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«Eusébio – A História de uma Lenda» é o filme que conta, na primeira pessoa, a história daquele que foi um dos melhores jogadores de futebol de sempre, Eusébio da Silva Ferreira.
Desde os seus primeiros toques na bola, no bairro da Mafalala, em Moçambique, passando pelos seus maiores dias de glória, o documentário realizado por Filipe Ascensão é enriquecido por testemunhos de amigos e colegas de profissão, que fazem algumas revelações e relembram momentos vividos com o ‘Pantera Negra’.
Uma das confidências é feita por Hilário, ex-jogador do Sporting e amigo de Eusébio desde os tempos em que viviam em Moçambique. Hilário desvenda que, antes de ser mundialmente conhecido como ‘Pantera Negra’, no bairro da Mafalala Eusébio era o ‘magagaga’, que significa trepador.
Já aí Eusébio se destacava pela sua destreza e velocidade, e sonhava seguir as pisadas do seu ídolo de sempre, Alfredo Di Stéfano. O antigo jogador do Real Madrid chegaria mesmo a considerar o ‘King’ “o melhor jogador de todos os tempos”.
Nessa altura, Eusébio começava a agitar o futebol português, tendo-se Benfica e Sporting envolvido numa disputa pela contratação do jovem moçambicano. Eusébio conta como o clube das ‘águias’ lutou por ele e ofereceu mais dinheiro à sua mãe.
O “menino de ouro”, como foi apelidado por Béla Guttmann, voava, então, para Lisboa. Mas a adaptação não foi fácil. O frio português e as saudades de casa faziam Eusébio querer voltar para África; só que o sonho de ser jogador sobrepôs-se às dificuldades por que passou ao início.
O apoio do colega e amigo Mário Coluna foi essencial nessa caminhada. Logo no seu jogo de estreia pelo Benfica fez um hat-trick e fazia antever as (muitas) alegrias que iria dar aos adeptos.
Uma delas, bem realçada no filme, foi a Taça dos Campeões Europeus conquistada em 1962, frente ao Real Madrid, numa final épica em que Eusébio marcaria dois golos, na vitória dos ‘encarnados’ por 5-3. O Benfica tornava-se bicampeão europeu, mas, para o ‘Rei’, o troféu pouco importava: o prémio mais importante era ter conseguido a camisola do seu ídolo, Di Stéfano, que guardou para sempre.
Eusébio demarcou-se por esse instinto goleador. António Simões, antigo colega e amigo do ‘King’, assegurou que “quando precisávamos dele para ganhar, ele estava lá”. Na apresentação do filme «Eusébio – A História de uma Lenda», que decorreu na passada terça-feira, na Cidade do Futebol, em Oeiras, Simões foi mais longe e enalteceu a simplicidade com que Eusébio vivia, apesar do sucesso: “destaco-o pela lealdade. Como se pode ser tão grande na vida e ser-se tão leal? É muito difícil”.

Fonte: SL Benfica
O ‘irmão branco’ de Eusébio, como ele carinhosamente lhe chamava, fez questão de sublinhar que “o Eusébio foi a grande figura (e até o herói) do século XX”. “O Eusébio, para além da admiração das pessoas, conseguiu a simpatia delas. Quando ele faleceu, as pessoas vieram para a rua. Isso vai muito para além do respeito que Portugal teve por este homem. É muito difícil encontrar outra personalidade que tenha esse impacto”, disse.
Porém, essa humildade não era sinónimo de falsa modéstia. O eterno camisola 10 tinha plena noção do seu valor e não se coibia de o reconhecer. Em conversa com o Bola na Rede, Simões lembrou, tal como o faz no filme, um momento que o marcou especialmente. “Uma vez, antes de um jogo, ele disse-me: «amanhã marco três golos». Ganhámos por 4-0 e o Eusébio marcou quatro golos. Eu avisei-o: «não me voltas a enganar»”, contou o antigo jogador.
Mas não foi apenas António Simões quem recordou episódios curiosos sobre o ‘Pantera Negra’. Rui Costa, que também participa no documentário, esteve igualmente presente na Cidade do Futebol, e retrocedeu aos tempos em que Eusébio era seu treinador, nas camadas jovens do Benfica. “Ele dizia-nos sempre: não chutes por chutar, chuta para fazer golo”, revelou. “Custava-lhe muito que chegássemos ao pé da área e andássemos à procura de um passe, de alguém melhor posicionado para fazer golo.” Mas não foi esse o único traço que o ‘Maestro’ frisou.
Rui Costa quis ainda mencionar que os jogadores treinados por Eusébio não podiam dizer uma asneira. “Uma vez, quando eu andava nas escolinhas, disse um palavrão, durante um treino. Ele perguntou quem o tinha feito, até que eu levantei a mão e ele me disse para ir para o balneário. Na cabine do estádio, estavam as senhoras da lavandaria e eu comecei a coxear e a dizer que me tinha aleijado, para não revelar a verdadeira razão de ter deixado o treino”, confessou, entre risos, e finalizou, saudoso: “Ele não era só um treinador de futebol, tentava ajudar-nos em tudo”.
Já Sandra Ferreira, a filha mais nova de Eusébio, não deixou escapar a oportunidade de referir o momento em que Eusébio ofereceu um passeio de carro a um rapaz: “O pai de um colega da minha filha contou-me que, quando era miúdo, ia frequentemente à Avenida Infante Santo e encontrava lá muitas vezes o meu pai, com o seu Saab Sonett amarelo. Ficava todas as tardes em frente ao carro, a olhar para ele. E, uma vez, o meu pai apareceu e perguntou-lhe se ele queria dar uma volta. Ele disse que sim, e o meu pai convidou-o a entrar. E subiram e desceram a Infante Santo. Passados 40 anos, o senhor contou-me isto e eu achei fascinante”, relatou Sandra, visivelmente orgulhosa.
Com orgulho também António Simões recordou o amigo, dizendo que “foi um privilégio ter sido seu companheiro, ter tido a confiança dele”. Emocionado, o campeão europeu admitiu ter “imensas saudades” de Eusébio: “há momentos em que é difícil não o ter cá. Quando ele faleceu, perdi um bocadinho de mim. É que foram muitos anos, muitos jogos, muitas coisas… Tenho saudades de ver um jogo com ele, de ir almoçar com ele, de estarmos sentados e não dizermos nada um ao outro. Há uma ausência, um vazio, que eu já não posso preencher”.

