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Quatro jogos, quatro vitórias e um lugar nos quartos de final da Liga das Nações já assegurado. Dificilmente Jorge Jesus poderia ter imaginado um arranque melhor enquanto selecionador nacional.
Mais importante do que os resultados, porém, é aquilo que começa a acontecer dentro de campo. Ainda estamos perante uma pequena amostra, e existem problemas por corrigir (sobretudo defensivamente), mas Portugal parece finalmente uma equipa disposta a explanar todo o potencial que tem.
Há mais velocidade, mais movimentos sem bola, mais jogadores a aparecerem entre linhas e menos posse estéril. Depois de uma seleção demasiadas vezes previsível sob o comando de Roberto Martínez, os primeiros sinais da nova era são refrescantes.
As duas deslocações à Escandinávia foram particularmente esclarecedoras. Ganhar na Noruega e na Dinamarca, perante adversários fisicamente poderosos e em ambientes difíceis, deu substância ao início perfeito. Em Oslo, Portugal soube sofrer para vencer por 2-1 diante da selecção que havia sido a equipa sensação do último Mundial, e que não marcou presença nas meias-finais da competição por escassos detalhes.
Poucos dias depois, em Copenhaga, produziu provavelmente a melhor exibição desta nova etapa e ganhou por 4-2. O próprio Jorge Jesus considerou esse o melhor dos seus primeiros três encontros e destacou a progressiva assimilação das novas dinâmicas.
Há uma diferença particularmente evidente: Portugal procura muito mais o espaço do que simplesmente a bola. A circulação continua a passar por Vitinha e Bruno Fernandes, mas existe agora maior mobilidade à sua frente. Os laterais dão largura e profundidade, os extremos procuram zonas interiores e o avançado deixa de estar isolado entre centrais, procurando muito o jogo associativo com os seus colegas.
É uma seleção mais agressiva na procura da baliza e que tenta recuperar rapidamente depois de perder a posse. Quando consegue instalar essa pressão, sufoca o adversário; quando a primeira linha é ultrapassada, porém, aparecem espaços demasiado grandes entre setores. É o preço de um futebol mais ambicioso, mas também o aspeto que Jesus terá de limar antes dos jogos a eliminar.
Poucos jogadores beneficiaram tanto da mudança como Gonçalo Ramos. Finalmente utilizado com continuidade, o avançado tem mostrado porque merece assumir um papel central nesta equipa. Não vive apenas dos golos. Pressiona, fixa centrais, oferece apoios, ataca a profundidade e abre espaços para quem aparece de trás. Contra a Dinamarca voltou a marcar e, frente à Noruega, no Dragão, decidiu o encontro a dez minutos do fim, num excelente movimento ofensivo da seleção portuguesa.
É precisamente aí que aparece outro dos grandes vencedores destes primeiros jogos. João Félix parece novamente confortável com a camisola de Portugal. Tem liberdade para procurar espaços interiores, aproximar-se do avançado e participar nas combinações curtas, em vez de ficar preso a uma posição rígida. Félix e Ramos terminaram esta primeira sequência de quatro encontros com três golos cada, uma produção que ajuda a explicar a transformação ofensiva da equipa.
Atrás deles, Vitinha e Bruno Fernandes continuam a ser o cérebro desta seleção, embora com funções diferentes. Vitinha dá critério, oferece linhas de passe e determina quando Portugal deve acelerar. Bruno Fernandes procura constantemente aquilo que pode desequilibrar o adversário, fazendo uso da sua superior qualidade de passe e visão de jogo.
A equipa parece menos dependente de uma única fonte de criatividade porque começa a criar relações entre vários jogadores. João Cancelo, igualmente em grande plano neste início, acrescenta uma dimensão ofensiva difícil de controlar quando encontra espaço para aparecer por dentro ou chegar ao último terço.
Nem tudo está resolvido. Portugal sofreu em determinados períodos na Noruega e voltou a permitir dois golos na Dinamarca. No Dragão, a Noruega também conseguiu adiantar-se antes de João Cancelo restabelecer rapidamente a igualdade e Gonçalo Ramos completar a reviravolta.
A pressão alta exige uma coordenação quase perfeita. Quando um jogador chega atrasado ou o adversário consegue encontrar o primeiro passe vertical, Portugal fica exposto.
Com laterais projetados e muitos homens à frente da linha da bola, os centrais são frequentemente obrigados a defender grandes espaços. É um risco consciente do modelo de Jorge Jesus; não precisa de desaparecer, precisa de ser melhor controlado. Contra seleções de maior qualidade, aquilo que agora resulta numa situação perigosa poderá resultar num golo.
Um episódio não pode ser ignorado no balanço desta paragem internacional. O capitão abandonou o estágio depois de não ter sido utilizado na Noruega e perante a perspetiva de voltar a não ser titular frente à Dinamarca. Cristiano Ronaldo anunciou que explicaria posteriormente as razões da decisão.
Jorge Jesus, depois da vitória frente à Noruega no Dragão, classificou a situação como um “mal-entendido” e afirmou que, se Cristiano quiser regressar, poderá fazê-lo. Algo que foi ratificado incompreensivelmente por Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol. Estas atitudes não podem passar incólumes, sob pena de “minar” o ambiente saudável de uma equipa que demonstrou um maior espírito de equipa nos jogos nos quais o capitão não esteve em campo.
É uma situação que merece explicações e que dificilmente pode ser banalizada, independentemente do estatuto daquele que é o maior jogador da história do futebol português. Mas seria igualmente injusto permitir que esse episódio engolisse tudo aquilo que Portugal fez dentro das quatro linhas.
A resposta da equipa foi jogar. E jogar bem. Porque talvez essa seja a principal conclusão destes quatro encontros. Jorge Jesus não chegou à Seleção para administrar nomes ou conservar aquilo que encontrou.
Quatro jogos não chegam para declarar como concluída uma possível revolução. Mas chegam para perceber que alguma coisa mudou. Portugal ganhou quatro vezes. Está nos quartos de final. E, talvez mais importante, deixou-nos ansiosos e com vontade de ver o próximo jogo.










