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Masterclass de Pogačar marca semana de loucura em França

Ricardo Rebelo · 10 min

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Sem mais demoras, sejam bem-vindos ao conceito de ciclismo moderno. Não estranhou? Pois claro, é um termo que causa cada vez mais concentração mediática, não estivéssemos nós perante uma verdadeira geração de ouro, ou talvez de diamante, diríamos.

Até aqui, nada de novo. Se não estava a par, se não estava à espera, tudo bem. Antes de mais, pode esfregar os olhos, beliscar-se, enfim: tudo o que o seu olhar captou é mesmo a pura e louca realidade. Inacreditável, impensável ou como lhe quiser chamar, esta nova conceção de ciclismo, em tudo atraente na ótica do espetador comum, tem sido exposta da maneira mais intensa possível no passado recente. Faltava apenas revolucionar uma competição como o Tour de France para romantizar aquilo que os teóricos já projetavam? Completamente.

A razão de tal fenómeno passa essencialmente pela forma como os protagonistas têm aproveitado a exposição desta prova para se afirmarem como responsáveis por mais um degrau de uma verdadeira revolução em curso. Na prática, a primeira semana da Volta a França de 2021 – o assunto do momento -, ganhou o estatuto de uma das mais caóticas, espetaculares e emocionantes de toda a História e não existe qualquer razão para contestar uma afirmação destas, até porque os amantes da modalidade só podem estar gratos por tal riqueza tática e emotiva.

Afinal, o propósito de abordar estes primeiros oito dias de competição através de uma visão mais aprofundada é crucial para compreender o quão positivo tem sido este Tour. Se é verdade que, daqui para a frente, o cenário mais previsível assenta numa acalmia gradual na forma dos atletas correrem o que falta de Tour, compete-nos explorar até ao mais ínfimo detalhe todos os pontos obrigatórios de destaque.

Segure-se, porque entre regressos à ribalta, estreias memoráveis, etapas loucas e momentos de alta tensão desportiva… É caso para dizer: venha o ciclista (e a etapa) e escolha!

E DEPOIS DE “LOULOU”, O LEGADO DE POULIDOR CONTINUA…

Com duas etapas explosivas a inaugurar a edição número 108 do Tour, era difícil esperar um cenário diferente daquele que se veio a verificar, ainda para mais com os nomes presentes em competição. No plano da organização da competição não estavam as quedas que marcaram as etapas iniciais, realizadas na região da Bretanha, e que originaram consequências marcantes para o normal desenvolvimento da competição, nomeadamente a nível de desistências e lesões que acabaram por limitar diversos nomes de primeira linha, quer a nível físico, quer em perdas de tempo.

Se é verdade que esse aspeto sobressaiu pela negativa, como a grave queda – que correu mundo -, originada por uma espectadora, a corrida em si nem por isso se viu privada de elementos que engrandeceram o Tour para o patamar que lhe é reconhecido. O primeiro “nome-forte” desta semana de loucos não poderia ter um currículo e um estatuto mais invejável: Julian Alaphillipe.

A solo e em grande estilo, o campeão do mundo foi o primeiro a vestir a amarela depois de disferir um ataque sem resposta a cerca de dois quilómetros e meio da linha de meta, em Landerneau. Dries Devenyns serviu de lançador para uma movimentação na parte mais dura da subida, que, na roda, apenas Pierre Latour, ciclista da Team TotalEnergies, tentou seguir. Um espaço importante acabou por se abrir, deixando a questão esclarecida desde cedo, mas a situação bem que podia ter sido diferente.

A dupla eslovena, Tadej Pogačar e Primož Roglič, ainda esboçou uma reação, mas a falta de colaboração matou à nascença a hipótese de alguém fazer a ponte para a frente. Resultado final: camisola amarela, camisola verde e vitória com uma dedicatória muito especial.

Como não há uma sem duas, imaginemos, a chegada ao imponente Mur de Bretagne prometia novo espetáculo. Talvez com nova vitória de Alaphilippe, talvez com um homem da geral a surpreender, ou talvez com uma das grandes figuras do pelotão internacional em ano de estreia.

