais difícil no futebol, a obrigação de vencer. Quando se treina um clube como o Sporting, chegar à final não chega, há uma exigência natural do clube, dos adeptos, da dimensão da camisola e até dos próprios jogadores. E isso sente-se durante toda a semana, o treinador sente, os jogadores sentem e até a comunicação à volta da equipa muda.
Porque no futebol as finais perigosas são muitas vezes estas, aquelas em que toda a gente já entregou a taça antes do apito inicial. E é aí que entra o verdadeiro trabalho do treinador.
Mais do que táctica, acredito que Rui Borges vai passar grande parte desta semana a tentar proteger emocionalmente a equipa. Controlar ansiedade, evitar excesso de confiança, fazer os jogadores perceberem que finais não se ganham apenas com qualidade individual ou estatuto, ganham-se com equilíbrio emocional nos momentos difíceis.
Porque basta o jogo entrar nos últimos 30 minutos empatado para tudo mudar emocionalmente. O estádio fica nervoso, os jogadores sentem isso, aparece a pressa de resolver rápido e muitas vezes as equipas começam a jogar mais com o coração do que com a cabeça. E nas finais isso paga-se caro.
Do outro lado está Luís Tralhão, mas a viver uma realidade completamente diferente.O Torreense já fez história. E isso muda tudo na preparação emocional da semana, não existe obrigação de vencer, não existe pressão exterior, e sinceramente, Luís Tralhão não precisa de motivar ninguém para este jogo. A motivação já existe naturalmente, o Jamor, a oportunidade de jogar uma final da Taça de Portugal, o ambiente, a possibilidade de ficar para sempre na história do clube… tudo isso já coloca os jogadores num nível emocional altíssimo.
E aqui aparece uma das partes mais interessantes do trabalho do treinador. Por vezes o trabalho não é motivar, é acalmar. É impedir que a emoção consuma a equipa demasiado cedo, é evitar que os jogadores entrem acelerados, desligados da organização colectiva e a querer resolver tudo em 15 minutos.
Acredito que Luís Tralhão vai tentar manter a equipa emocionalmente leve, mas competitiva. Fazer os jogadores acreditarem que podem discutir o jogo sem perderem a identidade que os trouxe até aqui. E depois há detalhes que quase ninguém vê numa semana de final.
As famílias, os bilhetes, os amigos, os telefones que não param, as mensagens, as entrevistas, a dificuldade em dormir, o receio de errar num palco gigante, excesso de adrenalina. Tudo isso faz parte da preparação de uma final.
E muitas vezes fala-se demasiado da táctica e pouco da gestão humana que existe nestes jogos. Mas quem trabalha no futebol sabe que as grandes finais também se ganham aí, na capacidade do treinador sentir o grupo, perceber emoções, controlar ambientes e manter a equipa equilibrada quando o contexto emocional aperta.
No domingo estarão duas equipas dentro de campo, mas também estarão dois treinadores a viver pressões completamente diferentes.
Rui Borges a gerir o peso da obrigação. Luís Tralhão a gerir a emoção de um sonho já histórico. Que seja um grande espetáculo.

