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«Estava a treinar com um vazio enorme. Sentia que o Vitória não ia ficar na Primeira Liga» – Entrevista BnR com João Meira

Pedro Pinto Diniz · 30 min

Foto: Cova da Piedade

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João Meira. Um líder dentro de campo, aqui ou na América. Começou o rumo ao estrelato na casa onde agora se encontra, junto de uma geração de ouro. Seguiu-se a primeira passagem no Setúbal, onde se deu a mudança de médio para central. Mafra, Atlético, quase que podia ser em Antuérpia, mas foi em Belém que chorou e riu na sua melhor época. Lado a lado com Schweinsteiger, travou intensos duelos com estrelas do futebol mundial no Chicago Fire, Giovinco que o diga. No frio da Noruega, viu o calor que Haaland trazia ao campo e sugeriu que se tentasse trazer o Golden Boy para Portugal. Roménia e a salvação em Setúbal, onde esteve até ao abismo. De regresso a casa, enfrentou o avançado mais imprevisível, o vírus da Covid-19, e lidera uma equipa sem um “ponta de lança” especial. Quem quiser chutar esta Bola para a Rede que se cuide, João Meira está lá para cortar.

-A pandemia sem Piedade-

«Não tínhamos jogadores, nem para treinar»

Bola na RedeA tua carreira já vai longa, mas gostaria de começar pelo presente. Estás no Cova da Piedade, parabéns pelo contrato e, então, gostava de saber como tem sido esta época atípica para ti.

João Meira: É mesmo como estás a dizer, é atípica, mas estou num clube que já conheço, sei com o que posso contar. Colegas novos que não conhecia, mas estou bem integrado no grupo e tive o privilégio de pertencer aos capitães de equipa. É uma daquelas boas-vindas que sonhamos, chegar e ser capitão de equipa. Felizmente, quando cheguei, tivemos duas vitórias, depois deu-se a situação da Covid, que é pública, e tivemos doze dias parados, tendo voltado agora a treinar quatro dias para um jogo complicadíssimo com o Estoril. Eles estavam muito acima de nós, quer a nível físico, quer a nível qualitativo, e perdemos bem. É uma situação muito estranha, não será quem tiver as melhores equipas que irá vencer, mas quem for mais regular na proteção dos jogadores…

Bola na RedeQuem tiver a sorte de manter os jogadores todos.

João Meira: Exatamente, quem não tiver o azar de parar dez ou doze dias, porque isso é como se fosse uma pré-época nova. Quem tiver a sorte de conseguir manter o grupo ou aquela espinha dorsal sempre a jogar, acho que essas equipas estão muito mais perto do êxito.

Bola na RedeFalaste da situação da Covid aí no Cova da Piedade. Tiveram 15 atletas infetados e o vosso treinador está infetado. Foste um dos atletas infetados?

João Meira: Fomos 17 infetados. Eram 15 mais dois inconclusivos, que era eu e outro colega, mas acabamos por testar positivo.

Bola na RedePortanto ficaram praticamente todos positivos.

João Meira: Sim, o grupo creio que são 25 atletas, com três lesionados, dois musculares e o Edinho com a perna partida, não tínhamos jogadores, nem para treinar.

Bola na RedeE a nível físico, sentiste alguma dificuldade que prejudica a tua performance agora?

João Meira: Sim, prejudica muito. Já tive lesões, já estive doente e já voltei, por exemplo, o ano passado, quando no Vitória houve um surto, um vírus que nós apanhamos, mas em três/quatro dias, os que não tinham jogado no jogo com o Sporting já estavam a treinar. Custou um bocado, mas tive uma semana complicada, com febre e dores no corpo, e no jogo com o Estoril estava muito preso, o corpo pedia para ir, mas a cabeça mandava parar, tive dores nas costas, nas pernas, tudo muito estranho, não consigo explicar.

Bola na RedeComo é que têm vivido esta situação do vosso treinador, como têm acompanhado a situação clínica dele?

João Meira: Ele é o nosso grande pilar. Quem conhece o Toni Pereira sabe que as coisas andam como ele quer e nós estávamos bastante adaptados ao que ele pede, aos ideais dele. Não tendo a imagem do nosso treinador, porque apesar de respeitarmos todos nunca é igual, tentamos fazer tudo da mesma forma para quando ele chegar. Temos estado a receber informações dele e esperamos tê-lo connosco o mais rápido possível, porque vai ser uma ajuda muito grande, é o nosso ponta de lança, a nossa arma secreta.

Bola na RedeAchas que este problema do Toni Pereira criou mais união ou instabilidade na equipa?

João Meira: Creio que mais união, porque estamos a tentar fazer tudo igual como se o mister estivesse lá, para que, quando ele chegar, não existirem diferenças, esteja tudo minimamente como ele pediu. Instabilidade há se estivermos cinco/seis jogos a perder, mas vamos fazer de tudo para manter os resultados positivos.

