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Do submarino nuclear soviético ao poder no futebol escocês, Vladimir Romanov construiu um império que juntou banca, futebol e basquetebol. Conquistou taças, abalou hierarquias e cruzou-se com vários portugueses. Depois, o banco faliu, o Hearts caiu em insolvência e o magnata desapareceu da vida pública. O capítulo final tem contornos de ficção: Romanov afirmou ter gasto o que lhe restava da fortuna para recuperar a torre de comando do submarino onde servira.
Vladimir Romanov passou de marinheiro da Marinha soviética a um dos proprietários mais controversos do futebol britânico. Na Lituânia, construiu uma fortuna através do banco Ūkio Bankas e estendeu a sua influência ao FBK Kaunas e ao poderoso Žalgiris Kaunas, referência maior do basquetebol europeu. Em 2005, comprou o Hearts, de Edimburgo, prometendo desafiar o domínio de Celtic e Rangers. Durante algum tempo, esteve perto de o conseguir. Mas a ambição desportiva conviveu com decisões polémicas, mudanças constantes de treinadores e uma dependência financeira que acabaria por condenar o projeto. Pelo caminho, vários jogadores e treinadores portugueses passaram pela sua órbita. A queda do império deixou o Hearts à beira do desaparecimento e Romanov associado a um cenário tão improvável como o início da sua história: a torre de comando de um submarino nuclear.
Do K-19 ao império lituano
Entre 1966 e 1969, Romanov serviu a bordo do K-19, submarino nuclear soviético que ficara marcado por uma grave emergência em 1961. Uma falha no sistema de refrigeração do reator expôs tripulantes a níveis perigosos de radiação e ajudou a fixar a alcunha «Widowmaker», ou «fazedora de viúvas».
A fortuna, porém, não nasceu no mar. Depois do colapso da União Soviética, Romanov estabeleceu-se na Lituânia e construiu um império empresarial em torno do Ūkio Bankas. O dinheiro abriu-lhe as portas do desporto: adquiriu o FBK Kaunas, no futebol, e envolveu-se no Žalgiris Kaunas, uma das instituições mais emblemáticas do basquetebol lituano, com projeção europeia.
O projeto assentava numa rede de clubes, jogadores e mercados. O FBK Kaunas tornou-se uma peça central dessa estratégia, facilitando a circulação de atletas entre a Lituânia e outros destinos. A aquisição do Hearts, em 2005, levou o modelo até à Escócia. Romanov prometia investimento e uma alternativa ao poder estabelecido. Edimburgo encontrou um proprietário capaz de financiar a ambição, mas também alguém que concentrava nas próprias mãos uma influência crescente sobre as decisões desportivas.
Os portugueses na rede de Romanov
A ligação entre o FBK Kaunas e o Hearts abriu caminho a vários jogadores com passagem pelo futebol português. Edgaras Jankauskas foi um dos rostos dessa ponte. O avançado lituano representara Benfica e FC Porto, clube com o qual conquistou a Liga dos Campeões em 2004, antes de integrar a rede desportiva de Romanov e chegar cedido ao Hearts.
José Gonçalves e Bruno Aguiar também rumaram a Edimburgo, em janeiro de 2006, através do clube lituano. O defesa esquerdo ficou conhecido entre os adeptos pela alcunha «The Shepherd». Já o médio que tinha sido campeão no Benfica deixou uma marca mais prolongada: disputou 72 jogos, marcou 11 golos e destacou-se com um livre certeiro frente ao Celtic. Tiago Costa, formado no Benfica, realizou um jogo oficial pelo Hearts em 2006. Zezinando Correia integrou o plantel em 2009, mas não chegou a jogar oficialmente.
A influência portuguesa estendeu-se ao banco. José Couceiro assumiu o comando técnico do FBK Kaunas em 2008 e conduziu a equipa a uma das maiores surpresas europeias do clube: eliminou o Rangers nas pré-eliminatórias da Liga dos Campeões, depois de um empate sem golos em Glasgow e de uma vitória por 2-1 na Lituânia. Couceiro viria a orientar a seleção lituana. Jankauskas cruzar-se-ia novamente com o treinador no Lokomotiv Moscovo.
