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Tribuna VIP: Depois dos grupos de aperitivos, chega o prato principal!

Redação BnR · 11 min

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A primeira fase do Campeonato da Europa não trouxe grandes surpresas e a lógica acabou por imperar nos seis grupos. O Bola Na Rede faz-lhe um resumo das três primeiras jornadas do Europeu e lança os encontros dos oitavos de final.

O GRUPO F, O DE PORTUGAL

Comecemos pelo grupo de Portugal, o chamado “grupo da morte”. A seleção campeã europeia em título apenas carimbou o acesso aos “oitavos” na derradeira jornada, naquela que foi uma das disputas mais emocionantes neste fase inicial.

Com um dos planteis mais talentosos do torneio, Fernando Santos teve algumas dificuldades em encontrar a chave para o sucesso do meio-campo português nas duas primeiras jornadas, devido à aposta no conservador duplo-pivot William-Danilo e ao facto de não ter conseguido encaixar as peças mais criativas do onze (Bernardo Silva ou Bruno Fernandes) dentro da cadência de jogo pretendida.

A estreia frente à Hungria apresentou uma equipa estável no momento de recuperação defensiva mas com nítidas dificuldades em jogar dentro do povoado bloco húngaro. As entradas de Rafa, Renato Sanches e André Silva ajudaram a forçar o cadeado, que acabou definitivamente desbloqueado com um golo aos trambolhões de Raphael Guerreiro. Daí à goleada e a um dos golos mais espetaculares da fase de grupos, foi um pulinho, mas os sinais de intranquilidade que duraram 84 minutos foram ainda mais visíveis no jogo seguinte.

Cristiano Ronaldo voltou a bater novo recorde no jogo frente à Hungria
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Perante o 3-4-2-1 de Joachim Low, Portugal passou os piores momentos a nível defensivo desde a chegada de Fernando Santos ao comando técnico da Seleção. A Alemanha circulou à vontade nos três corredores, aparecia em zona ofensiva com cinco homens e Gosens, sozinho nos quatro golos, foi o improvável herói de uma tarde na qual a linha de 4 na defesa ficou claramente exposta perante a largura do jogo alemão.

O selecionador assumiu os erros e perante a França as coisas foram diferentes. Sendo uma equipa mais de vertigem e ataque à profundidade, a turma gaulesa possui um modelo de jogo que encaixa melhor nas características técnico-tácticas dos jogadores portugueses. Renato Sanches e João Moutinho foram apostas no onze e mostraram-se fundamentais para a melhor primeira parte de Portugal na competição. Palhinha provou que também pode vir a ser opção, numa noite em que sobressaíram igualmente três dos heróis da conquista de 2016: Cristiano Ronaldo, Rui Patrício e Pepe.

Além de Portugal, em terceiro lugar, também França e Alemanha carimbaram o apuramento, ainda que com doses de sofrimento distintas. Os gauleses deixaram a situação bem encaminhada após a vitória frente à “Mannschaft” na abertura, numa prova do valor individual da equipa francesa (exibições excecionais dos centrais, de Pogba e muito bom nível de Mbappé).

Os empates que se seguiram deixaram a o impressão de que esta França sofre quando encontra adversários que lhe retiram o espaço em profundidade (Hungria) e que sabem aproveitar os desajustes em alguns momentos da transição defensiva (sobretudo entre lateral-direito e central).

Por outro lado, a Alemanha oscilou mais, mesmo que com um modelo de jogo bem definido. Soube crescer na segunda parte frente aos Blues (com Kimmich a juntar-se ao eixo central), realizou uma exibição de luxo frente a Portugal e tremeu perante a Hungria, dada a falta de ideias e planos viáveis para ultrapassar o bem estruturado 5-3-2 de Marco Rossi.

E por falar nos magiares, fica uma palavra de apreço para uma seleção que num grupo de grau de dificuldade hiper-elevado, soube competir bem, dentro de uma organização defensiva forte, à italiana, e de um aproveitamento dos pontos fortes em momento ofensivo (jogo direto para Ádam Szalai, bom toque dos três médios e capacidade de rupturas e apoios de Rolland Sallai). O apuramento ficou à distância temporal de seis minutos.

OS OUTROS GRUPOS DO EURO 2020

O Grupo A mostrou à Europa uma das maiores candidatas a conquistar o troféu, apesar de não estar catalogada como tal desde o início: a Itália. Com princípios bem sustentados em posse (saída a três, elaboração por escalões dos médios, todos fortes com bola no pé e mobilidade e técnica no último terço), a Squadra Azzurra terminou a fase de grupos com três triunfos, sete golos marcados e nenhum consentido. A pressão incisiva sem bola e o preenchimento sagaz de todos os corredores tanto a defender como a atacar são as marcas de água de uma equipa de médios espetaculares (Jorginho, Locatelli, Barella e o regressado Verratti).

