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Análise ao recente escândalo em torno da seleção nacional, envolvendo Pedro Proença, Jorge Jesus e maioritariamente Cristiano Ronaldo.
Existem momentos em que no espaço futebolístico e mediático não se fala noutro tema. Sendo esses momentos absolutamente inevitáveis, em muitos deve haver consciência por parte dos protagonistas, ações algo dignas e a capacidade de seguir em frente. Assim deve ser, não só pelo respeito por quem está a ver (o país e até o mundo), mas sobretudo pelo respeito por si próprios. Assim foi, tem sido e devia ser o recente escândalo em torno da seleção nacional, envolvendo Pedro Proença, Jorge Jesus e maioritariamente Cristiano Ronaldo.
Em vez de ir cronologicamente e ao pormenor a cada um dos acontecimentos que fizeram parte desta polémica, que já foram repetidos várias vezes pelos média ou tentar perceber, ponto por ponto, quem teve razão e quem não teve, que seria muito aborrecido e sinceramente já é algo enjoativo (pois há teorias e boatos sobre o que qualquer uma das partes terá dito ou feito), é mais necessário colocar um ponto final em todo este embaraço. Todo este imbróglio deixa fragilizado o prestígio da Federação Portuguesa de Futebol (mais que a do seu Presidente), a figura do Selecionador Nacional e ainda mais, o legado e a imagem de Cristiano Ronaldo.
Apenas o grupo de trabalho que participou nestes primeiros quatro jogos da UEFA Nations League consegue sair disto entre os pingos da chuva, fruto das boas e esforçadas exibições e resultados. Aquilo que é mais louvável acima de tudo e mais, mais louvável que qualquer jogador individualmente e o ruído que possa criar.

Para resolver de vez esta grande confusão, é necessário perceber de forma breve como isto começa. A escolha acertada do ponto de vista desportivo de Jorge Jesus para Selecionador Nacional iria acarretar daí para a frente momentos de ordem dentro do grupo de trabalho, a lealdade a uma forma de trabalhar e de um estilo de jogo. Além de momentos de alguma tensão e sui generis do ponto de vista comunicacional.
É certo que isto não foi ponderado em primeiro lugar, porque a vinda de Jesus era uma solução perfeita para oferecer mais rendimento desportivo, sobretudo exibicional, após o triste e deprimente ciclo de Roberto Martinez. No entanto, percebia-se que Jorge Jesus não ia ser o homem ideal, independentemente da sua capacidade relacional e decisão final, para lidar com o pesado dossier Cristiano Ronaldo. Juntando a estes dois “monstros”, existe Pedro Proença que também é conhecido pelo seu estilo particular de atuar.
Portanto, verifica-se hoje que existia há três meses (quando Jorge Jesus foi apresentado) o princípio de um cocktail que poderia ser explosivo. Depois, foi muito questionável a opção do novo Selecionador querer manter Ronaldo entre as opções para a sua equipa. Apesar de ser perfeitamente defensável tanto a ideia de manter o capitão entre os convocados para um papel mais secundário dentro do campo e mais extra fora do mesmo, como a ideia de que CR7 se deveria ter retirado da equipa nacional após o Mundial norte-americano do verão passado, há margem para mais visões.

Entre as quais, é perfeitamente respeitável e verificável a ideia de que Cristiano Ronaldo deveria ter deixado a Seleção Portuguesa a seguir ao Campeonato do Mundo do Catar em 2022. Visto que além de exibições razoáveis (por vezes boas) em jogos da UEFA Nations League (que ajudou a vencer tanto a Alemanha como a Espanha em 2025) e qualificações para o Euro 2024 e Mundial 2026, Cristiano Ronaldo foi tendo claramente um decréscimo de rendimento e o seu contributo para a equipa nacional deixou de ser imprescindível.
Assim se verificou claramente nos Campeonatos da Europa de 2024 e do Mundo de 2026, em que Ronaldo estava claramente desenquadrado daquilo que a equipa poderia dar, por vezes atrapalhava jogadas, tinha dificuldade em dar um ou dois toques na bola sem a perder e o coletivo funcionava melhor com a sua ausência. Algo que mais uma vez se verificou recentemente, com Portugal a ser muito mais consistente nas exibições contra a Noruega e Dinamarca do que contra o País de Gales.
