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Mundial de Snooker 21 | Capítulo 3: Os Quartos

Márcio Francisco Paiva · 10 min

Mundial de Snooker 21 | Capítulo 3: Os Quartos
Foto de Capa: World Snooker Tour

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A CRÓNICA: KYREN “D’ARTAGNAN” E OS TRÊS MOSQUETEIROS

Os quartos-de-final do Mundial de Snooker 2021 já lá vão e as meias já cá estão. A terceira ronda da prova máxima revelou-se pródiga para os jogadores ingleses, nacionalidade de todos os que compõem o lote de semifinalistas. Anthony McGill, responsável pela queda do campeão em defesa, Ronnie O´Sullivan, não seguiu para as meias-finais e garantiu que não teremos neste Mundial qualquer estreante em finais do Crucible.

Contudo, podemos ter campeão inédito: Kyren Wilson, finalista de 2020, bateu Neil Robertson e inscreveu o seu nome nas meias-finais, ao lado de três ex-campeões do Mundo. O jovem inglês é o menos consagrado do lote, no que respeita a Campeonatos do Mundo, mas promete ir à luta e, quiçá, revelar-se o melhor dos Mosqueteiros.

De resto, e a par do duelo até à “negra” entre McGill e Bingham, a vitória de Wilson perante Robertson é mesmo o destaque dos quartos-de-final. Com esta vitória, Wilson iguala mesmo o registo do australiano – duas meias-finais e uma final de Mundiais; Robertson, no entanto, bateu Graeme Dott na final em que participou (2010).

O australiano, por sua vez, cai pelo terceiro ano consecutivo nos quartos-de-final e acaba por não dar respaldo ao favoritismo que as casas de apostas e o Bola na Rede (mea culpa) lhe atribuíam. No entanto, nenhuma das duas primeiras sessões fez antever o desnível da terceira e última. Neil começou na frente, com uma entrada de 100 pontos para um total de 125. Concedeu o 1-1, mas não se apoquentou: fez entradas de 56 e 105 para o 3-1. Viria a vencer a sessão por 5-3.

A segunda sessão pendeu para o lado inglês da contenda pelo mesmo resultado, mas nada que fizesse prever a sessão que se jogaria na manhã seguinte. De resto, apesar de Kyren vencer a segunda sessão, nela tivemos três entradas acima de 50 pontos do australiano (incluindo uma de 126). 8-8 ao cabo de duas sessões.

10h da manhã de 28 de abril. Terceira sessão. Kyren Wilson comparece, Neil Robertson… nem sinal dele. Pelo menos, do verdadeiro. Caso não houvesse público no Teatro dos Sonhos, o Crucible pareceria um edifício assombrado pelo espetro com o melhor penteado do mundo fantasmagórico.

Tudo começou a correr mal para Robertson quando o australiano, chamado a dar a tacada de abertura da sessão, decidiu abrir à Mark Williams (jogar a bola branca à tabela para que ela vá depois aninhar-se junto ao triângulo das 15 vermelhas, o que permite manter imaculada a bola preta, que por vezes fica “tapada” por vermelhas na abertura tradicional). Daí em diante, o homem do ponto mais a sul perdeu o norte.

Kyren aproveitou para fazer uma entrada de 133 (imagine-se, a sua única centenária do encontro) e partir para breaks de 59, 62 e 84 – além das entradas que lhe deram um total de 54 pontos no penúltimo frame –, arrebatando o embate para o seu lado, ante um Neil que, nesta última sessão, fez um total de… 42 pontos (zero, 23, zero, 19, zero).

Cai, assim, o favorito BnR, mas já temos nova previsão: vai ganhar um inglês! As meias-finais estão já aí, mas atentemos no que se passou nos quartos (de final, não tivemos acesso aos de hotel – talvez se fôssemos um correio matutino…).

Foto de Capa: World Snooker Tour

RESULTADOS DOS OITAVOS

Primeira metade do quadro

Anthony McGill (12-13) Stuart Bingham: por uma unha negra se ganha, por uma unha negra se perde

16º e 17º classificados do ranking mundial encontraram-se nos quartos e decidiram dar um excelente jogo aos fãs da modalidade. Equilíbrio, emoção e bom Snooker foram os ingredientes da receita de um jogo que teve um sabor amargo para McGill e um sabor bastante doce para Bingham.

