João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Iraque, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.
No futebol de alta competição, os conflitos dentro de um balneário sempre existiram. Existiam no passado, existem hoje e continuarão a existir no futuro, um balneário é um espaço de pressão constante, ego, competitividade, desgaste emocional e luta diária por espaço, estatuto e poder interno.
O problema não é o conflito. O verdadeiro problema começa quando o conflito deixa de ser controlado pela cultura do grupo, pela liderança interna e pela autoridade natural que um grande balneário deve ter.
As notícias vindas do Real Madrid sobre a alegada agressão entre jogadores (Tchouaméni e Valverde) (Rudiger e Carreras) durante o treino e depois no balneário levantam uma questão muito mais profunda do que o episódio em si. Porque situações destas raramente aparecem do nada, normalmente são apenas o sintoma visível de algo que já vinha sendo alimentado internamente.


E aqui entra uma palavra fundamental no futebol moderno, liderança.
Os grandes clubes sempre tiveram líderes fortes dentro do balneário, jogadores capazes de travar excessos antes que os problemas explodissem. Jogadores que percebiam que o símbolo do clube estava acima do ego individual, jogadores que protegiam diariamente a cultura competitiva da equipa.
Hoje, em muitos contextos, sente-se exatamente o contrário, equipas extremamente talentosas, mas emocionalmente frágeis. Balneários onde o estatuto chega antes da maturidade competitiva, jogadores preparados para lidar com a exposição mediática, mas nem sempre preparados para sustentar emocionalmente o peso competitivo de representar clubes gigantes.
E depois existe outro problema moderno, ganhar esconde muita coisa. Enquanto a equipa vence, muitos sinais passam despercebidos. Pequenas divisões internam, falta de compromisso sem bola, frustrações acumuladas, desgaste emocional, quebra de ligação entre treinador e grupo. Tudo isso fica escondido pelos resultados… até ao dia em que explode.


É precisamente aqui que a situação do Real Madrid se torna interessante de analisar do ponto de vista de treinador.
Xabi Alonso chegou ao clube com uma ideia muito clara daquilo que pretendia construir, um treinador que transmite exigência, disciplina, intensidade competitiva, responsabilidade coletiva e rigor diário. Um treinador que percebe que cultura competitiva não se constrói apenas com talento, mas sim com compromisso permanente e hoje podemos olhar para o PSG de Luís Enrique.
Mas o futebol moderno criou um problema perigoso em muitos clubes de elite, a dificuldade em proteger a autoridade do treinador quando ela entra em choque com o conforto das estrelas.
Implementar cultura competitiva exige coragem, mas sustentá-la exige ainda mais coragem por parte da estrutura. Porque no momento em que um clube decide proteger nomes em vez de proteger princípios, o balneário percebe imediatamente onde está o verdadeiro poder, e quando isso acontece, a autoridade do treinador começa lentamente a desaparecer.


No futebol, os jogadores percebem tudo, percebem quando existe liderança forte, quando existem limites claros, e também percebem rapidamente quando esses limites deixam de existir.
Ao longo da minha carreira também vivi situações semelhantes, e aprendi algo muito cedo e tem sido sempre uma das minhas regras, nenhum jogador é mais importante do que o grupo.
Mesmo em contextos difíceis, sempre preferi afastar jogadores que não entendiam isso do que correr o risco de perder o balneário. Porque no momento em que o treinador perde o controlo emocional e cultural do grupo, começa lentamente a perder a equipa.
No futebol moderno fala-se demasiado de modelo de jogo, saída a três, pressão alta, métricas físicas e análise de dados. Tudo isso é importante, mas continua a existir algo que nenhuma tecnologia substitui, liderança. E quando ela desaparece, até os maiores clubes do mundo ficam expostos e o Real Madrid é um exemplo claro, talvez por isso o nome de José Mourinho é visto como situação para liderar o grupo, José Mourinho nunca teve problemas em bater de frente com «estrelas».

