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17 de março de 2023 ficará marcado na história como o dia da primeira convocatória de Roberto Martinez no comando da seleção nacional de Portugal.
De entre todas as polémicas de Fernando Santos a convocatória raramente esteve no centro destas. O núcleo duro foi quase sempre consensual e houve sempre espaços para pontuais questionamentos muito mais dependentes da opinião pessoal do que da qualidade dos intérpretes.
Não é assim de estranhar que com Roberto Martinez a reação seja semelhante. Primeiramente porque há apenas três – mas significativas – alterações em relação aos 26 que representaram Portugal no Mundial. Em segundo lugar porque face à tamanha qualidade nos jogadores portugueses, era impossível não deixar ninguém de fora.
Há ainda assim duas áreas em que Roberto Martinez se pode diferenciar do seu antecessor. A primeira é a comunicação, uma mudança já em andamento. A abertura em responder às questões dos jornalistas, a constante presença nos estádios – inclusive jogos de formação e de equipas fora dos “três grandes” – e a dedicação para aprender a língua (há uma desconfiança – sem qualquer tipo de base fundamentada diga-se – de parte da massa adepta pela nacionalidade) marcaram os primeiros dias de Martinez ao comando do barco português. A segunda – e mais importante – nos comportamentos dentro de campo. As primeiras considerações serão feitas a 23 e 26 de novembro, depois dos encontros contra Liechtenstein e Luxemburgo.
RENOVAÇÃO NA DEFESA
Em nenhum momento Fernando Santos preparou a renovação dos centrais portugueses. Rubén Dias assumiu com naturalidade a titularidade ao lado de Pepe e assim continuou durante todo o percurso do antigo treinador das quinas. As ausências dos titulares eram colmatadas por Danilo e o quarto central raramente teve oportunidades.
Face à idade de Pepe a sucessão foi uma questão arrastada de forma constante para debaixo do tapete. Se por um lado é natural alguma resistência em mexer na dupla de centrais, houve oportunidades várias para testar alternativas e iniciar o processo de ganhar rotinas para vários nomes.
Além de António Silva – quarto central no Mundial – Roberto Martinez trouxe duas novidades à convocatória: Gonçalo Inácio que já havia sido convocado, mas ainda sem oportunidade para se estrear e Diogo Leite, cuja convocatória é inédita.
Gonçalo Inácio cumpre a terceira temporada como titular no Sporting – assumiu a titularidade em definitivo em fevereiro de 2021 – e a sua chamada já era há muito esperada. Está em crescendo de rendimento na temporada e finalmente passou a jogar pela esquerda. Já Diogo Leite é um caso de julgamento precoce: sempre teve qualidade, mas foi sempre julgado em contextos que não o favoreciam (em Braga chegou a atuar como lateral). Em Berlim agarrou a oportunidade e tem sido um dos destaques do Union. Sem surpresa chega também à convocatória.
DEFESAS CENTRAIS E O SISTEMA
Além de Gonçalo Inácio e Diogo Leite, foram também chamados os quatro centrais que estiveram no Mundial por Portugal: Rubén Dias, Pepe, Danilo e António Silva. São seis jogadores para o centro da defesa o que, pelo passado de Roberto Martinez, deixa a possibilidade de antever uma linha de cinco.
Não deverá haver um sistema único e pela mente do técnico espanhol deve estar a possibilidade de variar o número de elementos da linha defensiva. O ponto de partida deverá ainda assim passar por uma linha de cinco com três defesas centrais.
Tendo em conta esta possibilidade ganham ainda mais relevância as chamadas de Gonçalo Inácio e de Diogo Leite, os únicos esquerdinos e perfeitamente confortáveis com o sistema. Um poderá mesmo assumir a titularidade.
Mais do que considerações definitivas, a convocatória parece abrir espaço para a experiência – que pode dar certo ou errado – e que tem necessariamente de ser acompanhada com a possibilidade de sucesso ou de erro. Haverá certamente grande flexibilidade tática durante o ciclo que culminará no Europeu no próximo ano.
