Mexer corretamente e cedo no mercado para iniciar um novo projeto: O primeiro passo bem dado pelo Cádiz

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Uma janela de transferências perfeita é caraterizada por três fatores, que podem coincidir ou não: contratação dos primeiros nomes das equipas sombras, venda de ativos que eram considerados como transferíveis e movimentações realizadas o mais cedo possível, para que as equipas técnicas tenham tempo de trabalhar o elenco remodelado e de modo a que as novas peças se instalem sem qualquer tipo de pressas. É raro vermos isto a acontecer. Os últimos dias do mercado são frenéticos, com centenas de rumores. Os clubes esperam até às últimas horas do dia 31 de agosto (caso a janela encerre nesse dia) para fechar aquisições importantes. Muitas vezes, as mesmas são canceladas devido à não aprovação da inscrição do atleta, uma vez que foi feita fora de horas. Poucos escapam a este ‘vício’ de atuar no limite, algo provocado pelos próprios dirigentes, que querem libertar os excedentários de qualquer maneira.

O Sporting foi elogiado nas últimas semanas por ter cumprido o ponto de ter atuado cedo no mercado. A estrutura entendeu que o meio campo seria alvo de uma reformulação, com as saídas certas de Hidemasa Morita e de Morten Hjulmand. Os leões não perderam tempo e contrataram antes da pré-temporada quatro jogadores para as duas posições do duplo pivot: Silas Andersen, Sergi Altimira, Pedro Lima e Issa Doumbia. A fechar a lista de entradas, Rodrigo Zalazar trocou o Minho por Alvalade, batendo o recorde de compra mais cara dos verdee brancos: 30 milhões de euros fresquinhos a entrar nos cofres do Braga.

Isto não significa que o Sporting fechou a sua janela. O clube continua em busca de ativos para outras posições e seguramente verá atletas importantes a viajarem para outros destinos. Porém, adiantou trabalho e isso mereceu o aplauso. Idealmente, os plantéis da Primeira Liga teriam de estar fechados antes do começo de agosto, com a primeira jornada marcada para o fim de semana de 8 e 9 de agosto. Em Espanha, a situação é ligeiramente diferente. Os playoffs de acesso à La Liga e à La Liga Hypermotion terminaram mais tarde e vários emblemas continuam a anunciar saídas por final de contrato à data de hoje. É outro ritmo, que aproveita o facto de os campeonatos profissionais arrancarem apenas a 15 de agosto.

Contudo, um emblema não perdeu tempo e montou pelo menos as bases que parecem ser de um candidato à subida (pelo menos de acesso ao playoff. O Cádiz viveu uma temporada 2025/26 bem abaixo do esperado, envolvendo-se na luta pela manutenção, quando o objetivo passava pelo sonho de um regresso à La Liga. Gaizka Garitano não conseguiu dar um rumo certo ao projeto e Sergio González apresentou-se no Nuevo Mirandilla completamente irreconhecível, com uma vitória em oito encontros. Imanol Idiakez (que já falou em exclusivo com o Bola na Rede) assumiu o leme e cumpriu o objetivo que lhe foi pedido, confirmando a sua própria manutenção no futebol espanhol.

Os adeptos do Cádiz acabaram a época cansados do plantel, recheando-o de críticas. Com razão, uma vez que a equipa aparentava ter capacidade para muito mais. Um clube com Iza Carcelén, Sergio Ortuño, Javi Ontiveros, Suso, Lucas Pérez (não desde o começo), Roger Martí ou Brian Ocampo tinha obrigação de apresentar bons resultados, algo que não logrou.

A formação espanhola vivia um momento de crise. Manuel Vizcaíno entendeu que estava a fazer mais mal que bem à instituição e deixou a presidência. Christian Septien, empresário mexicano que era um dos investidores do clube, transformou-se no seu máximo líder. Ainda que com um ar excêntrico, que podia gerar alguma desconfiança, o novo dirigente percebeu que o projeto desportivo estava gasto e que era necessário começar de novo, realizando algumas mudanças na direção desportiva: Juanma Cruz passou a ser o líder do scout, Jesús Velázquez o diretor da área de formação, enquanto que Mario Fuentes e Javi Muiños dirigirão o futebol profissional.