Bola na RedeCuriosamente têm estado mais fortes fora de casa do que em casa. Como explicas isto?

João Meira: Eu, felizmente, quando cheguei, foi quando começamos a ganhar fora ao Académico de Viseu e em casa ao Leixões. Esta situação com o Estoril foi um jogo de borla, como foi o primeiro jogo com o Mafra, em que perderam quatro a zero, porque tinham praticamente uma semana e meia de trabalho enquanto o Mafra tinha quase dois meses. Empataram depois com a Académica, que é um candidato à subida e perderam com o Arouca com dois erros que não se podem cometer. Perderam ainda em Chaves, que é mais um candidato. Os jogos foram todos contra adversários difíceis, ainda não há uma explicação plausível.

Bola na RedeO que te trouxe novamente a casa e quais são os teus objetivos para a temporada?

João Meira: Eu volto ao Cova da Piedade porque é o meu clube de base, o meu clube do bairro, eu vivia aqui muito perto quando era pequenino, o meu irmão também jogava no Cova da Piedade, as pessoas gostavam muito de mim quando fui para o Vitória, e sempre fui muito acarinhado quando vinha ver os jogos do meu irmão dos seniores. Sempre pensei: “um dia vou voltar ao Piedade e isto vai estar bem”.

Bola na RedeE agora foi mesmo o regresso.

João Meira: Com esta instabilidade do Vitória, tive três dias para decidir a minha vida, tudo o que eu tinha de propostas até à data era do estrangeiro, propostas boas até, mas eu tentei sempre ver se o Vitória ia ficar na Primeira Liga, porque era lá que me sentia bem. Não ficou e, estando na Segunda Liga no Norte ou aqui, preferi ficar perto da minha família e do mister Toni, com quem já tinha trabalhado no Atlético, e preferi voltar ao sítio onde me sinto bem e onde as pessoas gostam de mim. Quanto aos objetivos, é pensar jogo a jogo, mas focamo-nos na manutenção.

Bola na RedeVi numa outra entrevista que deste que o Cova da Piedade não era a tua primeira opção. Em condições ideais, qual seria a tua primeira opção?

João Meira: Era o estrangeiro. Gostava muito de experimentar a Ásia, acho que é o que me falta. Já fui à América, agora ou era Ásia ou Austrália, por aí. Na Europa, dificilmente irei para Inglaterra ou Espanha, com a idade que tenho e no nível em que estou a jogar, então prefiro esses mercados secundários com culturas e mentalidades diferentes, para experimentar.

Bola na RedeSe tivesses que escolher entre competir no Brasil ou na Arábia, sendo que há muitos treinadores em ambos os campeonatos, qual escolherias?

João Meira: Dependeria do projeto, das pessoas que estariam à frente dos clubes. O Brasil é mais propício à troca de jogadores e treinadores, a Arábia acaba também por ser, mas já há maior estabilidade de vida, por haver a regra dos sete jogadores estrangeiros em vez de três. Quando eram três, se não estivesses a render, em três/quatro meses mandavam-te embora e iam buscar outro. No Brasil ainda é muito assim, vemos pela dança de treinadores que acontece, se não vencem três/quatro jogos, vão embora e entra outro, chega a haver seis treinadores…

Bola na RedeEm Portugal também acontece, infelizmente. Só se mantiveram sete treinadores no ano passado.

João Meira: Mas creio que hoje em dia está um pouco melhor. Eu, por acaso, juntamente com alguns colegas do Vitória, começamos a fazer um exercício de adivinhar quem ficaria ou não no comando técnico dos seus clubes.

-A grande derrota do Vitória FC-

«Sentia que o Vitória não ia ficar na Primeira Liga e estava ali a treinar para mim, porque tinha de estar preparado para o futuro»

Bola na RedeEstiveste desempregado, de certo modo, durante esta transição entre o Vitória e o Cova da Piedade. Tiveste receio, dadas as dificuldades financeiras que os clubes atravessam por causa da pandemia, que ficasses sem clube?

João Meira: Não, acho que, nesta pandemia, foi a vez em que me senti mais seguro. Eu tinha contrato com o Vitória, estava no Vitória a treinar, e ligavam-me vários clubes de Segunda Liga, tive sempre duas/três opções. Sabia que, mais semana, menos semana, o meu futuro se ia resolver, e, no dia em que decidi ligar para a pessoa e dizer que estava disponível, aconteceu.

Bola na RedeChegaste a fazer pré-época com o Vitória para jogar na Primeira Liga?

João Meira: Sim, sim.

Bola na RedeE como te sentias a treinar mesmo com o futuro do clube tão incerto?

