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Em Portugal, as listas são horizontais, em Espanha, são verticais: o Real Bétis também é uma escola de extremos (e Souleymane Faye passou por lá)

Ricardo João Lopes · 7 min

José Morante Real Bétis
Foto: Real Bétis

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O Real Bétis tem conseguido formar alguns jovens extremos nos últimos anos e as próximas gerações prometem alguns frutos.

SEVILHA, ESPANHA- Ao pensarmos em escolas de formação, com a sua especialidade em extremos, o nosso cérebro vai pensar automaticamente no Sporting. Cristiano Ronaldo, Nani, Simão Sabrosa e Ricardo Quaresma são o expoente máximo de craques saídos da cantera do emblema do José de Alvalade, capazes de fazer magia a partir da linha, procurando espaços interiores ou dando profundidade nas zonas exteriores, aliando-se ao lateral.

Nos últimos anos, Espanha assumiu-se como o país protagonista no futebol, não apenas nos seniores, mas também na formação. As academias ganharam um papel importante no desenvolvimento do desporto rei desde a viragem do século, com vários emblemas a apostarem na manutenção e criação de infraestruturas para que os atletas possam atingir os níveis máximos. As conquistas do Euro 2024 e do Mundial 2026 provam este ponto. São a cereja no topo do bolo de um processo que obviamente não se construiu de um dia para o outro.

O Real Bétis é um desses clubes que tem visto na formação uma solução recorrente para completar a equipa principal. Desde 2021, os andaluzes conseguiram colocar a sua equipa B na Primera RFEF em três ocasiões. Já os Sub-19 têm conseguido marcar presença na Youth League, a grande montra europeia para os jogadores.

Assane Diao a jogar pelo Betis
Fonte: Real Betis Balompié

Esta boa produtividade faz com que vários jogadores aceitem rumar à Ciudad Deportiva Rafael Gordillo, deixando outros projetos. Nos últimos anos, o Real Bétis tem conseguido transformar-se num especialista no desenvolvimento de extremos, à semelhança daquilo que o Sporting tem feito desde a abertura da Academia de Alcochete.

Curiosamente, a maior figura da história recente dos andaluzes é mesmo um extremo. Joaquín. O extremo chegou ao clube em 1997, com apenas 17 anos, depois de ganhar destaque no Los Frailes e no San Luís. O jogador estreou-se pela equipa principal em 2000/01, após uma temporada nos B’s. Acabou por ser vendido em 2006 ao Valência por 25 milhões de euros, regressando a casa em 2015, para voltar ao estrelato. Vestiu de verde e branco até 2023, ano que marca a sua retirada.

No total, foram 516 encontros, com 65 golos e 36 assistências. Exibições que fizeram as bancadas vibrar e uma ligação com os adeptos como raramente se vê. A silhueta que estava na bancada central do Benito Villamarín poderia ser perfeitamente a dele.

Fonte: RC Bétis

Ao longo dos anos, várias jovens promessas tentaram seguir o caminho de Joaquín, mas é tarefa complexa chegar a tal patamar. Ainda assim, há que admitir que a qualidade dos extremos formados no Real Bétis aumentou com o passar dos anos. Na primeira parte da última década, o primeiro nome que alimentou o sonho foi Pibe. O argentino destacou-se no Pontevedra e juntou-se à equipa B dos béticos, mas foi na Galiza e em Castela e Leão que se transformou numa referência, destacando-se no Coruxo, Pontevedra, Arenteiro ou Cultural Leonesa.

Já em 2015/16, chegou à Ciudad Deportiva Rafael Gordillo um jovem proveniente do L’Hospitalet e que viria para marcar uma era. Aitor Ruibal foi inserido na equipa B, após conseguir estatuto no futebol catalão. Depois de empréstimos a Cartagena, Rayo Majadahonda e Leganés, o extremo conseguiu finalmente espaço no plantel principal, onde permanece até aos dias de hoje.

Para Manuel Pellegrini, Aitor Ruibal é um autêntico ‘faz tudo’, jogando nas laterais e a ponta de lança. Sem dúvida, uma figura da última década. Já na época seguinte, o Benito Villamarín recebeu aquele que provavelmente foi o jogador que mais expetativas criou, dentro deste lote. Rodri Sánchez provara na formação do Deportivo de A Coruña que tinha tudo para ser craque e o Real Bétis recebeu-o de braços abertos. Em 2020/21, já com o treinador chileno, foi promovido ao plantel principal e de lá não saiu. No entanto, o extremo nunca provou ser regular o suficiente para conseguir dar o salto. Não conseguiu chegar à seleção nacional e acabou por perder o protagonismo, acabando por ser vendido em 2024/25 ao Al Arabi. No contexto do Catar, é um jogador da gama de elite.

Aitor Ruibal Gabri Martínez Braga Real Bétis
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

Quase ao nível de expetativas de Rodri Sánchez, apareceu Juan Cruz, incluído em 2021/22 nos B’s, acabadinho de chegar do Málaga. O argentino de nascença era (e é) um virtuoso, mas a incapacidade de ser constante levou a que não lograsse o sucesso no Benito Villamarín. Partiu em 2023 rumo ao Leganés, inicialmente por empréstimo, estando em 2026/27 cedido ao Málaga, clube que o criou e que está de regresso à La Liga.