Em segundo lugar, passou o País de Bale… perdão, de Gales, mais uma das várias estruturas que se apresentaram neste Europeu com três (ou cinco) defesas e que vive da vertigem e capacidade técnica do seu maior craque, aliada ao requinte de Ramsey ou Daniel James.

A Suíça também se apurou, tendo sido uma das melhores terceiras classificadas. Petković manteve as bases sólidas dos últimos anos, numa equipa com defesas que trabalham bem a saída de bola (destaque particular para Akanji), que possui dois médios sólidos (Xhaka-Freuler), alas fortes na projeção atacante (com Zuber a vir bem por dentro) e um Shaqiri que complementa com magia e remate dois avançados de características distintas (Seferović e Embolo).

Já a Turquia foi a grande decepção desta fase de grupos, numa demonstração de uma equipa caótica a defender e com um processo ofensivo muito dependente das individualidades e pouco harmonioso em termos coletivos.

No Grupo B, imperou a força de uma Bélgica que agora se prepara para um confronto de titãs com Portugal. Os comandados de Roberto Martínez venceram todos os jogos do grupo e sem exibições excecionais, mostraram consistência nos processos de jogo, recursos criativos do meio-campo para a frente (De Bruyne, Tielemans e manos Hazard, sobretudo) e um Lukaku devastador a atacar a profundidade e a ganhar duelos individuais. Os belgas só tremeram de verdade nos primeiros 45 minutos frente à segunda classificada do grupo, a Dinamarca.

Aos escandinavos, bastou uma vitória memorável frente à Rússia para arrebatar um lugar de acesso directo aos oitavos de final. A reação ao susto de Eriksen foi a melhor possível e Kasper Hjulmand provou ser um dos treinadores mais criativos e versáteis da prova, com a adaptação a um esquema de três defesas (5-2-3 no momento defensivo) face aos belgas, que deu resultado tático mas não prático. Maehle, Damsgaard ou Hojbjerg podem ser catalogados como três dos melhores jogadores da primeira fase da competição.

De fora, ficam a defensiva Finlândia (5-3-2 competitivo, com Hradecky, Kamara e Lod como figuras) e uma Rússia que desiludiu em termos defensivos (erros colectivos e individuais consideráveis).

Os três primeiros do Grupo C também seguem em frente, ainda que os Países Baixos se tenham mostrado claramente dominadores. Comandados por um Frenkie de Jong soberbo, os holandeses mostraram argumentos a nível atacante, em variantes táticas distintas, mas sabendo utilizar as características também diferentes dos avançados (o mais possante Weghorst, por contraponto com os móveis e rápidos Depay e Malen). No momento defensivo, ainda permitem que os adversários possam fazer mossa em transição e esse é um pormenor a ter em conta para a fase a eliminar.

A segunda classificada Áustria cresceu taticamente no último encontro, com a introdução do versátil Grillitsch na equipa, que permitiu a passagem de Alana para a lateral esquerda (depois de dois jogos a jogar no centro da defesa a três de Franco Foda) e uma maior liberdade na pressão a Schlager e sobretudo Laimer. A experiência de grande parte deste plantel na Bundesliga é um factor competitivo adicional importante, num trajecto que apesar dos altos e baixos já valeu um apuramento inédito para os oitavos de final, ao terceiro Europeu.

A Ucrânia de Andriy Shevchenko ficou em terceiro lugar depois da derrota frente aos austríacos, mas os primeiros 135 minutos disputados nesta prova deixaram um bom sabor de boca, sobretudo nos momentos com bola (com Malinovskyi como o diretor da orquestra). Falta afinar a estratégia a defender, pois a equipa perde equilíbrio e sofre quando não está em posse.

A estreante Macedónia do Norte fechou a participação no Euro 2020 sem pontos mas com alguns momentos pontuais de bom futebol (quem tem Bardhi ou Elmas a criar jogo ao meio, pode sempre aspirar a tratar a bola por tu).

O Grupo D teve igualmente três equipas apuradas. A anfitriã Inglaterra fez de Wembley fortaleza, não sofrendo golos, mas deixando muito a desejar no que concerne à produção ofensiva. Duas vitórias por 1-0 e um mistério quanto às opções táticas de Southgate (Foden perde brilho encostado à direita, Kane pareceu em sob-rendimento no arranque e Sancho e Rashford parecem não ter relevância para o selecionador). Do lado positivo, apresentam-se a solidez defensiva e o crescimento tático de unidades como Reece James, Kalvin Phillips ou Jack Grealish.

