«Estava a treinar com um vazio enorme. Sentia que o Vitória não ia ficar na Primeira Liga» – Entrevista BnR com João Meira

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– A caminho de Belém-

«Eu também não posso dizer que o Belenenses do Jamor não é Belenenses, foram as pessoas que estão lá que ajudaram o clube a sobreviver»

Bola na Rede: Voltando um pouco atrás na tua carreira, formas-te no Vitória como médio, vais para o Cova da Piedade e depois assinas pelo Mafra. Como foi essa parte inicial da tua carreira?

João Meira: No Cova da Piedade, tivemos uma geração de ouro: eu, o Hernâni, o Luís Leal. O meu ano era sempre campeão da distrital, mas nunca aproveitávamos o nacional e, quando chegamos aos juvenis, no primeiro ano, fomos campeões distritais, e no segundo ano eu saí para o Vitória. Quando saí, já a época ia na terceira jornada, porque eu ia para o Sporting, mas eles não quiseram pagar os direitos de formação, e então pagou a minha família os direitos de formação e fui para o Vitória. As coisas correram mal no primeiro ano, joguei pouco, a equipa deles também já estava montada desde as escolinhas e, então, eu pensei que ia ser dispensado nos juniores.

Bola na Rede: Mas acabaste por não ser.

João Meira: Entretanto, mudou o treinador, ele deu-me oportunidade de jogar, não a oito ou a dez, mas a seis. Aproveitei, fiz a pré-época, joguei bem, o mister elogiava-me muito, mas um dia, ainda nesse primeiro ano, ele chega à minha beira e diz-me:” a partir de hoje, vais jogar a central”. Eu disse:” ó mister, a central?” e ele: “vais jogar para central e, se não quiseres, podes ir já embora”, assim muito agressivo. Fui, mas a remoer por dentro, não aceitei logo, mas fiz assim a minha formação e nos seniores vou para o Cova da Piedade. Joguei quase sempre, mas em março/abril parti o maxilar e a minha época acabou.

Bola na Rede: Do nada surgiu uma opção forte.

João Meira: O Mafra estava muito interessado em mim e, como eu já não podia competir mais durante essa temporada, o treinador, Filipe Ramos, ligou-me e disse-me: “João, vens aqui ao Mafra, nós queremos-te, mas queremos analisar-te primeiro”. Não tinha nada a perder, fui lá uma semana e assino contrato para a época seguinte. Não joguei logo porque tinham a equipa montada, esperei pela minha oportunidade e joguei quase sempre. Depois fui para o Atlético.

Bola na Rede: E foi no Atlético que te notabilizaste?

João Meira: Tinha feito uma época muito boa no Mafra e fui como uma contratação, não foi nenhuma imposição de empresário, fui contratado mesmo e aí tudo é diferente. Senti-me muito bem, senti-me feliz, as coisas correram muito bem no primeiro, mas não subimos. No segundo ano subimos à Segunda Liga e no terceiro ano aconteceu o meu castigo, em que estive oito meses sem competir.

Bola na Rede: Depois acabas por te mudar para o Belenenses, o maior rival do Atlético. Tiveste problemas por causa disso?

João Meira: Tive, tive. Aquando da suspensão, eu disse que não queria jogar mais em Portugal, por causa do que as pessoas me fizeram. O meu castigo surgiu a partir de uma falta de comunicação, eu perguntei uma coisa, responderam-me afirmativamente, mas afinal não se podia e já não podia tirar do corpo as coisas que tomei. Eu queria experimentar algo no estrangeiro e tinha uma proposta do Antuérpia, então fui à Bélgica para falar com os responsáveis.

Bola na Rede: E acabaste de novo em Portugal.

João Meira: Um dia antes de partir, um agente ligou-me a dizer que me queria conhecer e tomar café comigo, porque tinha um projeto bom cá em Portugal, de um clube muito bom da Segunda Liga para subir à Primeira. Eu aceitei, bebemos o café, ele disse qual era o clube e eu disse que não podia ser porque esse clube tinha muitos problemas financeiros, estava numa fase complicadíssima. Ele tentou convencer-me e então eu disse: “fazemos assim, eu vou até à Bélgica, depois lá decido o que quero fazer da minha vida”. Fui, as coisas correram muito bem, o meu tio, por acaso, vive na cidade de Antuérpia, estava a fazer-me a cabeça para ficar lá com ele e, dois dias antes de eu decidir, ligou-me esse agente a dizer: “João, como está a tua vida aí”, ao que eu respondi: “está a correr bem, estou a gostar, vou ficar aqui, as pessoas estão a tratar-me bem”. Perguntou-me quanto me estavam a oferecer, eu disse e ele pediu então cinco minutos para depois me voltar a ligar. Nem cinco minutos depois, liga-me a dizer: “João, está fechado, vem para Portugal, nós cobrimos-te a proposta”. Não foi a questão financeira…

Bola na Rede: Foi a assertividade.

João Meira: Foi mais por sentir que alguém me queria muito, até porque eu só podia competir em agosto e ainda estava a cumprir castigo até aí. Disseram-me que ia ser um dos líderes, parte integrante do projeto e que estava a ser o primeiro a assinar contrato com a nova empresa, isso mexeu comigo, foi a melhor decisão que eu tomei na minha vida.

Bola na Rede: E fizeste a tua melhor época, precisamente ao serviço do Belenenses, em 2012/2013, com 38 jogos, três golos, meias-finais da Taça, conquista da Segunda Liga. Concordas?

João Meira: Sim, aquela equipa jogava de olhos fechados. Era uma família autêntica, se alguém tinha um problema familiar, era partilhado no balneário, chegamos a chorar juntos por problemas familiares, a chorar juntos de alegria porque um ou outro tiveram propostas boas e saíram para outros clubes, tínhamos uma ligação muito forte, foi incrível.

Bola na Rede: E como vês esta divisão no Belenenses?

João Meira: É difícil falar. Eu joguei no Belenenses com adeptos, no Restelo, em que as duas partes estavam ligadas. Agora não sei dizer qual é o Belenenses, se é o do Restelo ou o do Jamor, porque eu também não posso dizer que o Belenenses do Jamor não é Belenenses, foram as pessoas que estão lá que ajudaram o clube a sobreviver, então nunca podemos esquecer essas tais pessoas. Se são conflitos por egos, é difícil, porque não estou por dentro. Quando saí, ainda estavam no Restelo, havia uma ou outra complicação, mas nada disto.

Bola na Rede: Achas que um é o Belenenses negócio e o outro é o Belenenses da paixão ao clube?

João Meira: O Belenenses do amor, não é? Acho que está tudo ligado, tem de haver o Belenenses do amor com o do negócio juntos. O futebol, hoje, é o amor com o negócio, se pensarmos só num ou noutro vai dar buraco. Só o amor no Vitória, por exemplo, que eram pessoas de Setúbal, deu buraco e só o negócio, como no Aves, também deu buraco, por isso tem de haver um equilíbrio.

Pedro Pinto Diniz
Pedro Pinto Dinizhttp://www.bolanarede.pt
O Pedro é um apaixonado por desporto. Em cada linha, procura transmitir toda a sua paixão pelo desporto-rei, o futebol, e por todos os aspetos que o envolvem. O Pedro tem o objetivo de se tornar jornalista desportivo e tem no Bola na Rede o seu primeiro passo para o sucesso.                                                                                                                                                 O Pedro escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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