O futebol marroquino está bem e recomenda-se. É esta a garantia de Rogério Matias que, nos últimos meses, viu nas ruas de Marrocos o que os resultados e as exibições já mostravam sobre o futebol alegre, inspirado nas ruas, da seleção do Norte de África. Outrora referência do Vitória SC, por onde passou como jogador e dirigente, é agora como diretor desportivo do Raja Casablanca que o português vai desenvolvendo o seu trabalho. À margem do Portugal Football Summit e em exclusivo ao Bola na Rede, Rogério Matias olha para o futebol no país que vai, junto de Portugal e Espanha, receber o Mundial 2030.
«A nível do talento, é um absurdo o que existe em Marrocos».
Rogério Matias
Bola na RedeBom dia, obrigado pela disponibilidade. Como está a ser vivido o trabalho no Raja Casablanca e esta aventura em Marrocos?
Rogério Matias: Antes de mais, obrigado pela oportunidade que me deram. O trabalho no Raja tem sido um trabalho desafiante. É uma realidade completamente diferente do que tinha aqui em Portugal e no Vitória SC. É um clube que é gigantesco, com um historial enorme e uma massa associativa incrível. A prova disso é o ambiente que os nossos adeptos provocam no estádio, a atmosfera, todo aquele ambiente de festa e de grande apoio à equipa, fervoroso. Têm uma maneira de estar no futebol muito intensa. São muito emotivos em tudo o que fazem pelo clube. O desafio que me foi proposto foi uma transformação do clube. O clube é gigantesco, mas tem que dar passos significativos em relação à sua estrutura interna e profissionalização interna do clube. Está a ser um trabalho difícil, mas com uma clara ideia de para onde queremos levar o clube para que o Raja seja um clube sustentado e profissionalizado. Queremos preparar o Raja para o futuro. O futebol está todos os dias em constante movimento e mudança. Um clube com a dimensão do Raja tem de acompanhar a evolução do futebol nos últimos anos. Esse desafio é completamente diferente e abracei-o com muita vontade de fazer bem. Para já, ainda estamos no início. Apenas temos dois meses de clube, mas já deu para sentir que as pessoas confiam em mim e no meu trabalho e que estão dispostas a fazer evoluir o clube dentro da minha visão e do que lhes expus enquanto negociávamos. Expus a minha visão do que acho que é o melhor para o clube.
Bola na RedeQuer nas seleções mais jovens, quer também no futebol sénior, o futebol marroquino tem tido grande destaque e crescimento. Nos clubes também tem sentido esta melhoria?
Rogério Matias: Eu não tenho tido sequer tempo para estar focado no que os clubes em Marrocos têm feito. Estou muito focado no que temos de fazer e concentrado no meu trabalho diário. Há muita coisa para fazer no clube. Agora, a nível do talento, é um absurdo o que existe em Marrocos. O jogador marroquino tem um talento absurdo e aquele futebol de rua que hoje vai faltando. Em Marrocos há muita qualidade nos miúdos. Já tive esta conversa várias vezes com várias pessoas. Basta andares pela rua em Casablanca e vês que há miúdos a jogar futebol por toda a parte. Se parares um pouco, a forma como tocam na bola, como se relacionam com a bola é diferente. A prova disso é que, a nível das seleções jovens, Marrocos foi campeão de sub-20 com uma seleção muito forte. Na minha perspetiva e pelo que vejo, será uma das seleções a ter em conta para o Mundial 2030.
Bola na RedeFavorita ao lado de Portugal, ou candidata, pelo menos?
Rogério Matias: Acho que o fator casa vai influenciar muito. O apoio que irão ter nesse Mundial vai ser incrível. Mesmo a nível de infraestruturas, construíram um estádio em Casablanca com capacidade para 100 mil pessoas. Supostamente, ainda estão a ver se a final será mesmo lá. Pelo que tenho lido, há mesmo hipóteses de a final ser lá. Tudo isto mais a bagagem que o futebol marroquino tem tido ao longo dos últimos tempos e as prestações que Marrocos tem tido nos diferentes campeonatos e escalões permite-me dizer que será uma das seleções a ter em conta para esse Mundial.
«Marrocos já está mapeado por praticamente todos os países da Europa. Obrigatoriamente tem de estar mapeado pelos clubes portugueses».