É verdade que Cristiano Ronaldo é o melhor jogador da história da Seleção Nacional e um símbolo do país, um passado que deve ser lembrado. No entanto, há espaço para o passado, para o presente e para o futuro em cada situação no futebol. Na presente situação, não está em causa o passado de Ronaldo, como os próprios fãs do jogador por vezes querem fazer querer, mas sim o presente e o futuro ainda mais. Duas fases finais em que o capitão português faz três golos, dois dos quais ao Usbequistão, um de grande penalidade contra a Croácia e um rendimento que influenciava negativamente a ação da equipa, foi o que ficou do tempo que Ronaldo ficou a mais na equipa nacional desde 2022 até ao momento.
Uma opção que só serviu para prejudicar o próprio Cristiano Ronaldo, em detrimento de ter percebido (como muitos no passado o fizeram e bem) que os seus melhores tempo como jogador tinham terminado. Reforçado o argumento de que o rendimento desportivo de Ronaldo já não justificava ser uma opção indiscutível na convocatória da Seleção e ainda mais no onze inicial, a quádrupla jornada da UEFA Nations League nas últimas duas semanas trouxe um conjunto de episódios que questionou outros parâmetros: a ética, o psicológico e o da sua (questionável) liderança.
Já muito foi falado o episódio de Jorge Jesus ter colocado o capitão da Seleção Portuguesa a aquecer por cerca de 30 minutos e depois não ter entrado no jogo frente à Noruega. Independentemente de Jorge Jesus ter prometido ou não que Ronaldo entraria neste jogo ou em algum dos seguintes, ou quaisquer outras promessas (que raramente um treinador deve fazer), tal não justifica as ações de CR7 de seguida. É certo que Jorge Jesus está bem longe de ser o melhor exemplo de comunicação e da relação entre jogador e treinador e entre treinador e dirigente, tal se comprova com alguns episódios do treinador nas passagens pelo Benfica (Cardozo ou Pizzi) e pelo Sporting (Slimani ou Bruno de Carvalho).
Junto a este ponto, é de salientar que Jorge Jesus foi incorreto com Cristiano Ronaldo mais que uma vez nesta polémica, se for verdade o que se lê no comunicado de Ronaldo que se falará de seguida. Sendo também certo que o técnico errou ao colocar Cristiano Ronaldo a aquecer por tanto tempo sem o colocar em jogo, tal não justifica que o capitão da Seleção (mais uma vez) abandonasse o grupo no terreno após o jogo e de seguida deixasse o estágio da Seleção da forma como o fez. Uma atitude deplorável de alguém que enverga a braçadeira da equipa nacional há já 17 anos.
Tal como é muito triste, chegar-se ao ponto de um treinador alegadamente ter de pedir desculpa a um jogador por o ter colocado a aquecer e depois não o colocar, caso contrário a situação pioraria provavelmente. Este último é um episódio que ao verificar-se verdade, então roça mais no aspeto psicológico de alguém se achar acima de quem manda na equipa e que devido ao seu estatuto histórico tem de ter um tratamento especial em todas as circunstâncias. Aqui até se deveria equacionar se um dos protagonistas desta história estaria bem relativamente à sua saúde mental, visto que se trata de um ser humano e nenhum está imune a fases negativas neste ponto.
Após uma semana de silêncio, vem um comunicado inédito que até poderia ser muito positivo e saneador se não fosse absolutamente surreal de seguida. Sendo um comunicado com uma parte bem conseguida por parte da comunicação de Ronaldo, nomeadamente quando pede desculpa pelos erros na Noruega após o jogo, por ter abandonado o estágio da forma como o fez e até ao “pedir” que sofra um castigo pelas suas ações, sem atenuantes por ser quem é. No entanto, este conjunto de argumentos favoráveis e que foram bem jogados por Cristiano Ronaldo, ficam em segundo plano quando se vê os outros presentes no comunicado.
