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Acredito que o mérito do outro não nos tira nada. Desmerecê-lo rouba-nos tempo para construir o nosso caminho.
Gosto de acreditar que existe nobreza no acto de saber aplaudir genuinamente. Aplaudir é um gesto pequeno que diz muito sobre quem o faz. Nesse sentido, há uma coisa que me parece cada vez mais difícil de encontrar nas conversas do dia-a-dia. Falo da capacidade de reconhecer o mérito dos outros sem sentir a necessidade de os diminuir.
A semana do 16º aniversário do Bola na Rede começa com a ressaca das manifestações pela habitação em Lisboa e no Porto, das presidenciais no Brasil, de um El Clásico em Espanha e da Bola de Ouro. É curioso observar como temas tão diferentes acabam, tantas vezes, por esbarrar na mesma dificuldade.
Se alguém se destaca, é porque teve melhores condições. Se alguém defende uma ideia, é porque quer esconder determinadas falhas. Seja nas redes sociais, nas conversas de rua ou, principalmente, nos meus grupos de WhatsApp, a ideia vem com uma roupa diferente, mas o alfaiate é o mesmo: “sim, mas…”. Sim, mas ganhou por causa do árbitro. Sim, mas a concorrência este ano é fraca. Sim, mas se jogasse noutra equipa não era assim. Sim, mas só chegou ali porque teve o contexto certo.
Não defendo que deixemos de questionar decisões, discutir critérios ou contextualizar resultados. Continuo a içar a bandeira de que o pensamento crítico é necessário. O problema começa quando deixamos de procurar compreender o mérito e passamos a procurar argumentos com o simples objectivo de o desvalorizar.
Não escrevo isto de cima de um pedestal. Como praticante de jiu-jitsu, no fim de cada luta cumprimento o adversário e agradeço-lhe, ganhe ou perca, independentemente do meu nível de satisfação ou azia. Transportar esse comportamento de dentro para fora do tatame é o verdadeiro desafio. Já fui o do “sim, mas” , e ainda o sou mais vezes do que gostava. Contudo, apercebo-me de que, em todas essas vezes, quem saiu mais diminuído fui eu, não o outro.
Nos últimos anos, tenho lido sobre filosofia e, entre os autores, destaca-se Séneca, o filósofo romano que defendia que quem se atormenta com a felicidade alheia nunca será feliz. Por palavras minhas, acredito que o mérito do outro não nos tira nada. Desmerecê-lo rouba-nos tempo para construir o nosso caminho.
Foi isso mesmo que se viu na gala da Bola de Ouro, celebrada ontem em Londres. Quando Harry Kane foi chamado ao palco, Michael Olise, seu colega de equipa, conhecido por mostrar pouco as emoções e ele próprio um dos finalistas, não escondeu um sorriso franco.
A noite passada trouxe ainda dois exemplos de quem soube esperar. O já mencionado Harry Kane foi durante anos gozado por não conquistar títulos colectivos e só levantou o primeiro troféu da carreira aos 31 anos. Seguiu um caminho pouco tradicional, mas nunca parou de trabalhar, até que, por fim, o prémio individual mais cobiçado do futebol lhe chegou. Já Alexia Putellas, vencedora da Bola de Ouro feminina, tinha ganho duas anteriormente, a segunda já com o ligamento cruzado rompido, uma lesão que conheço bem. Voltou sem ser a mesma, viu a companheira e amiga Aitana Bonmatí ocupar-lhe o lugar e esperou quatro anos pela terceira. Nenhum dos dois ganhou por esperar sentado. Ganharam porque, enquanto esperavam, continuaram a trabalhar.

É humano ambicionar mais e querer o que alguém conseguiu antes de nós. Resta decidir o que fazemos com isso: desmerecer quem lá chegou primeiro, ou reconhecê-lo e usar o tempo que gastaríamos a diminuí-lo para nos preparamos. Se queremos receber os nossos méritos, temos de dar os dos outros. Diz-se que a sorte é preparação mais oportunidade, e a oportunidade não se agenda, só se recebe. Sobra-nos a outra metade da equação, que é a única que controlamos e nos devemos focar.
Praso, um dos membros dos Alcool Club, conta na música “Equilíbrio” que «se a vida me convidar para dançar, eu tenho ensaiado e vou ser um bom par». É assim que ambiciono viver. Isto é, a preparar-me tão bem que esteja pronto no dia em que chegue a minha vez de dançar. Até lá, continuo a aplaudir quem já está na pista, até porque aplaudir não custa assim tanto.










