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Lisboa já não é terra de leões escoceses | Benfica 4-1 Celtic

Manuel Nascimento · 6 min

Camilo Durán Celtic Samuel Dahl Benfica
Foto: Carlos Silva / Bola na Rede

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O Celtic regressou à cidade onde se fez gigante e encontrou um Benfica que mudou o lado por onde faz mal. Análise ao 4-1 na Luz, com o corredor direito à cabeça.

Há 59 anos, o Celtic veio a Lisboa e saiu daqui com uma Taça dos Campeões Europeus e uma alcunha para a eternidade. Os Lisbon Lions, os Leões de Lisboa, o primeiro clube britânico a ganhar a prova, com uma equipa inteira nascida a trinta quilómetros de Glasgow. Foi no Jamor, num campo que já não recebe finais, e é dos episódios mais bonitos da história do futebol europeu. Quinta-feira à noite, os herdeiros dessa camisola voltaram à cidade. A memória durou cinco minutos.

Foi esse o tempo que Jhon Durán levou a pegar na bola, a colocá-la na marca de grande penalidade e a picá-la ao meio da baliza de Sinisalo, de Panenka, com o jogo ainda a aquecer e a Luz ainda a sentar-se. Há golos que valem um; este valeu bastante mais, porque disse ao Celtic, logo ali, que a noite ia ser difícil. E foi. Ao intervalo já ia 3-0, os escoceses já tinham acertado nos ferros por duas vezes sem levar nada daí, e Marco Silva reconheceria depois aquilo que qualquer pessoa no estádio tinha percebido: o jogo acabou por ser mais fácil do que realmente se fazia supor.

Benfica Jogadores
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

A parte verdadeiramente interessante, porém, não está no marcador. Está no lado do campo por onde o Benfica decidiu fazer mal. Toda a identidade ofensiva desta equipa, desde agosto, se construiu à esquerda, com Schjelderup aberto a dar largura, Prestianni a flutuar na meia-esquerda e Dahl a chegar como terceiro homem a partir de uma linha mais atrasada. Foi assim contra o Estoril, foi assim em Moreira de Cónegos, foi assim quase sempre. Frente ao Celtic, o peso caiu para o lado contrário, e foi ali que o jogo se resolveu.

Bah, Lukebakio e Aursnes montaram no corredor direito uma teia que o Celtic nunca chegou a desmontar. Lukebakio jogou muitas vezes colado à linha, prendendo o lateral adversário à sua posição; Bah apareceu mais projetado do que o habitual, com rutura atrás de rutura, quase como se fosse extremo e não lateral; e Aursnes, por dentro, fez o trabalho que ninguém aplaude e que sustenta tudo o resto. Quando o lateral subia, era o norueguês a baixar para lhe cobrir as costas. Quando o lateral ficava, era o norueguês a aparecer entrelinhas. Uma equipa que ataca com gente e não fica exposta tem sempre alguém a fazer isto.

O 2-0 é a fotografia da ideia. Aos 23 minutos, Prestianni desenhou o cruzamento da esquerda e foi Bah quem apareceu ao segundo poste para encostar o lateral direito a terminar a jogada dentro da área, no lado oposto ao seu. Não é um detalhe menor para quem vinha a depender de um corredor só. O Benfica passou a ter dois, e isso muda o que os adversários podem preparar durante a semana.

Atrás, a construção manteve-se no 3+1 que já vinha de trás, com Dahl a juntar-se aos dois centrais e Palhinha a dar apoio à frente dessa linha. É um desenho que oferece sempre um homem a mais perante as primeiras linhas de pressão e que liberta o lado contrário para a projeção. Na segunda parte, a entrada de El Karouani mexeu com isso, e aí está uma dinâmica que vale a pena seguir nas próximas semanas: o neerlandês é um lateral muito mais progressivo, que procura o terreno à frente com naturalidade, enquanto Dahl progride de outra maneira, por dentro e a partir de trás. São dois perfis para a mesma posição que pedem construções diferentes. Marco Silva vai ter de escolher, jogo a jogo, qual deles serve melhor o plano.

Camilo Durán Celtic Samuel Dahl Benfica
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Do outro lado do campo, continua a acontecer uma coisa que já não é novidade mas que não se cansa de impressionar. Gianluca Prestianni fez mais uma noite endiabrada, com as duas assistências do jogo, o cruzamento para Bah e o passe que isolou Jhon Durán aos 36. Mais uma titularidade, mais noventa minutos nas pernas, mais um adversário incapaz de o segurar. O argentino foge pela esquerda, aparece por dentro, troca para a direita, e em nenhuma dessas zonas parece estar fora do sítio. Marco Silva disse em conferência de imprensa que acredita que ele ainda pode melhorar, o que diz mais sobre a exigência do treinador do que sobre o jogador.

Jhon Durán, esse, deixou outra nota. Além do penálti e do bis, ofereceu uma coisa que esta equipa não tinha: um ponta de lança que ataca a profundidade com aquela envergadura. Não é o avançado posicional que Pavlidis é, não vem buscar jogo da mesma forma, não liga a equipa com a mesma naturalidade. Mas tem o físico, tem a rutura e tem o descaramento de bater um penálti daqueles aos cinco minutos de um jogo europeu. Para uma época com duas frentes, dois avançados que resolvem de maneiras diferentes valem mais do que dois iguais.

E depois houve a segunda parte, que é onde mora o único reparo da noite. Com o jogo aparentemente arrumado, o Benfica soltou o controlo sem necessidade, e o Celtic, que nada tinha a perder, cresceu. Camilo Durán, o melhor dos escoceses e já com dois ferros no currículo da noite, passou a referência ofensiva e reduziu de cabeça aos 63, num cruzamento de Hassan. Esteve perto do 3-2. Se não chegou lá, foi pelos mesmos ferros que já o tinham travado e por Trubin, que apareceu quando foi preciso. Só aos 89, num contra-ataque fechado por Pavlidis, é que a Luz voltou a respirar fundo.

Fica, no fim, um Benfica com seis pontos em dois jogos e com as duas deslocações mais exigentes desta fase de liga já arrumadas. Fica, sobretudo, uma equipa que começa a ter mais do que um caminho para chegar à baliza adversária, e esse é o sinal mais promissor de todos. Do lado contrário fica um Celtic de Martin O’Neill que vem a ser criticado, depois do Old Firm perdido para o Rangers e de um arranque europeu que não corresponde ao que o clube quer ser nestas provas.

Os Leões de Lisboa voltaram à cidade que os batizou. Mas a cidade, essa, já tinha outros donos.

Bola na Rede em conferência de imprensa

Bola na Rede: Na segunda parte, o Camilo Duran jogou como avançado centro e a equipa acabou por conseguir criar mais perigo. Que alterações táticas fez da primeira para a segunda parte?

Martin O’Neill: Achei que fomos um pouco passivos na primeira parte. Na segunda parte fizemos duas substituições, com a entrada do Hassan por um dos lados a criar algumas jogadas em apenas 10 minutos. Sei que foram talvez dois remates um pouco fracos, mas no geral ele acabou por criar o golo para nós. O Duran, como mencionei antes, jogou a avançado-centro, juntamente com o Ousmand. A entrada desses jogadores deu-nos um verdadeiro impulso: fomos para cima do adversário, causámos-lhe problemas e, pelo número de ocasiões criadas, provavelmente deveríamos ter conseguido algo mais. Claro que o Benfica foi muito perigoso e também podia ter marcado mais golos, mas fiquei muito satisfeito e isto dá-nos a determinação necessária para tentar a qualificação.

Manuel Nascimento

Redação Bola na Rede · ver artigos

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