Rogério Matias
Fonte: Raja Casablanca
Bola na RedeA nível de infraestruturas, e lembrando que Marrocos organizou recentemente a CAN e vai organizar o Mundial, como são as infraestruturas em Marrocos? Sente que o país está preparado para o organizar?
Rogério Matias: É um país que, em termos de infraestruturas, está preparado para organizar um evento dessa magnitude. Se não fosse assim, não tinham organizado as competições que acabaste de referir. Estão a construir, e falo de Casablanca, que é onde estou há mais tempo, uma cidade nova. Há muito investimento na construção. O país está a preparar-se há muito tempo para este evento. Acredito que será um grande evento e terá todas as condições para receber o Mundial.
Bola na RedeO futebol africano tem acolhido recentemente uma nova vaga de treinadores portugueses, também jogadores e dirigentes. Quais os principais atrativos e diferenciais, sabendo, obviamente, que África é um continente muito grande e com várias especificidades?
Rogério Matias: Treinadores, dirigentes e, enfim, um sem-número de portugueses com enorme conhecimento e enorme competência estão espalhados pelo mundo inteiro. É verdade que este ano em Marrocos há uma série de equipas com treinadores portugueses, também muitos portugueses a trabalhar na Federação [Marroquina de Futebol] e espalhados pelos clubes em Marrocos e em África. Estão a querer beber um pouco das competências dos portugueses e dos treinadores europeus para poderem potencializar e juntar ao que têm de bom, que é o talento dos jogadores, e complementar com o que de melhor se faz na Europa. Acho que estão a pensar bem em relação ao que pretendem para o futuro do futebol marroquino. Estão atentos a tudo e o mundo do futebol está de olhos postos no que se vai fazendo em Marrocos, devido à qualidade do jogador e ao que a própria seleção fez nos últimos Mundiais.
Bola na RedeEntre os vários jogadores do plantel do Raja, um deles já passou em Portugal: o Bilal Ould-Chikh. Na altura, era muito novo [quando passou pelo Benfica]. Para quem o perdeu de vista, como está o jogador neste momento e quais as suas maiores potencialidades?
Rogério Matias: Eu acho que o Bilal está numa altura mais madura da vida dele, passou em Portugal muito novo, num clube grande como o Benfica. Em termos de maturidade, na minha opinião, nessa altura não estava preparado para esse desafio. Neste momento, poderá ser uma mais-valia para o Raja. Temos lá também outros jogadores de grande qualidade e de futuro para o Raja. São jogadores que contratámos também dentro do mercado marroquino, porque temos sempre a limitação de jogadores estrangeiros, e olhamos muito para dentro. Olhamos também para o que se faz dentro da academia do Raja. É um dos pontos a que dou muita importância, porque o talento está lá. Temos quatro jogadores na seleção dos sub-20, um deles, que tem 17 anos, o [Yahya] Iguiz, está sempre na primeira equipa. É um jogador com muito talento. Os outros também já estão a treinar na primeira equipa e têm muito talento, mas mais fixo está o Iguiz. Tem muito talento e apenas 17 anos. Acho que é um jogador que, por aquilo que vejo, será o futuro avançado da seleção de Marrocos. É um jogador com um potencial incrível e que tem despertado o interesse de clubes europeus que andam sempre à procura de jovens talentos e é um reflexo da qualidade do jogador marroquino. Marrocos não está na moda, é mesmo muita qualidade nos jogadores.
Bola na RedePensando em qualidade e olhando ao futebol português, na época passada o Yanis Begraoui foi o terceiro melhor marcador da Primeira Liga. Portugal, até pela proximidade geográfica, pode aproveitar muito deste talento marroquino?