João Meira: É a primeira vez que estou a dizer isto. Estava a treinar com um vazio enorme, não sentia que estava a treinar com um propósito, sentia que não iria ser ali que ia acontecer, não era ali que eu ia jogar. Sentia que o Vitória não ia ficar na Primeira Liga e estava ali a treinar para mim, porque tinha de estar preparado para o futuro.

Bola na RedeInfelizmente tens vivido vários cenários pouco agradáveis. Como viveste esta crise no Vitória?

João Meira: Tocou-me particularmente. Fiz a minha carreira de juvenil, júnior e Sénior ‘B’ pelo Vitória, um clube que me é muito querido, gosto muito das pessoas que lá estão, é um clube muito bairrista, único. Quando chegas a uma certa idade, tens outra sensibilidade, tentas ajudar noutros aspetos, e eu não conseguia, de maneira alguma, fazer com que as pessoas que me rodeavam ficassem mais confortáveis.

Bola na RedeEntão mudaste.

João Meira: Então, para não estar a acontecer o que acontece agora no Vitória, que é público, dos contratos, que há uma guerra gigante, os jogadores ainda não receberam nem um cêntimo, eu, com o que eu recebia, seria muito difícil ir receber o mesmo para o Campeonato Nacional de Seniores (CNS), sentia-me na obrigação de sair. E sendo sincero, tenho família e não me via a jogar no CNS, sinto-me muito bem para jogar numa liga superior. Talvez tenha sido um pouco egoísta, mas foi o melhor para a minha carreira.

Bola na RedeE há uma grande diferença entre futebol profissional e não profissional.

João Meira: Sem dúvida alguma. E, além disso, a Primeira e a Segunda Liga não deverão parar com esta situação da Covid, ao contrário do CNS, em que há muitas reticências. De um momento para o outro, acabam os campeonatos e não sabemos o que irá acontecer.

Bola na RedeO licenciamento do Vitória foi chumbado por questões financeiras. Alguma vez sentiram que o cenário estava tão grave financeiramente?

João Meira: Jamais, nunca, nunca. Acabamos o último jogo, foi um jogo de vida ou morte contra o Belenenses, ganhamos dois a zero, tínhamos uma pressão gigante dos adeptos, pressão boa de clube grande, eles vieram esperar-nos à chegada à cidade, um aparato tremendo de motards, de pessoas na rua, eu estou a falar contigo e a arrepiar-me. Depois do jogo terminar, como não havia adeptos no estádio, fomos para os portões festejar com os adeptos, depois havia aquela questão do “dobra o prémio” e dobraram o prémio, nunca pensamos, em momento algum, que havia qualquer tipo de problema, até começamos a comentar que dali a duas semanas estaríamos novamente a treinar na pré-época. Passados dois dias, aparece a notícia, começamos a trocar mensagens entre os grupos, pensamos que seria mais uma tentativa despropositada de mandar o Vitória abaixo, mas este ano conseguiram.

Bola na RedeÉ estranho pensar que tudo está a correr normalmente, até os prémios de jogo são pagos, e depois aparece este problema financeiro.

João Meira: Nunca faltou um mês de ordenado enquanto estivemos no ativo.

Bola na RedeAchas que o dinheiro vinha de algum fundo pessoal e não do clube?

João Meira: Não, bastavam os direitos televisivos, só isso.

Bola na RedeNós tivemos o caso do Aves, em que houve um claro conflito entre o plantel e a direção. Como é que o plantel do Vitória reagiu?

João Meira: Os jogadores que permaneceram deram o desconto. Tentamos acreditar sempre na mensagem que nos passaram até que, a certo momento, houve um afastamento das pessoas que lideravam o Vitória. Afastaram-se, diziam que era hoje e amanhã e nunca era, e aí deixamos de estar com a direção que foi destituída porque não tinha capacidade para gerir o clube. Tudo isto em dois meses.

Bola na RedeVi que, em várias entrevistas, dizes que há duas partes distintas da época passada. Achas que as eleições vieram expor as reais dificuldades do Vitória ou as dificuldades apareceram depois das eleições?

João Meira: Acho que vieram depois porque quem lá estava soube controlar muito bem todas as situações. Se faltasse dinheiro num sítio, iria ser logo tapado no dia seguinte, porque tinha pessoas que podiam injetar logo dinheiro. Quem entrou, não foi por uma questão de ser muito melhor gestor ou ter melhor capacidade para injetar, foi por uma questão de vaidade, de poder ser presidente do clube. Se calhar era um troféu para essa pessoa, mas é legítimo, eu também tive um sonho que ainda estou a concretizar, essa pessoa que entrou também tinha o sonho de ser presidente do Vitória, bem ou mal, são os sócios que têm de dizer, eu também sou sócio, tenho a minha opinião.

Bola na RedeAchas que essa pessoa não estava ligada à corrente do clube, mas unicamente ao nome do clube?

