Pelo nome de João Saraiva, são poucos os que chegarão diretamente ao homem em questão, pela alcunha de Madjer, são poucos os que não se lembraram nas genialidades de um dos melhores de sempre a jogar na areia, futebol de praia e não futebol na praia, como o próprio distingue. Outrora inconfundível, como um terceiro elemento da praia para lá das ondas do mar e dos grãos de areia, é agora como diretor-técnico nacional do futebol de praia na Federação Portuguesa de Futebol que continua a contribuir para o crescimento da modalidade. Foi com esta pasta nas mãos, que respondeu à entrevista do Bola na Rede à margem do Portugal Football Summit, para analisar o presente e os desafios do futuro da modalidade.
«O futebol de praia tem vindo em crescendo».
Madjer
Bola na Rede: Olá, Madjer. Obrigado pela disponibilidade. De maneira muito geral, como é que vê, hoje em dia, o futebol de praia, no geral, e também em Portugal?
Madjer: O futebol de praia tem vindo em crescendo. Apesar de eu gostar de frisar que às vezes as pessoas não identificam esse crescimento, com a perda de alguns clubes de renome, tal como o Sporting e o Sporting de Braga, que deixaram de ter a modalidade, mas a verdade é que o número de praticantes tem aumentado. Este ano, aumentámos em 30% o número de praticantes, 10% o número de praticantes na formação, 15% o número de praticantes no feminino também. Acho que estes são sinais de que, realmente, caminhamos para um crescendo. Também houve um aumento do número de clubes e também estamos a crescer em número de seleções nacionais, com a criação da seleção sub-20, campeã da Europa, e agora, mais recentemente, com a seleção sub-15.
Bola na Rede: Destacou esta descentralização do futebol de praia, com alguns clubes grandes a sair, mas que também permite, obviamente, a ascensão de outros clubes, talvez com menos protagonismo noutros lados. Essa democracia, quase, no futebol de praia também pode ser positiva para o desenvolvimento da modalidade?
Madjer: Eu acho que tem sido positiva. Já começo a ver isso com os dados que nós temos. Tem sido, já, muito positiva. Isto porquê? Porque estamos a ter clubes que estão na modalidade e estão estruturados, ou seja, não são clubes intermitentes. Não são aqueles clubes que hoje estão e amanhã não sabemos se vão estar. Muitos deles só têm a modalidade de futebol de praia, que também é importante. Fazendo aqui um paralelismo com o futsal, o futsal também tem muitos clubes que só têm a modalidade, então é muito mais fácil serem sustentáveis. É isto que tem vindo a acontecer no futebol de praia. Temos cada vez mais clubes, alguns deles com mais uma ou duas modalidades, mas com grande foco no futebol de praia.
«Nós estamos a conseguir levar o futebol de praia cada vez a mais regiões, estamos a conseguir envolver mais associações com o futebol de praia e mais clubes que nunca tinham tido contacto com o futebol de praia».
Madjer


Bola na Rede: Portugal é um país com uma costa tremenda, portanto, com condições muito favoráveis à prática do futebol de praia. Muitas vezes até conhecido quase como um jogo de férias, uma distração no verão. Como é que se permite fazer a transição de uma modalidade de diversão, nos tempos livres, para um cenário mais competitivo, como é a modalidade em si?
Madjer: Se calhar, tocava aqui num ponto que acho que é importante, que são as infraestruturas. Nós falamos, claro, que temos uma costa maravilhosa, e quem nos dera poder fazer competições e treinos sempre na nossa costa. Por vezes, não é possível, até porque às vezes não há infraestruturas ou as praias têm concessões e não o permitem. E graças aos municípios, mesmo do interior, têm sido criadas cada vez mais infraestruturas urbanas, ou seja, nós estamos a conseguir levar o futebol de praia cada vez a mais regiões, estamos a conseguir envolver mais associações com o futebol de praia e mais clubes que nunca tinham tido contacto com o futebol de praia por causa da distância com a nossa costa. E acho que isso também é um bocado fruto deste novo enquadramento mais profissional. Quando falamos de mais profissional, falamos da base da pirâmide, ou seja, dos campeonatos distritais, que cada vez são mais longos e cada vez têm mais clubes fidelizados também.
Bola na Rede: E o que falta fazer para o futebol de praia continuar esse crescimento? Há, certamente, alguns aspectos a melhorar. Quais são os principais?
Madjer: Nós internamente, e agora nesta palestra que tivemos aqui sobre o futebol de praia, falou-se muito da promoção. Acho que temos aqui um produto excecional para continuar a ser promovido, pelo número de golos, pela inconstância de resultados, pela espetacularidade. Acho que nós temos esse papel e, enquanto federação, temos esse papel também. Também temos aqui a questão da aposta na formação. Esta aposta na formação vai fazer com que cada vez mais crianças queiram vir para o futebol de praia, sejam do sexo masculino ou do sexo feminino. Eu acho que estes são daqueles pontos que nós precisamos cada vez mais solidificar para realmente termos um futebol de praia mais forte. Quem vai ser agradecido é Portugal e são as associações nacionais.