Rogério Matias: Acho que Portugal e os portugueses estão sempre atentos a tudo e há um grande conhecimento em Portugal sobre o que se faz em Marrocos. O exemplo do Begraoui no Estoril é um exemplo mais do que evidente. É um jogador com uma qualidade tremenda. Já no passado tivemos jogadores de uma grande qualidade no futebol português. O mais emblemático é talvez o Hassan [Nader], que foi do Farense para o Benfica, o [Adel] Taarabt… São alguns. Os clubes portugueses têm a capacidade de chegar primeiro que os outros. Têm essa capacidade porque não têm a capacidade financeira de chegar e pagar transferências muito altas pelos jogadores com grandíssima qualidade. Fazem o trabalho inverso e vão antes, em antecipação, buscar os jogadores em idade mais baixa para os poderem trazer com mais vantagens financeiras na compra, para potencializar e vender. Acho que Marrocos, e obrigatoriamente para os clubes portugueses porque estamos em Portugal, mas Marrocos já está mapeado por praticamente todos os países da Europa. Obrigatoriamente tem de estar mapeado pelos clubes portugueses.
«O Tony Strata é um jogador que poderá dar muitas alegrias ao Vitória».
Rogério Matias
Fonte: Vitória SC
Bola na RedeOlhando ao futebol português, passou como jogador e dirigente no Vitória SC, um clube emblemático em Portugal. Como tem acompanhado o clube e avalia o momento recente?
Rogério Matias: Desde que fui para Marrocos que, sempre que posso, assisto aos jogos do Vitória SC. Está a ter um começo um pouco aquém das expectativas e do que é exigido pela massa associativa, que é muito exigente. Confio no trabalho das pessoas que lá estão. Tenho a certeza de que tudo irão fazer para que esta má fase seja revertida. Também tenho observado os pontos que o Vitória tem neste momento. Muitos dos pontos foram perdidos e não foi porque a equipa não tivesse criado oportunidades no jogo. Cria muitas oportunidades e acaba por não as conseguir concretizar e depois acaba por sofrer golos e não ter tantos pontos como a equipa merecia e os adeptos do Vitória ambicionavam.
Bola na RedeFalou da forma aficionada dos adeptos em Marrocos. Não sei se é possível fazer um paralelismo com a forma como os adeptos vivem o Vitória.
Rogério Matias: Posso dizer que a massa associativa do Vitória vive o clube de uma maneira louca. Só que em Marrocos, para mim, é completamente diferente. É uma escala completamente maior. A intensidade, a emoção, a quantidade de pessoas… É totalmente diferente. Não estou a dizer com isto que é melhor, mas realmente, em Marrocos… Convido as pessoas a ir lá ver uns jogos, especialmente em Casablanca, porque o ambiente é muito bom.
Bola na RedeSe tivesse de escolher um jogador do Vitória para destacar, podemos pensar num cenário hipotético em que teria de contratar um, qual seria?
Rogério Matias: Eu acho que, neste momento, o Tony Strata é um jogador que poderá dar muitas alegrias ao Vitória. É certo que é um lateral, mas é um jogador com uma grande qualidade e um grande futuro no futebol. É um jogador que dará grandes alegrias ao clube. Agora, tudo depende também de como a equipa acompanhará em termos de resultados e exibições. Em relação ao Vitória, também não me quero estar a alongar muito. Tem que rapidamente reverter os resultados para que a equipa também possa ganhar confiança e estabilidade.
Bola na RedePara concluir, e creio que não me falham as contas, como jogador jogou com o César Peixoto, com o Abel Ferreira e com o Sérgio Conceição, três treinadores portugueses a dar cartas no estrangeiro. Quando jogou com eles, já perspetivava este futuro e como analisa o momento atual dos três treinadores?
Rogério Matias: Se calhar, o César Peixoto e o [Sérgio Conceição] por terem personalidades diferentes, nunca esperaria que optassem por ser treinadores. O Abel [Ferreira], de outra maneira. Como jogador mostrava-se sempre muito interessado em perceber as coisas. Teve a oportunidade de ser treinador e acho que está a ser muito melhor treinador do que foi jogador. Espero que ele me perdoe. O César Peixoto também tem vindo a consolidar o seu trabalho. Teve um início como treinador que não correu tão bem, mas depois conseguiu afirmar-se. Fez uma tremenda temporada no Gil Vicente, consolidou o seu futebol, consolidou a sua equipa. Teve esta oportunidade em Inglaterra e está a justificá-la. Em relação ao Abel Ferreira, acho que não é preciso justificar muito mais. O Abel tem uma carreira brilhante e o que está a fazer no Palmeiras é um orgulho para todos os portugueses. Temos um treinador a fazer aquela campanha que está a fazer no Palmeiras, sempre a ter resultados positivos e resultados financeiros.