Isso mesmo, Mathieu van der Poel fez das suas na maior competição do mundo. A figura central do ciclismo holandês entrou com um objetivo bem vincado: envergar a camisola amarela, algo que o seu avô, Raymond Poulidor, o “eterno segundo”, nunca tinha conseguido, apesar da imensa fama e dimensão que ganhou em França.

Depois de ter atacado na primeira passagem pela dificuldade final para somar segundos preciosos, tendo em vista a aproximação à camisola amarela, o líder da Alpecin-Fenix fez um “Alaphilippe”, protagonizando um ataque de relativamente longe e que não encontrou adversário à altura, bonificando e criando uma distância suficiente para cumprir o sonho do seu falecido avô.

Para além de toda a lógica emoção associada a este momento, seguiram-se cinco dias de amarelo e a camisola de líder máximo da prova não poderia ter ficado melhor entregue. Van der Poel preparou sprints, entrou em fugas, realizou um contrarrelógio de grande nível. Era mais do que previsível o seu abandono ao fim de uma semana, devido à sua presença nos jogos olímpicos, mas a forma como dignificou a amarela foi incrível, sendo um dos maiores autores do verdadeiro espetáculo vivido nas estradas francesas.

Destaque para a ajuda fulcral na vitória de Tim Merlier (e dobradinha com Jasper Philipsen a fazer segundo) na caótica etapa três; o grandíssimo contrarrelógio que realizou, mantendo a amarela por escassos segundos e terminando na quinta posição da etapa, entre especialistas como Kasper Asgreen ou Wout Van Aert; a audácia para se colocar em fuga com Wout Van Aert numa etapa com a extensão de 250 quilómetros, colocando minutos a todos aqueles que estavam a segundos da camisola amarela.

HAVERÁ ALGUÉM DISPOSTO A TIRAR POGAČAR DO TRONO? BOA SORTE

Provavelmente, a questão reflete-se apenas e só na diferença gritante de capacidade física. Se isso vai ser um aspeto linear durante o que falta ultrapassar de Tour? A história e os resultados do prodígio esloveno dizem-nos que sim. É complicado prever um hipotético desfalecimento, uma queda, uma situação de corrida que coloque Tadej Pogačar, o homem mais forte em competição, fora do caminho do seu segundo título de campeão.

Passando novamente para a estrada, a vantagem confortável já construída pelo líder da UAE-Team Emirates começou a ganhar forma com o contrarrelógio de outro mundo. Tirando os segundos ganhos nas etapas inicias, a primeira demonstração de força deu-se com um esforço individual de outro mundo, vulgarizando tudo e todos, até mesmo o próprio Roglič, que algo debilitado, perdeu 45 segundos em 30 quilómetros.

A queda aparatosa que o líder da Jumbo-Visma sofreu na terceira etapa – que o obrigou a abandonar ainda na primeira semana – revelou-se decisiva para a ideia de redefinir objetivos (Vuelta no horizonte) e a consequente porta escancarada para o jovem Pogi revalidar o título em França.

Como é possível verificar, o ciclista de 22 anos derrotou rivais na geral e especialistas em contrarrelógio com grande facilidade, mas a maior exibição da sua autoria até nem foi essa. Etapa número oito. Chegada a Le Grand-Bonard, 30 quilómetros para a linha de chegada e nem a situação favorável impediu um ciclista de se lançar ao ataque num dos ataques mais fulminantes de que há memória.

Se Richard Carapaz, o mais esclarecido da formação da Ineos-Grenadiers, ainda aguentou durante uns escassos metros, ninguém foi capaz de seguir o vendaval que se seguiu, quer os líderes para a geral, quer os escapados do dia que, um a um, iam vendo um autêntico foguetão passar.

Não deu para a vitória na etapa, mas foi uma das performances mais inacreditáveis de sempre. Dylan Teuns juntou-se a Matej Mohoric (vencedor da etapa sete), selando o segundo triunfo para a Bahrain-Victorious, numa situação vitoriosa idêntica à do Giro d’Italia, já depois do líder Jack Haig ter sido forçado a abandonar a prova.

Relativamente aos humanos, digamos assim, o azar das quedas esbateu-se sobre a própria Ineos, que com Geraint Thomas limitado e Richie Porte atrasado, tem apostado as suas fichas no equatoriano Richard Carapaz. Apesar de se destacar dos demais no que concerne à capacidade física nas grandes dificuldades, a diferença para o restante top 10 tem sido mínima, o que complica a resposta à pergunta “quem é o melhor dos outros?”.