A rede criada por Romanov proporcionou oportunidades e resultados, mas revelou também o risco de concentrar demasiado poder num só proprietário. No Hearts, essa contradição tornou-se evidente quando a instabilidade nos bastidores começou a ameaçar o rendimento desportivo.
Taças, instabilidade
e a noite de Paulo Sérgio
Na temporada de 2005/06, o Hearts chegou a liderar a liga escocesa e ameaçou quebrar o domínio de Celtic e Rangers. A possibilidade de conquistar o campeonato mobilizou Edimburgo, mas a saída de George Burley, despedido quando a equipa lutava pelo primeiro lugar, expôs o lado mais turbulento da gestão de Romanov. A sucessão de treinadores tornou-se uma marca do seu mandato.
Ainda assim, houve troféus. O Hearts venceu a Taça da Escócia em 2006, frente ao Gretna, e repetiu o feito em 2012, com Paulo Sérgio no comando. O treinador português chegara em agosto de 2011 e conduziu a equipa a uma vitória histórica: 5-1 sobre o rival Hibernian, na primeira final da Taça da Escócia entre os dois clubes em 116 anos.
Foi uma noite inesquecível para os adeptos. O Hearts esmagou o rival da cidade e Paulo Sérgio ficou ligado a um dos triunfos mais marcantes da história recente do clube. O treinador deixou Edimburgo após a final, mas a conquista não resolveu os problemas financeiros nem a instabilidade estrutural. A Taça de 2012 permanece como o último grande troféu do Hearts, enquanto o projeto de Romanov caminhava para o colapso.
A queda do império e o regresso ao submarino
Em fevereiro de 2013, as autoridades lituanas encerraram o Ūkio Bankas. A queda do banco atingiu o centro do império de Romanov. O empresário deixou a Lituânia em maio e, em agosto, foi emitido um mandado internacional de detenção no contexto de investigações financeiras que contestou.
O Hearts sofreu as consequências. Em junho de 2013, entrou em administração, com dívidas estimadas entre 25 e 30 milhões de libras. O clube que sonhara desafiar os gigantes escoceses ficou à beira da insolvência, exposto à ruína do proprietário que sustentara a sua ambição.
Romanov foi detido em Moscovo em 2014, na sequência de um pedido associado à Interpol, mas acabou libertado. A Rússia recusou extraditá-lo. O percurso judicial continuou nos anos seguintes: em novembro de 2024, um tribunal regional de Klaipėda absolveu-o num processo relacionado com cerca de seis milhões de euros, enquanto outro procedimento, com 12 arguidos, permanecia em curso. Romanov tem negado qualquer atuação ilícita.
O Hearts sobreviveu. Saiu da administração em junho de 2014, com a intervenção de Ann Budge e da Foundation of Hearts, numa operação avaliada em 2,5 milhões de libras. A mobilização dos adeptos foi decisiva para salvar a instituição e abrir um novo capítulo na sua história.
Romanov, por sua vez, ficou associado a uma imagem difícil de imaginar: a torre de comando de um submarino nuclear transformada em refúgio. Uma secção de cerca de nove metros do K-19 foi recuperada e instalada junto ao reservatório de Pialovskoie, nos arredores de Moscovo. Relatos e entrevistas publicados entre 2023 e 2025 indicaram que o antigo magnata teria passado a viver nessa estrutura. Em 2025, afirmou ter gasto o que lhe restava da fortuna na recuperação da torre. O seu paradeiro atual e a permanência no local, porém, não estão confirmados.
O ‘czar’ Romanov procurou transformar dinheiro em poder desportivo, de Kaunas a Edimburgo. Deixou duas Taças da Escócia, uma rede de jogadores e treinadores que incluiu vários portugueses e um clube à beira do desaparecimento. O destino acabou por devolvê-lo ao ponto de partida: o K-19, o submarino nuclear onde serviu na juventude e cuja torre de comando se tornou o símbolo mais improvável da queda de um magnata.