UMA QUESTÃO CENTRAL
As ausências de William Carvalho, de Florentino e de outros jogadores do meio-campo para a frente estão associadas à chamada de tantos defesas centrais.
Portugal tem talento em abundância na zona intermediária do terreno. Até por isso é mais relevante garantir opções na zona mais recuada do terreno, mais debilitadas em termos de opções. Haverá certamente tempo para ver os restantes jogadores em ação.
Para médio defensivo foram chamados Palhinha e Rubén Neves (sendo que Danilo também pode fazer a posição). Se Palhinha tem tido uma temporada de destaque na Premier League, Rubén Neves até tem estado uns furos abaixo, mantendo ainda assim o lugar na seleção.
Entre os quatro mencionados há quatro perfis diferentes. Palhinha permite à equipa jogar mais alto no terreno, pressionando em cima com a certeza de que tem atrás um jogador com capacidade para preencher uma vasta área de campo. Rubén Neves além da meia distância – útil contra blocos baixos e fechados – garante variabilidade no passe e eficácia no passe longo diagonal. Florentino dá garantias à equipa sem bola (não sendo Palhinha), ocupando bem o espaço e tem tido cada vez mais impacto no momento da saída de bola pela capacidade de verticalizar o passe. William – pode também jogar como oito – tem maior chegada à área e diferencia-se pela gestão exemplar do ritmo de jogo, sabendo quando acelerar com o passe e quando associar-se com os colegas, procurando uma subida sustentada da equipa. A menos que algo de estranho aconteça todos terão oportunidade.
EXTREMOS, AVANÇADOS INTERIORES E O DESEQUILÍBRIO
À semelhança de Fernando Santos, também Roberto Martinez deixou de fora jogadores de ataque ao espaço. Rafael Leão é um jogador de aceleração com bola no pé, mas não há propriamente nenhum jogador que faça das ruturas o seu ponto forte. Rafa está fora da seleção, Guedes está lesionado e extremos puros como Galeno ou Jota ficaram de fora.
Apesar de tudo Jota – já recuperado da lesão – pode ocupar esta função de jogador mais disruptivo. De resto não há surpresas. Os avançados de Portugal deverão continuar a atuar por dentro, algo cuja linha defensiva de cinco (aproximando os laterais – alas, na realidade – da área) pode acentuar.
Ficam de fora Pedro Gonçalves – tem atuado mais como médio – e Fábio Vieira que, não sendo um extremo desequilibrador na linha, desequilibra no passe.
CRISTIANO RONALDO
Não é surpreendente a presença de Cristiano Ronaldo na lista dos 26. Aliás, quer a sua ausência, quer a sua presença seriam motivo suficiente para estar nesta lista. Mas é importante enquadrar a presença do melhor jogador da história de Portugal numa convocatória em três aspetos.
- Rendimento desportivo. Estamos a falar de um jogador que joga na Arábia Saudita. O afastamento dos grandes palcos obriga a contextualizar o rendimento a nível de clubes do português que deixou de jogar todas as semanas a grande nível.
- Estatuto secundário. Está relacionado diretamente com o anterior. Ronaldo saiu de Manchester por não ser capaz de aceitar ser suplente de luxo e coadjuvante. Em toda a carreira foi protagonista, e o capitão português parece incapaz de lidar com a perda dos holofotes. Há jogadores que neste momento oferecem maiores garantias, mas como suplente Ronaldo pode continuar a ser decisivo.
- Passado de Martinez. O espanhol liderou a geração de ouro belga, mas nunca conseguiu operar a renovação. Tentou por várias vezes fazê-lo na defesa (nenhuma alternativa se afirmou) e na frente nunca soube lidar com a quebra de rendimento de Hazard. Terá um desafio ainda mais exigente com Ronaldo.
Os próximos meses serão decisivos, quer para avaliar o tamanho da quebra de Ronaldo e qual o seu protagonismo na seleção. Por agora, é um dos pontos que estará em cima da mesa para análise nos jogos de Portugal.