A Croácia e a República Checa ficaram também apuradas neste grupo, com os balcânicos a agarrarem-se às botas cirúrgicas do “comandante” Luka Modrić, para contrariar a falta de criatividade e acerto demonstrada na estreia frente aos ingleses. Gvardiol foi a revelação croata da fase de grupos. Já os checos mostraram consistência defensiva, numa estratégia de marcações por vezes mais individualizadas e privilegiaram os corredores laterais para atacar. Schick, Souček e Vaclík foram nomes em destaque neste apuramento.

Quanto à Escócia, terminou em último lugar e entre os traços de um jogo mais arcaico (exploração de bola direta para Dykes e vertigem nas laterais), mostrou também que há jogadores desta nova geração que possuem potencial técnico para brilhar em próximas grandes competições (Robertson, Tierney, Gilmour ou até McGregor).

Finalmente, olhamos para o Grupo E, em que a organizada Suécia levou avante, face a uma Espanha intermitente. Os nórdicos mostraram a solidez tática do 4-4-2, com capacidade para colocar várias unidades atrás da linha da bola e aguentar o ímpeto ofensivo adversário (duelo com os espanhóis) e versatilidade ofensiva para lançar uma seta criativa, forte nos apoios e a ganhar espaço para o remate (Alexander Isak), complementada por elementos como Forsberg ou Olsson.

A Roja começou com dois empates e muita frustração com a escassa produção ofensiva, mas tirou a barriga de misérias com a goleada frente à Eslováquia (5-0), num jogo em que Luis Enrique finalmente decidiu lançar jogadores para as posições de origem, abdicando de adaptações que nem sempre deram o melhor resultado.

Os eslovacos foram afastados, mas nos dois primeiros duelos, o selecionador Tarković exibiu o cardápio de versatilidade tática, com o duo criativo Hamsik-Duda em plano de evidência.

Já a Polónia de Paulo Sousa mostrou fragilidades táticas, entre a incapacidade para pegar no jogo e fazê-lo fruir no ataque posicional e os desequilíbrios defensivos quando assume uma estratégia mais ousada (frente à Espanha, com um bloco bem mais baixo, sofreu menos).

PROGNÓSTICOS CURTOS PARA OS OITAVOS DE FINAL

Bélgica x Portugal: O 3-4-2-1 de Martínez, com uns inspirados De Bruyne e Lukaku, promete causar problemas a uma equipa portuguesa que se tem mostrado mais permeável em termos defensivos que noutras provas (atenção ao controlo da profundidade). Pressionar a saída de bola belga e aguentar o impacto físico de Lukaku podem ser chaves para o sucesso.

País de Gales x Dinamarca: Veremos se Hjulmand volta a fazer adequações táticas para controlar Bale e companhia. A Dinamarca tem traços de futebol positivo e dominante mas já provou que se sabe adaptar também às características dos adversários.

Itália x Áustria: O favoritismo pertence ao 4-3-3 de Mancini, uma das equipas mais brilhantes e consistentes da primeira fase. Se os austríacos igualarem os índices de pressão da primeira parte frente à Ucrânia, podem gerar dificuldades à formação transalpina.

Países Baixos x República Checa: Uma partida que pode ficar marcada pelas referências individuais dos checos para tirar margem de manobra a Depay, Frenkie, Wijnaldum e parte da companhia. Dumfries vai tentar continuar a fazer mossa e no outro lado vai estar um Schick pronto a faturar. Favoritismo holandês.

Croácia x Espanha: Modrić contra a armada espanhola. O médio do Real Madrid não terá colegas pela frente mas vai ser o responsável pela batuta de uma equipa que vive taticamente da sua inspiração. Espera-se uma Espanha “mandona“ mas que sabe que tem de ser mais efetiva no ataque.

França x Suíça: Os gauleses não foram bafejados pela sorte, apesar de terem terminado o grupo em primeiro e foram parar ao chamado “lado mau” do sorteio. Para já, têm a responsabilidade de eliminar uma Suíça perigosa mas com alguns defeitos na ação defensiva.

Suécia x Ucrânia: Duelo equilibrado em perspectiva. Uma Suécia que se sente cómoda a defender compacta e a executar saídas rápidas e verticais para o ataque ante uma Ucrânia com pergaminhos em ataque continuado mas vários desajustes a defender.

Inglaterra x Alemanha: Um clássico da velha Europa, entre duas equipas que deixaram sensações distintas até aqui. A Alemanha tem um modelo forte a atacar (embora possa melhorar na finalização) mas com pés de barro na recuperação defensiva e a Inglaterra exibiu consistência na zona recuada e sabe ter posse, mas falta-lhe mais alternativa e contundência no último terço.

Artigo de opinião de Francisco Pinho Sousa,
narrador e comentador Eleven


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