Em Portugal há muitas jogadoras a procurar a transição no futebol feminino. Este é um excerto da Antevisão da Primeira Liga Feminina 2026/27.
Para ajudar a antecipar a nova temporada, o Bola na Rede falou com Catarina Realista, média do Racing Power, e com Fernando Meira, treinador do Tadim, da 4.ª Divisão do Futebol Feminino e com passagens na formação de Braga, Vitória SC e Gil Vicente no feminino.
Lê na íntegra o artigo Especial Antevisão da Primeira Liga Feminina 2026/27 e o retrato do Futebol Feminino em Portugal do Bola na Rede. Abaixo, um excerto relativo ao futebol jovem e ao que precisa de ser feito.
O futebol jovem português
Em 2022/23, havia 10.423 jogadoras federadas no futebol feminino em Portugal, segundo o Portugal Football Observatory da FPF, no último estudo realizado sobre o tema. Seguindo a tendência de crescimento, o número deve ser superior.
De momento, nem a Primeira Liga Feminina pode ser considerada 100% profissionalizada embora, naturalmente, haja equipas que o sejam. Pedro Proença, presidente da FPF, estabeleceu o ano de 2032 como o objetivo para que aconteça.
Até lá, reforça Fernando Meira, é importante pensar no modelo de transição do futebol de formação para o futebol sénior.
«Quando chegam aos sub-19 e as equipas não têm equipa B, ficam no limbo da transição. Ou vão para o profissional ou não. Muitas delas estão na universidade, vão estar sobrecarregadas com questões pessoais, e vão ter que esperar uma resposta do clube. Vai provocar um desgaste emocional e faz com que muitas delas caiam», explica o treinador.
Nas seleções jovens, o desafio é semelhante. Catarina Realista, internacional jovem por Portugal, reflete sobre a dificuldade da transição dos sub-19 para a equipa principal, um fenómeno que não é exclusivo do futebol feminino.


«Nós éramos sub-19 e, de repente, deixas de jogar com jogadoras com 18 anos ou 19 e passas para a equipa A. Poucas são as jogadoras que têm essa transição imediata e a mesma coisa para os homens. Tens o João Félix, que aos 18 anos foi logo para a equipa A, mas regra geral há todo um percurso até lá chegar», destaca a jogadora.
O caminho vai sendo dado e, com o Mundial Sub-20 a decorrer, surge um exemplo prático de como a transição que mais atletas retira do desporto pode ser suavizada. Se as Navegadoras se estão a habituar a jogar por mares nunca dantes navegados, então que já conheçam o barco, a bússola e saibam ler os mapas.
«A Federação e a UEFA estão a criar competições também para escalões intermédios que não sejam as Sub-19. Termos uma competição Sub-20 e as Sub-23, se não estou em erro, vão tendo torneio. Mesmo que sejam amigáveis, dão-te experiência internacional. Já não há aquela ânsia no primeiro jogo de ir para a seleção», explica Catarina Realista.
Nos clubes, o caminho passa, garante o treinador Fernando Meira, por uma maior profissionalização dos processos na base da pirâmide. Para tal, confessa, seria importante que as jogadoras com experiência de formação nos principais clubes, sem continuidade nas equipas séniores, sejam capazes de alavancar mudanças em divisões inferiores.
«Cabe aos clubes menores, mesmo de Terceira e Quarta Divisão começarem a acordar para receber estas atletas. Elas vêm com uma experiência e com uma exigência totalmente diferente e precisam de treinos técnicos e táticos para dar continuidade. Elas chegam já com uma maturidade diferente daquelas que estão no clube. São meninas novas, mas que já têm muita experiência acima dessas», destaca ainda Fernando Meira.


O raciocínio é partilhado por Catarina Realista, que olha para a forma como as experiências das jogadoras podem permitir o crescimento de estruturas menos desenvolvidas.
«Os clubes grandes, e mesmo não sejam os grandes, já têm uma estrutura. Muitos clubes já têm uma estrutura porque vêm do futebol masculino e já viram o que é que é uma realidade a sério. Algumas jogadoras na formação já chegaram a treinar com as equipas A, e portanto, já começam a ver a dimensão e onde podemos chegar. Já sabem que temos o direito e que isto são os standards mínimos que devemos ter e devemos exigir», vinca a média.