João Meira: Talvez, talvez. Eu, sinceramente, gostava da pessoa, mas, por exemplo, eu sou jogador de futebol, não sou sapateiro, eu não vou pegar e coser um sapato, não sei. Se calhar aquela pessoa é muito boa na área em que exerce, mas o futebol profissional hoje em dia tem de ser gerido por profissionais do futebol, pessoas capacitadas, gestores de empresas, pessoas que não estejam ligadas ao futebol. Há certas pessoas que têm de estar num clube sem perceber nada de futebol, a gerir números, porque hoje em dia um clube, uma SAD, são uma empresa, não é o clube da esquina de fazer associações.

Bola na RedeFaltou essa gestão.

João Meira: Não se pode gerir assim um clube profissional como o Vitória, com 110 anos de história, não pode onde caiu, e, para mim, desculpar-se com direções do passado é ainda pior. Quando nos candidatamos a um posto, temos de saber para o que vamos, não nos podemos desculpar com o que está para trás. Temos de ser o presente e o futuro, de fazer parte da solução e não ser mais um problema, para isso fico em casa.

Bola na RedeAchas que há um grande problema no dirigismo do futebol português?

João Meira: Acho que sim, mas está a melhorar. Estes cursos que a Federação está a abrir são muito importantes e mesmo a implementação, nas faculdades, de cursos de marketing no desporto prepara melhor os novos dirigentes. Se o treinador tem que ter um curso, se o fisioterapeuta tem de ter um curso, o diretor também tem de ter uma base para exercer.

-O sonho americano-

«Em Chicago há muitos mexicanos, e quando o Giovanni dos Santos entrou os adeptos começaram todos a bater palmas. Aqui, se calhar, se o Ronaldo for jogar à Luz, é cuspido e assobiado»

Bola na RedeTu já conviveste com realidades distintas no futebol e, por exemplo, estiveste na América durante dois anos. Como é viver e jogar nos EUA?

João Meira: É incrível, tudo ao contrário do que há aqui. Eu aqui nunca joguei num clube grande, mas lá as condições de trabalho são equiparadas às de um clube grande aqui. A tua vida, onde vives, só os clubes grandes pela Europa permitem viver como se vive na América, o dirigismo é de clube grande, chegas a dia 15 e a dia 30, porque lá é de duas em duas semanas o pagamento, e tens o recibo de vencimento na cadeira, já sabes que está na conta. Todos os meses tens uma ou duas aparências de marcas que te dão um extra, tens de assinar 40 camisolas e 50 bolas, até te cansa. Depois chegas ao fim de semana e tens os estádios cheios, estejas em último ou em primeiro, é sempre a mesma mentalidade.

Bola na RedeDirias que o nosso futebol, enquanto desporto, está mais desenvolvido, mas, nos EUA, o futebol enquanto negócio é melhor?

João Meira: Sem dúvida alguma. Arrisco-me até a dizer que, tirando os três grandes, o Braga e o Guimarães, não sei se está tão mais desenvolvido do que lá. Se fores a ver nos EUA, na frente, de três, tens dois de seleção, no meio, de três, mais um ou dois e atrás, de quatro, um ou dois também. Cá em Portugal, não tens tantos jogadores de seleção, e de seleções boas ainda por cima.

Bola na RedeAntes a MLS era um pouco visto como uma liga para a reforma, agora já nem tanto.

João Meira: Exatamente. Na minha altura, já foi a transição. Antigamente, iam buscar jogadores experientes para fazer crescer a liga, quando eu cheguei já começaram a ir buscar jogadores mais novos, porque a liga já estava bem constituída, e alguns desses jogadores foram vendidos para a Europa.

Bola na RedeAchas que o formato da MLS seria adaptável à Europa?

João Meira: Não acredito, porque prefiro os pontos corridos, mas na MLS acho justo ser assim. Como não há descidas nem subidas, o play-off faz-te acreditar, estando em sexto, que podes ganhar ao primeiro e ir a uma final. Também é diferente como é gerido: todos os clubes metem um depósito na MLS, a MLS é que paga os salários aos jogadores. Eu era jogador da MLS e não do Chicago Fire, o clube só tem os meus direitos.

Bola na RedeComo assim?

João Meira: Imagina que eu estava em casa, com um apartamento alugado para um ano e liga-me um outro clube a dizer: “João, amanhã tens de te apresentar neste clube, fizemos a tua troca, tens de vir para aqui”, e tu tens um contrato, imaginando que estás a ganhar dez mil dólares em Chicago, que já é uma cidade cara, e podes ir para Columbus, em que o mesmo dinheiro vale mais, porque a vida é mais barata, mas se fores para Nova Iorque é o contrário.

Bola na RedeJogaste com o Bastian Schweinsteiger, uma lenda do futebol europeu e mundial. O que aprendeste com ele e como é que ele é fora do campo?