Christian Septien também entendeu algo básico no que diz respeito a uma mudança de rumo: a contratação de novos elementos que possam ser os novos líderes dentro de campo, o esqueleto dentro de campo e as vozes que têm de transmitir com maior foco as ideias de Imanol Idiakez.

A estrutura entendeu que estes atletas teriam de saber o que é vencer, contar com estatuto, para obter o respeito dos demais. O trabalho realizado, pelo menos na teoria, foi perfeito. Na La Liga 2, para se obter o sucesso, é obrigatório ter um guarda-redes que dê pontos e um ponta de lança que saiba o que é ser goleador na divisão. Para a baliza chegou Jokin Ezkieta, titular no Racing Santander, que venceu a última edição do escalão, logrando a promoção, aterrou no Nuevo Mirandilla por empréstimo. Para a frente de ataque, Urko Izeta foi o eleito. O basco era pretendido por quase todos os clubes da La Liga 2, mas optou por rumar ao sul, depois do Cádiz investir um milhão e meio de euros para o comprar ao Athletic. O seu histórico? 44 jogos e 15 golos no Mirandés de 2024/25, que quase alcançou um milagre no Anduva. A dois ex-Athletic, juntou-se um terceiro, que surpreendeu o mercado. Ibon Sánchez, promessa dos leones, firmou um vínculo com a equipa. O médio ofensivo de 22 anos estava a ser apontado como aposta de Edin Terzic, mas coincidirá com Imanol Idiakez, que terá como função provar que o espanhol estava pronto para a La Liga.

No centro da defesa, a direção desportiva não facilitou e contratou um patrão. Javi Castro, outro elemento que subiu com o Racing Santander, deu preferência ao projeto que está a ser montado nos amarillos e assinou a título definitivo. Para fechar, Christian Septien prolongou o empréstimo de Antonio Cordero, outrora estrela do Málaga. Com contrato com o Newcastle United, foi cedido ao Cádiz em 2025/26, onde não obteve um rendimento excecional (21 jogos, três golos). Porém, aos 19 anos existe a confiança de que o jogador vai dar o salto que se esperava e tornar-se num dos melhores extremos da prova. Beñat de Jesús é um nome menos sonante, mas foi possivelmente o melhor lateral direito da Primera RFEF, com a camisola do Barakaldo. Mais um com a formação feita em Lezama. José Campaña, internacional espanhol que passou sem qualquer tipo de sucesso pelo FC Porto está a treinar à experiência, mas pode acabar por ser uma boa aportação, com provas dadas pelo Levante e bons meses de trabalho no Ceuta.

Tal como no caso do Sporting, as ações do Cádiz no mercado ainda não acabaram, mas o trabalho básico está completo. Os andaluzes conseguiram contratar referências para liderarem um projeto e os adeptos quase que já se esqueceram do que ocorreu em 2025/26, onde não foram um exemplo a seguir. Contudo, desde o começo de mercado que se transformaram numa referência, enquanto que outros emblemas quase ainda não se mexeram. O primeiro passo foi bem dado, mas todo este processo é uma caminhada longa e atabalhoada. A manutenção do foco é obrigatória, numa La Liga 2 que está a ser pautada como ‘fraca’, uma vez que vários históricos acabaram por deixar de a integrar. Contudo, há sempre espaço para surpresas, além de dois favoritos claros (Mallorca e Girona). Um projeto a acompanhar.

Ricardo João Lopes
Ricardo João Lopeshttp://www.bolanarede.pt
O Ricardo João Lopes realizou a sua formação na área da História, mas é um apaixonado pelo desporto (especialmente pelo futebol) desde criança, procurando estar sempre a par da atualidade.

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