O campeão de 2015 está nas meias-finais pela segunda vez na carreira – a outra vez foi em… 2015. Por seu turno, Anthony McGill voltou a cair numa “negra”, depois de ter perdido 17-16 aos pés de Kyren Wilson no Mundial de 2020. O escocês, que havia batido O’Sullivan na ronda anterior também por 13-12, sofreu agora destino igual, às mãos do compatriota de Ronnie.

McGill reviveu nesta ronda a sua primeira presença em Mundiais. Em 2015, o “Glaswegian Gladiator” também eliminou o campeão em título, então Mark Selby, nos oitavos. E também defrontou um inglês logo a seguir, nos quartos-de-final, tendo sido igualmente eliminado (na altura, o carrasco foi Shaun Murphy, campeão de 2005). Murphy viria a chegar à final nesse Campeonato do Mundo, mas perderia por 18-15 frente a… Stuart Bingham. Coincidência? Sim, claro, mas não deixa de ser curioso.

Retornemos ao jogo. Este foi pautado pelo equilíbrio, tendo McGill pontuado em 22 dos 25 frames disputado e Bingham em 19 deles, o que demonstra a igualdade de forças em cada singelo jogo deste encontro. Nenhum dos dois quebrou exibicional ou animicamente e estiveram colados em cada frame e em cada sessão, sempre apresentando qualidade altíssima de jogo. McGill fez oito breaks de 50 pontos para cima (incluindo três centenárias) e Bingham somou onze (quatro delas ultrapassaram os 100 pontos). Ou seja, 19 dos 25 jogos tiveram entradas de 50+ pontos.

Num jogo que esteve empatado a dois, a três, a quatro, a seis, a sete, a dez e a doze, a resiliência de Bingham fez a diferença, tendo o inglês recuperado da maior dilatação do marcador, 10-7, e virado o resultado para 12-10. No frame decisivo, brilhantemente forçado por McGill, o escocês ainda somou onze pontos, mas uma vermelha falhada permitiu a “Ball-run” Bingham fazer uma entrada de 125 pontos e marcar encontro com Selby.

Mark Williams (3-13) Mark Selby: parece que Selby não é pago à hora

Era o único embate entre multicampeões do Mundo. Mark vs Mark. Selby vs Williams. Tricampeão mundial vs tricampeão mundial. Acabou por ser… um treino para o inglês, que está a jogar uma barbaridade. Sempre fiel ao seu jogo calculista, em que favorece a precisão e a segurança defensivas à espetacularidade ofensiva, Mark “The Shark” não deu qualquer margem de manobra ao galês, último resistente da classe de `92 neste Mundial.

Não que Mark Williams não tenha tido oportunidades para ir à mesa e até pontuar; aliás, o “Welsh Potting Machine” só ficou em branco em cinco dos 16 frames disputados. Contudo, só por três vezes conseguiu pontuar mais do que o adversário. De resto, as três entradas superiores a 50 pontos feitas por Williams neste encontro foram nos três jogos que amealhou – 60 (num total de 80 pontos), 111 e 79 (de novo num total de 80 pontos).

As duas primeiras valeram-lhe os frames quatro e oito, permitindo ao galês levar uma desvantagem de 6-2 para a segunda sessão, que, perante a solidez de Selby na primeira sessão, chegou a parecer uma miragem. Ainda assim, a vantagem do “Jester from Leicester” era grande e foi consumada na segunda… e última sessão. Mark Selby já não precisou de regressar para uma terceira para arrumar com o jogo.

Venceu os quatro frames da primeira parte da sessão dois e levou para o intervalo da mesma um resultado de 10-2. Nesta altura, já se perspetivava a possibilidade de não haver terceira sessão. Mark Williams estava obrigado a vencer, pelo menos, dois dos quatro frames da segunda parte para forçar a sessão da noite. Venceu o primeiro jogo após o intervalo, mas cedeu os restantes três, fazendo apenas 33 pontos (16, zero, 17).

Um consistente Selby tratou de resolver o encontro sem virtuosismo. O Tubarão de Leicester chega, desta forma, às meias-finais cedendo apenas 11 frames – Bingham concedeu 27, Wilson perdeu 26 e Murphy foi derrotado em 25. Na ronda de acesso à final, Selby, campeão do Mundo em 2014, 2016 e 2017, defronta o homem que venceu o campeonato mundial de 2015, do qual Selby foi eliminado por McGill (que agora o foi por Bingham).