João Meira: Ele é um puro alemão, muito focado, muito exigente, falhas um passe de cinco metros e ele capricha, reclama em alemão. Não suporta o erro mínimo, aceita o que possa acontecer, mas o erro que controlas e facilitas não, e, nesse aspeto, gostei muito.

Bola na RedeJogaste contra o Kaká, Josef Martinez, Miguel Almirón, Alberth Elis, David Villa, Giovinco. Qual a sensação de defender alguns dos melhores avançados do mundo? Qual te deu mais trabalho e porquê?

João Meira: Joguei contra o Almirón e disse logo: “este não vai ficar aqui muito tempo”, ele e o Martinez. Eu, como central, evoluí muito na MLS porque todas as semanas jogava contra avançados de grande nome como Drogba, Altidore, Cyle Larin, mas sem dúvida alguma que o mais difícil era o Giovinco.

Bola na RedeBaixo centro de rotação e rapidez complica a vida.

João Meira: Era um rato autêntico, não parava quieto. Quando pensava que chegava, ele já tinha soltado a bola, eu agarrava-o, ele picava-me, tínhamos sempre um duelo acérrimo.

Bola na RedeTinhas de lhe acertar logo nas pernas.

João Meira: Houve uma que mal lhe acertei e ele caiu logo, foi penalti. Ele é muito inteligente e ainda por cima os árbitros protegem muito as estrelas, mas o VAR veio ajudar agora a ajuizar os lances.

Bola na RedeJá vias alguma coisa no Alberth Elis?

João Meira: Eu gostava muito do Elis, ele jogava no Houston Dynamo, uma equipa composta maioritariamente por latinos. Jogava ele, o Manotas, que chegou a ser associado a clubes portugueses e outro hondurenho cujo nome não me recordo [Romell Quioto]. Eles tinham boa equipa, mas fora de Houston perdiam muitas vezes. Não sei se era por causa das viagens, porque em Chicago fazia mais frio e em Houston mais calor, mas quando fui jogar a Houston eles atropelaram-nos. Os adeptos vibravam muito, tinham uma “barra brava”, era incrível, o Elis ficava um demónio, já o via com grande potencial.

Bola na RedeComo é jogar com 100 mil adeptos? Viveste essa realidade?

João Meira: Não tive 100, mas tive 70. É incrível, é uma festa a todo o minuto. Nós aqui percebemos o jogo, eles nem tanto. A equipa pode estar a ganhar um a zero ou dois e eles querem sempre mais golos. Uma vez jogamos contra o Giovanni dos Santos, que jogava nos LA Galaxy, e, em Chicago há muitos mexicanos, e quando ele entrou os adeptos começaram todos a bater palmas. Aqui, se calhar, se o Ronaldo for jogar à Luz, é cuspido e assobiado.

-Um pré-Golden Boy aos 17 anos-

«Nesse mesmo dia, peguei no telefone e mandei mensagem a um amigo meu que é agente a dizer: “atenção a este miúdo”. Ele disse-me: “achas que o conseguimos trazer para Portugal?”»

Bola na RedeTambém jogaste na Noruega, onde o futebol não é o desporto-rei. Como te ambientaste?

João Meira: Foi quando eu saí da MLS, tinha tudo e mais alguma coisa, com três contratos assinados e fui parar à Noruega. Não vou conseguir explicar a ninguém como aconteceu, porque não foi nada do meu controlo. Um foi erro do clube, outro foi um investidor que acabou por não comprar o clube e noutro foi um diretor geral que foi despedido e eu fui convidado a rescindir contrato. O primeiro foi para a segunda divisão de Inglaterra, o segundo para a segunda divisão espanhola e o terceiro para a segunda divisão italiana.

Bola na RedeFicas sem grande opção.

João Meira: Chego a Março sem clube, vou para a Noruega jogar três meses, cheguei lá, fiz um jogo, senti a coxa e tive de sair, praticamente sem pré-época, num sintético com muito frio. Fiquei um mês e meio parado, quando voltei ainda fiz dois ou três jogos, mas já não consegui, e, sinceramente, já não estava para aí virado. Quando estamos lá não damos tanto valor, mas tive a felicidade de jogar com vários miúdos com um potencial enorme, que hoje em dia estão a chegar a grandes clubes na Europa. Logo no primeiro jogo quando cheguei, defrontamos o Molde…

Bola na RedeE eu ia mesmo falar no Haaland. Acompanhaste a progressão dele? Já vias talento quando ele jogava na noruega?

João Meira: Eu estava na bancada com o meu empresário e com um colega que também falava português e perguntei: “quem é aquele rapaz?”, e eles disseram: “ele tem 17 anos”. Eu perguntei:” 17 anos? Não pode ser” e fui ao TransferMarkt ver e fiquei abismado. E o treinador era o Solskjaer.