Apresentando sucintamente cada um, e tendo em conta as características das grandes montanhas e o contrarrelógio final, podemos antever alguma vantagem para aqueles capazes de rolar melhor no esforço individual: Rigoberto Urán (3.º), Jonas Vingegaard (4.º), Wilco Kelderman (7.º) ou até o mais atrasado Mattia Cattaneo (12.º). A disponibilidade que Carapaz aparenta ter, terá que vir à baila para criar distâncias para estes nomes.

Também Enric Mas e a dupla francesa, David Gaudu e Guillaume Martin, terão forçosamente de mexer ou pelo menos resistir mais tempo na frente do que os concorrentes diretos. Fazer uma menção para Ben O’Connor (2.º), vencedor da última etapa antes do dia de descanso e, em virtude disso mesmo, muito bem posicionado à geral, criando um fosso para todos os outros e que pode ser importante na gestão da prova por parte do escalador australiano. Alexey Lutsenko (8.º) é outra das surpresas, realizando uma primeira semana ao seu nível, faltando apenas saber como é que o seu corpo irá reagir a mais dois terços de corrida.

CAVENDISH RENASCIDO DAS CINZAS APONTA PARA O RECORDE DE EDDY MERCKX

Há cerca de três meses, Mark Cavendish rebentou completamente com a modesta concorrência na Volta à Turquia, dando um salto enorme da frágil condição física e emocional para um patamar bem mais próximo do que aquilo que lhe é reconhecido. Seguiu-se uma vitória estonteante sobre os melhores do mundo na Volta à Bélgica, e ainda por cima num timing bastante importante, não estivesse a novela Sam Bennet e Patrick Lefevere prestes a entrar em efervescência.

O salto qualitativo já nesse ponto era gritante e a inclusão de Mark Cavendish no Tour já era dado como uma verdadeira vitória, não estivesse o Míssil de Man mais do que descartado por grande parte dos entendidos na matéria. Mas a História e a beleza do desporto tende a impressionar-nos e, desta vez, presenteou-nos com um dos comebacks mais impressionantes de que há memória.

A este ponto, Mark Cavendish venceu duas etapas do Tour de France, batendo os melhores da atualidade em grande estilo. Para além da etapa ganha por Tim Merlier, da Alpecin-Fenix, a estrutura da Deceuninck Quick-Step viu o seu sprinter arrebatar as etapas terminadas em pelotão compacto: Cavendish venceu em Fougères e Châteaurox, destacando-se estas vitórias pelo trabalho de equipa incrível, principalmente de Michael Morkov no lançamento do homem mais rápido do momento.

Não tivemos um duelo frente a frente com Caleb Ewan, que já abandonou a competição devido a queda, mas Cavendish conseguiu bater os homens da Alpecin-Fenix na linha de meta, destacando-se a competitividade dos outsiders Nacer Bouhanni e Cees Bol, o Tour apagado de Peter Sagan e os sprinters com mais competência em média dificuldade, responsáveis por tentar retirar a verde do corpo do inglês: Michael Matthews (a 38 pontos) e Sonny Colbrelli (a 47 pontos).

Falando em classificações, Nairo Quintana é líder da classificação da montanha. O Colombiano manteve uma regularidade assinalável nas etapas alpinas, o que lhe permitiu ir para o primeiro dia de descanso na frente de Michael Woods e Wout Poels. Relativamente à classificação por equipas, já que a camisola da juventude tem o nome de Pogačar, está à responsabilidade da equipa mais cirúrgica do momento: Bahrain Victorius, que leva 18 minutos de vantagem para a AG2R Citroen Team.

Com tudo ainda muito no início, entramos agora no miolo da competição. Apesar de algumas decisões parecerem estar arrumadas, ainda existem várias classificações e objetivos em disputa. A velocidade com que se correu a primeira semana vai pesar, podendo causar reviravoltas impensáveis. Sobre espetáculo, a ver vamos, mas de uma coisa sabemos: esta geração veio para radicalizar a emoção que o ciclismo consegue proporcionar!

Foto de Capa: Tour de France

Artigo revisto por Joana Mendes

Ricardo Rebelo

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