Não se percebe porque é que uma reunião é presenciada por Simão Coutinho e Tiago Craveiro, quando nenhum dos dois faz parte da FPF. Tal devia ser especificado. Não se percebe porque é que Ronaldo “pede” que seja comparado a Pelé e Maradona quando supostamente Jorge Jesus explicaria que esteve mal quando o colocou a aquecer tanto tempo. Tal é bizarro, porque sendo perfeitamente legítimo que Ronaldo seja comparado aos históricos brasileiro e argentino, que seja o mesmo a colocar essa comparação já soa a algo diferente.
Não se percebe que Ronaldo tenha esperado que Jorge Jesus fosse bem-sucedido nos pontos que queria que tivesse dito em conferência de imprensa. Tal é deduzido, porque se trabalharam juntos (e bem durante um ano no Al-Nassr, como ambos já disseram) então sabe-se que Jorge Jesus não é politicamente diplomata nas conferências de imprensa em geral, quanto mais a dizer o que querem que o mesmo diga.
Não se percebe porque é que Ronaldo pretendia que Jesus dissesse que o quer muito na Seleção, por acreditarem um no outro tal como foi no Al-Nassr. Esta é uma situação que fica aberta a interpretações diversas. Fica-se na dúvida se foi ou não Cristiano Ronaldo que decidiu escolher Jesus para o clube saudita e para a equipa nacional. Acima de tudo fica a dúvida se é mesmo Jorge Jesus a mandar na equipa como diz, ao alegadamente querer de volta um jogador que abandonou a Seleção da forma como abandonou.
Por fim, também não se percebe que Ronaldo queira que se lembre que ” é o jogador que mais autógrafos dá, que mais selfies tira, que mais acarinha os adeptos”. Mesmo sendo verdade, esta é mais uma “cereja no topo do bolo” na ideia que Ronaldo é ainda muito importante para a Federação em vários aspetos que ficam acima da vertente desportiva. Além de revelar mais uma vez os traços de personalidade que lhe apontam várias vezes como crítica, nomeadamente o seu alegado egocentrismo.
Contudo, fica marcada nesta polémica de forma muito grave, a alegada ameaça de despedimento de que Jorge Jesus terá sido alvo por parte de um assessor de Cristiano Ronaldo, caso não pedisse desculpa ao jogador. A ser verdade, isto é surreal e mais parece que (e para não dizer mais) é Cristiano Ronaldo que manda na Federação e não Pedro Proença.

Para que se apazigue de vez todo este furacão que assolou as televisões, redes sociais e meios de comunicação portugueses e por esse mundo fora com imensos comentários e teorias, é necessário tirar algumas conclusões e que se siga em frente. É óbvio que Pedro Proença e Jorge Jesus terão de repensar alguns aspetos nas suas posturas. O atual Presidente da FPF na sua forma de liderar e gerir uma crise e o Selecionador Nacional na sua relação comunicacional e particular com os jogadores, já que na comunicação em geral Jorge Jesus é assim e dificilmente será outro.
Já Cristiano Ronaldo, não dá para perceber como é que ainda há quem o considere como uma carta que pode voltar ao baralho depois de tudo o que se sucedeu. Pedindo emprestada a expressão que Jorge Jesus usou na sua apresentação sobre Neymar, Cristiano Ronaldo na Seleção… finish. Não é legítimo considerar que como a marca CR7 é maior do que a Seleção Nacional Portuguesa per si, que o jogador deve regressar. Depois do sucedido e ainda mais pela equipa estar a funcionar de feição com este grupo de trabalho e treinador, não há razões para voltar a fazer pior depois de agora se ter feito melhor em termos desportivos. Aliás, não é por acaso que nenhum atual jogador da Seleção Nacional colocou um like ou um comentário no comunicado de CR7. Um silêncio que vale mais que mil palavras.
Mesmo que o afastamento definitivo de Ronaldo possa significar uma quebra financeira da FPF, convém lembrar que ninguém está imune a uma, que a mesma é ultrapassável e seria menos negativa do que ficar dependente de um jogador e do seu ego. Basta revisitar a história, para vermos que os ciclos se renovam e surgem novas soluções.