Bola na RedeÉ um monstro autêntico, um animal competitivo.

João Meira: Com 17 anos, o à vontade que ele tinha em campo, a experiência e a ratice de bater, canhoto, forte, grande, muito bom jogador.

Bola na RedeJá era um jogador de Dortmund e ainda jogava na Noruega?

João Meira: Titular não, mas suplente talvez. Nesse mesmo dia, peguei no telefone e mandei mensagem a um amigo meu que é agente a dizer: ”atenção a este miúdo”. Ele disse-me:” achas que o conseguimos trazer para Portugal?”, e eu disse: “ não sei se ele se vai adaptar em Portugal, não faço ideia”, porque é muito difícil um miúdo norueguês adaptar-se em Portugal, é um contexto muito específico.

Bola na RedeEle chegou a tentar trazê-lo para Portugal?

João Meira: Ele ficou tentado a trazê-lo, esteve a ver uns vídeos dele para o colocar numa equipa ‘B’ ou Sub-23.

Bola na RedeQue ideia absurda hoje em dia pensar no Haaland numa equipa ’B’ ou Sub-23. Mas bem, além da Noruega, jogaste na Roménia, o que achaste?

João Meira: O meu clube tinha condições que muitos aqui em Portugal não têm, mas utilizava-as como se fosse um clube do bairro, muito mau mesmo. Nós tínhamos uma academia de treino com três campos relvados, quartos para descansar, cada jogador tinha o seu quarto, ginásio, posto médico… e depois o nosso estádio era um sintético. Se precisava de alguma coisa, era no dia seguinte. E no dia seguinte, era novamente no dia seguinte. Não gostei nada, não me adaptei ao grupo, lidei com três/quatro latinos, mais um cabo-verdiano que está agora em Portugal, o treinador mal falava connosco, não havia conexão, não valeu a pena.

Bola na RedeEssas experiências no estrangeiro trouxeram um novo João Meira a Portugal?

João Meira: Sim, mais maduro, a dar mais valor a certas coisas que não dava, mas a experiência que me deu o clique foi esta da Roménia. A da América foi um conto de fadas, a da Noruega foi uma oportunidade que não correu bem e que esperava que superasse com outra e a da Roménia foi uma daquelas que, se falhas agora, já não te levantas. Eu falhei, apesar de ter jogado, porque o clube desceu, era inevitável, mas felizmente a porta do Vitória abriu-se, apesar de eu nunca esperar que se fosse abrir.

Bola na RedePorque não ficas na América?

João Meira: Eu estava sozinho, e, quando estamos bem na carreira, pensamos sempre que podemos atingir mais, e eu acreditei que podia ir ganhar mais dinheiro ou podia ir para uma liga superior. O Championship dava-me mais dinheiro e era uma liga melhor, mas não se concretizou, e foi só por isso. Eu tinha proposta da MLS, e três propostas de outros clubes onde podia ser incorporado, e do Chicago também.

– A caminho de Belém-

«Eu também não posso dizer que o Belenenses do Jamor não é Belenenses, foram as pessoas que estão lá que ajudaram o clube a sobreviver»

Bola na RedeVoltando um pouco atrás na tua carreira, formas-te no Vitória como médio, vais para o Cova da Piedade e depois assinas pelo Mafra. Como foi essa parte inicial da tua carreira?

João Meira: No Cova da Piedade, tivemos uma geração de ouro: eu, o Hernâni, o Luís Leal. O meu ano era sempre campeão da distrital, mas nunca aproveitávamos o nacional e, quando chegamos aos juvenis, no primeiro ano, fomos campeões distritais, e no segundo ano eu saí para o Vitória. Quando saí, já a época ia na terceira jornada, porque eu ia para o Sporting, mas eles não quiseram pagar os direitos de formação, e então pagou a minha família os direitos de formação e fui para o Vitória. As coisas correram mal no primeiro ano, joguei pouco, a equipa deles também já estava montada desde as escolinhas e, então, eu pensei que ia ser dispensado nos juniores.

Bola na RedeMas acabaste por não ser.

João Meira: Entretanto, mudou o treinador, ele deu-me oportunidade de jogar, não a oito ou a dez, mas a seis. Aproveitei, fiz a pré-época, joguei bem, o mister elogiava-me muito, mas um dia, ainda nesse primeiro ano, ele chega à minha beira e diz-me:” a partir de hoje, vais jogar a central”. Eu disse:” ó mister, a central?” e ele: “vais jogar para central e, se não quiseres, podes ir já embora”, assim muito agressivo. Fui, mas a remoer por dentro, não aceitei logo, mas fiz assim a minha formação e nos seniores vou para o Cova da Piedade. Joguei quase sempre, mas em março/abril parti o maxilar e a minha época acabou.