Fonte: Jornal i (Manuel Vicente)
Esses almoços entre amigos tinham lugar no restaurante Tia Matilde, em Lisboa. Também Filipe Ascensão lá passou vários momentos com Eusébio. Enquanto preparavam o filme, iam “todos os dias almoçar ao Tia Matilde”. “O restaurante fechava”, avançou, “e nós ficávamos lá até às 16h, 17h… a contar histórias, a falar um pouco de tudo”. Com ternura e entre risos, lembrou ainda as picardias entre o ídolo do futebol português e os amigos Sportinguistas: “quando ele começava com as suas brincadeiras à volta do futebol, sobre a vitória ou a derrota no Benfica-Sporting do dia anterior… Era o caos! Era mesmo muito engraçado, era saudável, não havia maldade nenhuma nas brincadeiras dele com os amigos do Sporting”.
Mas como surgiu a ideia de fazer um filme sobre Eusébio? Filipe Ascensão explicou: “eu vivia em Paris, onde nasci e cresci. Descobri o cinema há 14 anos e queria fazer um documentário”. A sua paixão pelo futebol, aliada ao cinema, fê-lo escolher Eusébio, pelo que representava e representa para Portugal. “Além disso, também queria descobrir mais sobre as minhas origens”, prosseguiu. “Falei com ele ao telefone, ele perguntou-me se eu já tinha estado em Lisboa e eu disse que não. Ele pediu-me para vir a Portugal. Eu cheguei, almoçámos e passámos a tarde toda juntos, enquanto ele me contou imensas histórias. Percebi logo que era uma boa ideia, queria mostrar às pessoas o verdadeiro Eusébio”. No entanto, não foi um processo rápido. “Não fiz logo o filme, porque era muito jovem e não tinha experiência. Passados vários anos, fui ter com ele e disse-lhe que tinha mesmo de conhecer Portugal e que era uma boa ocasião para concretizarmos o projeto. E aqui está ele hoje”, esclareceu o realizador, com um largo sorriso no rosto.
Fazendo uma retrospetiva à “luta” que a produção desta película exigiu, Filipe confidenciou ao Bola na Rede que foi ele quem produziu e fez o guião e “até o cartaz do filme”. Cinco anos foi o tempo necessário para concluir todo o processo, e o realizador ainda não acredita que finalmente chegou até aqui: “Vejo os cartazes por todo o lado e as pessoas a fazerem perguntas, mas ainda não caí na realidade”. Depois de tanto trabalho, sente-se recompensado, pois considera que “foi uma sorte muito grande” Eusébio ter partilhado esses momentos consigo e ter depositado essa confiança em si.

Fonte: Cinecartaz
Questionado sobre o que espera quando o filme for para as salas de cinema, a 23 de março, Filipe Ascensão foi perentório: O seu maior desejo é que o público goste. “Dei o meu melhor para poder ser partilhado com todos, porque sei que ele não é só o Benfica. Mas apelo especialmente aos Benfiquistas. As pessoas não nos podem levar a mal por nós dizermos que ele é ‘nosso’”, finalizou.
António Simões quis preparar as pessoas para a emoção que o documentário sobre o ‘Pantera Negra’ irá provocar aos mais sensíveis (e não só): “Por mais fortes que sejamos, é difícil resistir à lágrima, porque o filme é mágico. A única nota triste é ele não estar cá para ver”.
Três anos após a morte do ‘Rei’, «Eusébio – A História de uma Lenda» conta ainda com participações de Flora da Silva Ferreira, Sir Bobby Charlton, Luís Figo e Cristiano Ronaldo, e promete não deixar ninguém indiferente.