Após a saída de Eusébio e dos “magriços” dos anos 60, quem acreditava que anos depois Portugal teria uma geração de “patrícios” que chegaria às meias-finais do Euro 1984 e colocaria Portugal num Campeonato do Mundo em 1986? Após o envelhecimento de jogadores como João Pinto, Veloso, Rui Águas, Vítor Paneira, Jaime Magalhães, Paulo Futre ou Rui Barros no início dos anos 90, quem acreditaria que Portugal teria uma “geração de ouro” constituída por Figo, Rui Costa, João Vieira Pinto, Vítor Baía ou Fernando Couto? Após a saída da “geração de ouro”, quem acreditava que Cristiano Ronaldo (entre outros como Nani, João Moutinho, Quaresma ou Pepe) ia ser quem foi? E no tempo após Cristiano Ronaldo, outro tempo virá.
Ninguém é maior que um país ou instituição. Sendo verdade que antes de Cristiano Ronaldo, a Seleção Nacional Portuguesa não tinha qualquer título e hoje, sempre como Ronaldo a capitão, a Seleção tem três títulos (Euro 2016 e UEFA Nations League de 2019 e 2025), também é verdade que fica muito mal dizê-lo. Se a Seleção Nacional teve um estatuto mais considerável durante o tempo de CR7, foi porque antes várias equipas sofreram os “pontapés nas canelas” para o conquistar. Cristiano Ronaldo foi relevante nos três percursos, mas não foi o jogador decisivo em nenhuma das três finais ganhas. (em duas, já nem estava em campo quando se decidiram), mas sim o grupo de trabalho.
Aliado a um eventual regresso, está indefetivelmente ligada a questão da braçadeira. Seria incompreensível que víssemos novamente Cristiano Ronaldo a capitão de Portugal depois de vários episódios de narcisismo desportivo e de ter virado as costas aos companheiros. A sua liderança na seleção portuguesa sempre mais se baseou na sua determinação de vencer e no estatuto de craque decisivo do que propriamente líder de um grupo de homens que se preocupava com a função de cada setor da equipa.
Em termos de liderança serena e de respeito para com os colegas, capitães como Mário Coluna, Manuel Bento, Vítor Baía, Fernando Couto, Rui Costa e Luís Figo ficam de forma mais marcante do que a Cristiano Ronaldo. A par de todos os mencionados, nem mesmo craques como Eusébio ou Futre (que teve imensos desaguisados com dirigentes e treinadores, mas sempre defensor dos colegas) tiveram atitudes semelhantes às verificadas nas últimas semanas.
Por fim, fica a questão do tão falado jogo de despedida ou de homenagem. Parece muito difícil de tal se realizar após tais episódios e comportamentos. É até uma ironia do destino que na mesma altura que Ronaldo passa por esta situação na Seleção Portuguesa e parte final da carreira devido aos seus comportamentos, Lionel Messi retira-se da Seleção Argentina de forma completamente distinta. Com dignidade e uma classe absolutamente notáveis, com um estádio cheio a aplaudir e a gritar o seu nome. Já para não falar de ter uma prestação desportiva absolutamente singular com 39 anos e após um Mundial que quase venceu coletivamente, com um rendimento absolutamente espantoso (e não miserável) de participação em 12 golos nos oito jogos em que participou.
O saber que chegou ao fim de um ciclo na sua Seleção, saber que o fim se aproxima (embora ainda estejam uns espetáculos para dar) e uma liderança serena em que procura dar o exemplo e ajudar os companheiros, marcam a diferença de dois fins de dois jogadores que marcaram o futebol nas últimas duas décadas. Aqui, há que dizer que Ronaldo esteve muito bem na mensagem enviada a Messi aquando do seu jogo de despedida.
No entanto, os últimos quatro anos na Seleção Portuguesa, constantes episódios negativos aliados a exibições mais fracas, deixam praticamente nula a margem para Ronaldo ter o fim que até teoricamente mereceria do ponto de vista desportivo como uma homenagem. Contudo, o mesmo período e nomeadamente as últimas duas semanas demonstram que o egocentrismo tudo pode destruir. Como alguém histórico na política portuguesa dizia “obviamente, demito-o”, aqui é caso para dizer que Cristiano Ronaldo, obviamente finish.