Bola na RedeDo nada surgiu uma opção forte.

João Meira: O Mafra estava muito interessado em mim e, como eu já não podia competir mais durante essa temporada, o treinador, Filipe Ramos, ligou-me e disse-me: “João, vens aqui ao Mafra, nós queremos-te, mas queremos analisar-te primeiro”. Não tinha nada a perder, fui lá uma semana e assino contrato para a época seguinte. Não joguei logo porque tinham a equipa montada, esperei pela minha oportunidade e joguei quase sempre. Depois fui para o Atlético.

Bola na RedeE foi no Atlético que te notabilizaste?

João Meira: Tinha feito uma época muito boa no Mafra e fui como uma contratação, não foi nenhuma imposição de empresário, fui contratado mesmo e aí tudo é diferente. Senti-me muito bem, senti-me feliz, as coisas correram muito bem no primeiro, mas não subimos. No segundo ano subimos à Segunda Liga e no terceiro ano aconteceu o meu castigo, em que estive oito meses sem competir.

Bola na RedeDepois acabas por te mudar para o Belenenses, o maior rival do Atlético. Tiveste problemas por causa disso?

João Meira: Tive, tive. Aquando da suspensão, eu disse que não queria jogar mais em Portugal, por causa do que as pessoas me fizeram. O meu castigo surgiu a partir de uma falta de comunicação, eu perguntei uma coisa, responderam-me afirmativamente, mas afinal não se podia e já não podia tirar do corpo as coisas que tomei. Eu queria experimentar algo no estrangeiro e tinha uma proposta do Antuérpia, então fui à Bélgica para falar com os responsáveis.

Bola na RedeE acabaste de novo em Portugal.

João Meira: Um dia antes de partir, um agente ligou-me a dizer que me queria conhecer e tomar café comigo, porque tinha um projeto bom cá em Portugal, de um clube muito bom da Segunda Liga para subir à Primeira. Eu aceitei, bebemos o café, ele disse qual era o clube e eu disse que não podia ser porque esse clube tinha muitos problemas financeiros, estava numa fase complicadíssima. Ele tentou convencer-me e então eu disse: “fazemos assim, eu vou até à Bélgica, depois lá decido o que quero fazer da minha vida”. Fui, as coisas correram muito bem, o meu tio, por acaso, vive na cidade de Antuérpia, estava a fazer-me a cabeça para ficar lá com ele e, dois dias antes de eu decidir, ligou-me esse agente a dizer: “João, como está a tua vida aí”, ao que eu respondi: “está a correr bem, estou a gostar, vou ficar aqui, as pessoas estão a tratar-me bem”. Perguntou-me quanto me estavam a oferecer, eu disse e ele pediu então cinco minutos para depois me voltar a ligar. Nem cinco minutos depois, liga-me a dizer: “João, está fechado, vem para Portugal, nós cobrimos-te a proposta”. Não foi a questão financeira…

Bola na RedeFoi a assertividade.

João Meira: Foi mais por sentir que alguém me queria muito, até porque eu só podia competir em agosto e ainda estava a cumprir castigo até aí. Disseram-me que ia ser um dos líderes, parte integrante do projeto e que estava a ser o primeiro a assinar contrato com a nova empresa, isso mexeu comigo, foi a melhor decisão que eu tomei na minha vida.

Bola na RedeE fizeste a tua melhor época, precisamente ao serviço do Belenenses, em 2012/2013, com 38 jogos, três golos, meias-finais da Taça, conquista da Segunda Liga. Concordas?

João Meira: Sim, aquela equipa jogava de olhos fechados. Era uma família autêntica, se alguém tinha um problema familiar, era partilhado no balneário, chegamos a chorar juntos por problemas familiares, a chorar juntos de alegria porque um ou outro tiveram propostas boas e saíram para outros clubes, tínhamos uma ligação muito forte, foi incrível.

Bola na RedeE como vês esta divisão no Belenenses?

João Meira: É difícil falar. Eu joguei no Belenenses com adeptos, no Restelo, em que as duas partes estavam ligadas. Agora não sei dizer qual é o Belenenses, se é o do Restelo ou o do Jamor, porque eu também não posso dizer que o Belenenses do Jamor não é Belenenses, foram as pessoas que estão lá que ajudaram o clube a sobreviver, então nunca podemos esquecer essas tais pessoas. Se são conflitos por egos, é difícil, porque não estou por dentro. Quando saí, ainda estavam no Restelo, havia uma ou outra complicação, mas nada disto.

Bola na RedeAchas que um é o Belenenses negócio e o outro é o Belenenses da paixão ao clube?