Segunda metade do quadro

Neil Robertson (8-13) Kyren Wilson: um Guerreiro a lutar sozinho

“Uma é minha, outra é tua, outra é de quem a apanhar”. Assim foram as três sessões deste encontro; a primeira foi de Robertson (5-3), a segunda de Wilson (5-3, fazendo o empate a oito frames) e a terceira foi de quem a apanhou. Foi apanhada por Kyren que nunca mais dela se despojou.

O inglês venceu cinco frames de uma “assentada” e encravou a “Máquina de Melbourne”, roubando o “thunder” ao “Thunder from Down Under” Neil Robertson. “The Warrior” Kyren Wilson segue, então, para a sua segunda meia-final consecutiva e terceira da carreira no Crucible Theatre. Em agosto passado, bateu Anthony McGill na “negra” (17-16) e esteve na final pela primeira vez – foi derrotado por O´Sullivan.

Shaun Murphy (13-11) Judd Trump: o Mágico sacou um Ás da manga

A partida entre os campeões do Mundo de 2005 e de 2019 viu “The Magician” Shaun Murphy levar a melhor sobre o “Ace” Judd Trump. Com isto, caíram antes das meias-finais o campeão em título, Ronnie O´Sullivan, o número um do Mundo, Judd Trump, e o favorito das casas de apostas, Neil Robertson.

Num duelo em que ambos os jogadores buscavam a quinta presença nas meias do Campeonato do Mundo, Murphy foi mais forte nos momentos decisivos, ainda que, à semelhança de Robertson, tenha quebrado de rendimento na terceira sessão. Ainda assim, e pese embora o equilíbrio que o marcador também espelha, Murphy foi sempre mais consistente.

O campeão de 2005 só não pontuou em um dos 24 frames jogados – foi no 22º, quando Trump fez o empate a onze com uma entrada de 111 pontos (num total de 127). Murphy fez doze entradas acima de 50 pontos (em onze frames diferentes), incluindo breaks de 104 e 124 pontos. As sete entradas de mais de 50 pontos do “Ace in the Pack”, nas quais se incluem breaks de 105 e 111 pontos, revelaram-se insuficientes para travar a qualidade e a solidez do jogo de Shaun.

Todavia, Trump conseguiu manter o encontro equilibrado em vários momentos. A primeira sessão terminou com igualdade a quatro e ao intervalo da segunda registava-se um 6-6. No regresso à mesa, Murphy aplicou quatro entradas de 50+ pontos para granjear os quatro frames da segunda parte e levar um confortável 10-6 para a sessão de encerramento.

Aí, Trump amealhou três dos quatro jogos da primeira parte, reduzindo para 11-9; no segundo tempo, alcançou o empate a onze e teve o 12-11 na ponta do taco. Fez, no entanto, apenas 13 pontos, que Murphy superou com 70 numa entrada só. O 24º frame, que se revelou derradeiro, foi pleno de drama.

O “Magician” colocou Trump bem cedo em posição de Snooker; na escapatória que encontrou, o “Ace” acabou por deixar à mercê de Murphy a bola vermelha que atingiu, podendo Shaun começar a construção de um break que se adivinhava o último. No entanto, uma abertura de bolas vermelhas infrutífera levou Murphy a falhar uma bola difícil e cair para o adversário.

No entanto, não caiu da forma tradicional. Trump tinha, de facto, uma bola vermelha para o canto inferior direito e, de facto, embolsou-a… no buraco do meio esquerdo. Judd viria, todavia, a falhar uma outra vermelha e parar nos 15 pontos. Shaun viria à mesa confirmar o encontro com Kyren Wilson com uma entrada de 62 pontos, fechando o lote de semifinalistas ingleses.

O QUE RESERVAM AS MEIAS FINAIS?

O que reservam as meias…

Primeira metade do quadro

Stuart Bingham (17) vs Mark Selby (4)

 

Segunda metade do quadro

Kyren Wilson (6) vs Shaun Murphy (7)

Nota: números de cabeças-de-série não refletem ranking mundial

O CALENDÁRIO

16-avos-de-final (à melhor de 19; 10-0 a 10-9): 17 a 22 de abril

Oitavos-de-final (à melhor de 25; 13-0 a 13-12): 22 a 26 de abril

Quartos-de-final (à melhor de 25): 27 e 28 de abril

Meias-finais (à melhor de 33; 17-0 a 17-16): 29 de abril a 1 de maio

Final (à melhor de 35; 18-0 a 18-17): 2 e 3 de maio

Márcio Francisco Paiva

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