Bola na Rede: A nível internacional, qual é o papel de Portugal no crescimento e na sustentabilidade da modalidade?
Madjer: Nós somos uma federação que é vista como um exemplo. Tínhamos três federações convidadas para esta palestra sobre futebol de praia, sobre a visão, sobre o futuro e eles dizem que veem a nossa federação como um exemplo. Nós estamos aqui para ajudar as outras federações. Só juntos é que conseguimos crescer e só juntos é que conseguimos ter uma competição equilibrada. Poderia estar aqui a falar, porque tenho uma das melhores seleções do mundo, tanto no masculino, como no feminino, como na formação, e era fácil estar a dizer que era mais fácil para nós estar a jogar contra federações com menos impacto competitivo, mas a verdade é que isso não interessa nem ao espectador nem a nós. Nós cada vez queremos mais competições competitivas e só assim conseguimos crescer todos juntos.
Bola na Rede: Qual a importância da competitividade para permitir a Portugal crescer, nesse sentido?
Madjer: Temos sofrido um bocadinho neste último ano, realmente porque algumas federações apostaram forte na modalidade e cresceram. Nós, fruto de uma aposta tardia na formação, agora vamos sofrer, como se diz no bom português, as dores de crescimento. Mas é um processo. É um processo de mudança, é um processo de aposta, é um processo de identificação do talento português. E estamos neste caminho.
«Quando cheguei, jogava futebol na praia, que é diferente».
Madjer


Bola na Rede: Pensando no jogador de futebol de praia, há alguma diferença estruturante e estrutural que possa vir do facto de a formação começar a ter impacto, no sentido de haver comportamentos mais modernizados, haver outro tipo de destaque em questões táticas, por exemplo. Há diferença que se perspetiva na criação do jogador ou do perfil do jogador ou continuará a ser sempre muito moldado pela irreverência e pela capacidade de pensar diferente, de fazer diferente?
Madjer: Eu agora vou um bocadinho aqui à formação. Nós começámos com a formação de treinadores e acho que foi também um passo importante da Federação Portuguesa de Futebol. Realmente, qualificámos os treinadores existentes, mas que são treinadores que vêm oriundos do futebol e do futsal. Qualificámos com aquilo que são as nossas ideias no futebol de praia. Com esse trabalho, de há um ano para cá, realmente notámos grandes diferenças nos jogadores. Há alguns clubes que já apostavam na formação, mas nós não lhes dávamos a competição. Agora demos a competição e alguns jogadores, no espaço de um ano, já estão num contexto de seleção A. Vemos também a comunicação dos nossos treinadores a ser uma comunicação não a jogarem futebol na praia, mas a jogarem futebol de praia, ou seja, a passarem esta mensagem, a passarem ideias mais concretas daquilo que é a especificidade da modalidade. Acho que isto foi um ponto de viragem importante e estamos a falar de um ano. Notámos isso nas características que um jogador de futebol de praia tem de ter.
Bola na Rede: Até porque há muitas pessoas que se calhar não estão muito familiarizadas. Qual é a diferença entre jogar futebol na praia e futebol de praia?
Madjer: Eu também, quando cheguei, jogava futebol na praia, que é diferente. Ou seja, é uma modalidade muito específica. Requer uma técnica completamente diferente daquilo que é um contexto de futsal e de futebol. Eu tive o privilégio de passar pelas três variantes no futebol. A minha formação é no futebol 11, depois joguei futsal numa fase em que havia menos competição no futebol de praia, e então, conjugava o futebol de praia com o futsal. E depois, pronto, dediquei-me a 100% ao futebol de praia. As diferenças são essas. É a parte técnico-tática, apesar de nós, agora, cada vez mais irmos ao encontro daquilo que é a tática do futsal em algum tipo de jogadas e bolas paradas. Bebemos muito do futsal porque tem muito esse conceito tático, mas depois, em tempos técnicos, não tem nada a ver com as três variantes. Nós precisamos de ter um controlo muito mais apurado da bola pelo ar porque a areia tanto pode ser um aliado, como pode ser um adversário. Quando recrutamos do futsal e do futebol 11 para ir para o futebol de praia, é isso que nós fazemos. Primeiro é uma experimentação. Depois é fazer com que os próprios atletas percebam as diferenças com os fundamentos básicos do futebol de praia.
«É sempre de louvar o trabalho que foi feito pelo mister Mário Narciso».
Madjer


Bola na Rede: Fala-se muito da importância do pavimento no futebol, no futsal. No futebol de praia, a qualidade da areia também tem algum relevo ou não há grande diferença e basta ter areia para jogar?
Madjer: Não, tem bastante diferença. Aliás, eu faço também assessoria aos municípios quando eles constroem novas infraestruturas desportivas de modalidades de areia e o futebol de praia não fica nada atrás daquilo que são as escolhas do tipo de material para o futsal ou para o futebol 11. Se tivermos uma má areia, vamos ter um mau espetáculo. É como no futebol 11, se tivermos um mau relvado, vamos ter um mau espetáculo, se tivermos um mau piso de futsal, vamos ter um mau espetáculo. No futebol de praia também existem diferenças da areia. Isto pode parecer um bocadinho louco, mas quem andou e quem praticou sabe perfeitamente aquilo de que eu estou a falar. É esta mensagem que nós, pessoas que estão envolvidas com o futebol de praia, tentamos passar não só aos municípios, como aos treinadores, de que realmente o tipo de areia faz toda a diferença.