João Meira: O Belenenses do amor, não é? Acho que está tudo ligado, tem de haver o Belenenses do amor com o do negócio juntos. O futebol, hoje, é o amor com o negócio, se pensarmos só num ou noutro vai dar buraco. Só o amor no Vitória, por exemplo, que eram pessoas de Setúbal, deu buraco e só o negócio, como no Aves, também deu buraco, por isso tem de haver um equilíbrio.

– Perguntas rápidas-

«Eu ia falhando um jogo por causa do FUT Champions, bati numa parte de madeira do sofá e ainda hoje me dói a mão»

Bola na RedePercebi, ao ler entrevistas tuas que, quer dentro, quer fora de campo, és muito competitivo e sofres de um mal geral, a azia com o FIFA. É verdade?

João Meira: Gigante mesmo. Por exemplo, o meu filho faz anos agora na sexta-feira e viu que eu e a minha mulher mandamos vir uma prenda, que eram uns matraquilhos. Eu montei os matraquilhos, começamos a jogar e ele começou a chorar porque eu não o deixava ganhar. Nem com o meu filho gosto de perder, mas com o FIFA ainda é mais complicado. Eu ia falhando um jogo por causa do FUT Champions [n.d.r. competição de fim de semana online], bati numa parte de madeira do sofá e ainda hoje me dói a mão.

Bola na RedeTu tens tempo para conciliar treinos e jogos, família e os videojogos?

João Meira: Sim, tenho problemas aqui em casa com a minha mulher, dá-me umas duras, mas arranjo um tempinho para jogar. O FUT Champions, se vir que jogo domingo e viajo no sábado, já não faço. Mas normalmente jogo, e a minha mulher diz-me: “já te inscreveste outra vez nisso?”.

Bola na RedeUmas perguntas rápidas para terminarmos. Qual o melhor companheiro no centro da defesa que já tiveste?

João Meira: Eu joguei com alguns que gostei muito, mas com quem me liguei mais foi o Gonçalo Brandão. Nós já tínhamos alguma relação de casa, as mulheres são colegas, amigas, então fomos apresentados no meio. Tive depois a sorte de jogar com ele, é como um amigo, irmão, e jogava ao meu lado. Eu podia falar com ele como quisesse e ele igual, era a pessoa com quem tinha mais cumplicidade.

Bola na RedeE o melhor treinador?

João Meira: É entre o mister Toni Pereira, por tudo o que significa, porque desde o momento em que comecei a trabalhar com ele, comecei a ser mais disciplinado, dentro e fora do campo, porque a exigência que ele coloca nos treinos e jogos é demasiado elevada, ninguém adormece com ele. E, por outro lado, adorei trabalhar com o mister Mitchell Van Der Gag, aprendi imenso ao nível das questões técnica e tática, aí acho que cresci muito na minha carreira. Se hoje faço o controlo de linha, da profundidade minimamente bem, é por causa dele porque trabalhávamos muito e era bem trabalhado.

Bola na RedeQual foi o jogo mais marcante da tua carreira?

João Meira: Foi o jogo contra o Benfica. É aquele jogo que sonhamos em miúdos, jogar no Dragão, na Luz ou em Alvalade, e nesse jogo com o Benfica tinha a minha família na bancada. A minha família é toda benfiquista e o meu irmão estava a torcer por mim, mas o meu pai disse-me logo: “podes ganhar a todos, mas ao Benfica não ganhas”, por isso foi um jogo especial. Para mim, jogar contra o Benfica, Porto e Sporting é igual porque, com o passar do tempo, fui perdendo o amor pelos clubes e hoje em dia é mais onde me sinto bem.

Bola na RedeTu jogaste com Makaridze e muitos apontam-lhe um grande defeito: a perda de tempo excessiva. O que tens a dizer sobre isso?

João Meira: O Makaridze é sem dúvida o melhor guarda-redes com quem já joguei, em primeiro. Depois, provavelmente eram indicações de quem comanda, para meter algum gelo no jogo. Ele é dos jogadores mais corretos que existem no campo e nunca faria as coisas propositadamente.

Bola na RedeQual o jogador com quem jogaste com mais potencial e talento?

João Meira: Joguei com alguns, mas o Tiago Silva é incrível e joguei com outro miúdo no Valerenga, o Chidera [Ejuke], nigeriano, hoje joga no CSKA Moscovo, é mesmo muito bom jogador. Acho que esses dois são os miúdos que podem ser grandes craques.

Bola na RedeQual o jogador que achas que tinha tudo para dar um salto maior e não o deu?

João Meira: Posso dizer-te o Rudy, que jogou comigo no Atlético, ele era incrível, jogou no Brugge, no Corunha e depois desapareceu, e tenho medo de outro, que tem potencial para ser um magnífico jogador, que é o Hildeberto Pereira e não sei o que será dele. Acho que as coisas na China estão a correr bem e espero que se afirme, porque poderá vir a ser um grande jogador.

Pedro Pinto Diniz

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