2023/24 apresentou ao Real Bétis um nome que na última temporada ficou conhecido em Portugal. Souleymane Faye, após ter sido um dos destaques do Talavera, foi contratado por empréstimo pelos béticos, para ser trabalhado na formação secundária. O senegalês convenceu e motivou um investimento de três milhões de euros. A época seguinte foi de produtividade em alta escala: 36 jogos, nove golos e duas assistências. A estrutura estava convencida em dar-lhe um papel de rotação entre os A’s e os B’s, mas o Granada tinha outros planos, comprando o atleta por pouco menos de quatro milhões de euros. Já conhecemos bastante bem o resto da história.

O Sporting encantou-se com as virtudes de Souleymane Faye, mas o extremo não conseguiu afirmar-se em Alvalade. Está cedido ao Lorient e parece que os momentos de brilhantismo de verde e branco já foram há décadas.

Souleymane Faye, Sporting
Fonte: Sporting

Souleymane Faye não foi o último extremo senegalês a destacar-se na cantera do Real Bétis. Esse posto é ocupado por Assane Diao, que atingiu o sucesso na equipa principal. Manuel Pellegrini apostou forte no jogador em 2023/24 e o jogador correspondeu. Foi um ano e meio no plantel dos espanhóis, conseguindo seis golos e três assistências. O Como 1907 estava atento e em janeiro de 2025 chegou à Andaluzia com uma oferta de 12 milhões de euros, que acabou por ser aceite.

Os italianos pescaram outro extremo aos béticos, apenas meio ano depois. Manuel Pellegrini não lançou somente Assane Diao. Jesús Rodríguez, depois de se destacar na B durante 2024/25, foi encarregue da tarefa de suceder ao senegalês e a mesma foi executada com sucesso: 32 encontros, três golos e uma assistência. A instituição liderada por Cesc Fàbregas investiu 22,5 milhões de euros e o sucesso em Itália tem sido tremendo.

O último extremo a sair do Real Bétis foi Pablo García, nome que os adeptos pediram para ser aposta na equipa principal. No entanto, seguiu um pouco a receita de Rodri Sánchez e Juan Cruz: capaz do melhor, mas altamente inconsistente. O jovem de 20 anos chegou a ser associado ao Sporting, mas o Racing Santander investiu cinco milhões de euros pelo seu passe. A abertura dos andaluzes a uma negociação nos últimos dias do mercado prova o ponto de que o atleta não seria uma prioridade. Ainda assim, foram 30 encontros pela equipa principal e dois golos marcados.

Nélson Oliveira Jesús Rodríguez Real Bétis Vitória SC
Fonte: João Freitas/Bola na Rede

Dentro do elenco atual, o Real Bétis tem dois extremos capazes de atingir o apogeu e marcar uma era, isto se não partirem para outras paragens quando ainda têm a sua formação como atletas por concluir. Pela direita Ángel Ortiz é o oponente de Antony no que diz respeito à luta pelo posto de extremo. Capaz de fazer toda a banda, o extremenho tem 22 anos, é inclusivamente mais velho que Assane Diao ou Jesús Rodríguez. O seu crescimento tem sido feito de forma paulatina. Dividiu-se entre dois escalões em 2024/25 e na temporada seguinte foi um dos homens de confiança a partir do banco de Manuel Pellegrini. Com 23 encontros, dois golos e uma assistência, convenceu a equipa técnica, que decidiu mantê-lo para 2026/27, onde promete aproveitar todos os minutos que Antony lhe conceda, além de também poder ser usado na lateral, um caminho também realizado por Aitor Ruibal.

Já pela esquerda (e que também pode atuar pela direita), José Morante é o nome a seguir, embora seja muito difícil vê-lo com a camisola do Real Bétis esta temporada. Tem apenas 19 anos e ainda se está a afirmar na equipa orientada por Dani Fragoso, que está na Segunda RFEF. Trata-se de um salto da quarta divisão para a primeira. Jesús Rodríguez, Assane Diao e Pablo García beneficiaram do facto de o Real Bétis B estar na Primera RFEF, um degrau acima.

Rodri Sánchez Real Bétis
Fonte: Real Betis Balompié

José Morante é a grande promessa da cantera e será alvo de atenção constante. No entanto, como vimos em casos anteriores, por vezes é melhor esperar pela oportunidade e ganhar consistência, para poder vingar, com a camisola verde e branca. No entanto, foi um dos protagonistas do triunfo ante o Osasuna (que ditou o despedimento de Luis Miguel Ramis. O jogador surgiu pelo corredor central e rematou com força, fechando o resultado em 5-2. O seu festejo? Uma homenagem ao seu pai, Morante de la Puebla, um dos toureiros mais famosos de Espanha. Muitos dizem que com esse tento nascera uma estrela.

O Real Bétis está a transformar-se numa escola de extremos que procuram atingir a elite de elite e os primeiros frutos estão a destacar-se longe do Benito Villamarín. Jesús Rodríguez e Assane Diao são exemplos a seguir, pese embora estejam no Como 1907. Rodri Sánchez, Juan Cruz e Pablo García podiam ter sido felizes em Sevilha, mas a inconsistência não permitiu que alcançassem a história bonita que Aitor Ruibal está a escrever, mesmo que sejam mais talentosos que o catalão.

Os futuros jovens de todas as posições estão avisados. Há espaço no clube para conseguirem trabalhar e sonharem com um lugar no plantel principal. Porém, se a dedicação for abaixo dos 100%, Manuel Pellegrini não vai perdoar. Se o Sporting é uma escola de elite de extremos, o Real Bétis também o procura ser. A exigência está no máximo. Ser Joaquín é o sonho de todos. Quem o conseguirá alcançar?

Ricardo João Lopes

Redação Bola na Rede · ver artigos

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