Bola na Rede: Pensando nessa importância, há algum impacto previsível ou previsto que as alterações climáticas possam ter na própria modalidade, pensando no futuro a curto, médio ou longo prazo?
Madjer: Nós ainda agora tivemos, no Campeonato da Europa, um jogo feminino entre a Ucrânia e a Chéquia que teve de ser interrompido porque em plena Itália, em Ravena, entrou um tornado e o jogo foi interrompido. É daquelas coisas que nós não controlamos, nunca vamos conseguir controlar. Preocupa-nos, como é óbvio, porque não jogamos dentro de um pavilhão, jogamos ao ar livre. Mas isso também poderá acontecer com o futebol. Essas alterações climatéricas são daquelas coisas que nós não conseguimos controlar.
Bola na Rede: Uma das alterações mais predominantes no futebol de praia nacional foi a troca de selecionador nacional, recentemente. Como é que viu essa troca e quais são os novos passos que é preciso dar para Portugal continuar a crescer?
Madjer: Primeiramente, deixar uma palavra de agradecimento ao mister [Mário] Narciso. Ele, sem dúvida, foi um dos grandes motores da promoção e daquilo que foram as conquistas da nossa seleção. Foi uma pessoa que mudou completamente o paradigma do futebol de praia em Portugal, com a cereja no topo do bolo a ter sido 2015 em Espinho e 2019 no Paraguai [vitórias no campeonato do Mundo]. No meio disto, os Campeonatos de Europa que conquistou. Eu acho que é sempre de louvar o trabalho que foi feito pelo mister Mário Narciso. Agora, com a mudança de selecionador [Bruno Torres], novas ideias. Estamos ainda a assimilar novas ideias, neste caso os jogadores. Sabemos que é a pessoa certa e não foi escolhida ao acaso. É uma pessoa que já estava identificada por nós e que sabíamos que, possivelmente, seria o sucessor do mister Mário Narciso. E agora são novas ideias, mas ainda temos de dar tempo ao tempo.
«As palavras que se podem dizer dentro desta casa são de exigência e a exigência é com vitórias».
Madjer


Bola na Rede: Já tem saudades de entrar no campo, de sentir a areia, desse jogo mais competitivo?
Madjer: Principalmente das grandes competições, mas eu costumo dizer que fiz muito bem o luto. Eu terminei em 2019, logo no início de 2020 temos a pandemia, ou seja, não houve desporto para ninguém e quase que se pode dizer que não houve vida para ninguém nesses dois anos. Então foi uma forma de eu fazer o luto bastante bem feito. Tenho algumas saudades, como é óbvio. Foram 30 anos da prática desta modalidade. Mas, por outro lado, e tendo eu ficado ligado à modalidade, nesta criação de novas condições para muitos praticantes, neste caso portugueses, poderem atingir a excelência, também me deixa muito realizado.
Bola na Rede: E ajuda a matar esse bichinho?
Madjer: Ajuda, ajuda. Principalmente quando ganhamos títulos.
Bola na Rede: Foi anunciado agora mesmo o regresso do Mundialito, uma competição quase mítica, pelo menos na perceção pública, parece-me que é um dos expoentes máximos do futebol de praia. Qual a importância deste regresso, mesmo para a promoção da modalidade, que já destacou ser muito importante?
Madjer: O Mundialito é daquelas provas que vão ficar marcadas para sempre em várias gerações. Realmente era um evento premium. Tirando o Campeonato do Mundo, era o evento premium. Uma pena não se realizar em Portugal. Nós gostaríamos muito que fosse realizado e que este recomeço tivesse sido em Portugal. É em Espanha e vamos participar com o intuito de vencer, como é óbvio. As palavras que se podem dizer dentro desta casa são de exigência e a exigência é com vitórias. Estamos muito felizes por regressar a uma competição que nos diz muito e principalmente a mim.
Bola na Rede: Se houvesse um jovem que quisesse começar a jogar futebol, futebol de praia ou futsal e não soubesse escolher, como é que o tentaria puxar para o futebol de praia? Que palavras é que lhe diria e que conselhos é que lhe daria?
Madjer: Eu puxaria sempre da mesma forma. Primeiro, para a prática do desporto, que é a mensagem que eu gosto sempre de deixar. E depois, a experimentação. Eu sou muito apologista de experimentarmos diversos tipos de modalidades e depois sentirmo-nos realizados naquela que escolhemos. Aquilo de incutir modalidades, e agora falando um bocado como pai, de incutir sonhos que nós não realizámos nos nossos filhos é a pior coisa que nós podemos fazer. Então é deixá-los sonhar e sentirem-se realizados. No final daquela viagem desportiva, olharem para trás e dizerem: ‘Foi isto mesmo que eu gostei de fazer’.

