«Não tenho onde treinar aqui em Portugal, só consigo treinar mesmo antes das competições» – Entrevista BnR com Gonçalo Resende

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«Podes ser o melhor e ter o máximo de talento, fazer coisas inacreditáveis, se não sabes vender a tua imagem, se não dedicaste parte do teu tempo a desenvolver as tuas capacidades sociais e tudo o que está à volta, não vais conseguir chegar a lado nenhum»

Bola na Rede: Na mesma entrevista ao “Skydive em Portugal”, referes que a queda livre te tornou uma pessoa mais passiva. É algo, portanto, que serve de escudo ou coador para uma certa ansiedade?

Gonçalo Resende: Sim, eu penso que quando comecei a saltar, me fez ter uma coisa na minha vida que era quase mais importante que tudo o resto. E eu digo a isto a alguns amigos meus, são poucos mas, eu tenho alguns que eram pessoas que não tinham nada a ver com o paraquedismo, que vieram trabalhar para o paraquedismo, às vezes por eu fazer a recomendação, outras vezes porque se interessaram e quiseram entrar no meio e eu digo-lhes sempre: nós podemos estar a sair à noite e querer ir falar com umas meninas e tal e eles estão com medo que corra mal. Podemos estar a planear alta cena que vamos fazer e eles estão nervosos ou quando éramos mais novos com os exames da escola e assim eu dizia assim, olha man, tu és um paraquedista, meu. Achas que isso aí é algum assunto para estares nervoso, quando sais de um avião e vens quase ali a morrer e depois abres o paraquedas para te salvar e acho que foi isso que a queda livre me trouxe, foi conseguir, tanto a nível prático, estar calmo como por exemplo se eu visse um acidente de carro à minha frente, eu ficava calmo, não ficava “Ai meu Deus!”, ajudava se fosse necessário, tanto como coisas psicológicas. Por exemplo, enquanto andava na escola, eu dava aulas. Estava na escola a aprender no 11º e no 12º ano e ao fim de semana e até depois das aulas, vinha para aqui dar aulas e tinha turmas inteiras a ouvir-me. Se fosse preciso, tinha muitos amigos preocupados com uma apresentação oral e para mim, uma apresentação oral era o meu trabalho. Era estar ali a falar de uma coisa que entendo, por isso ajudou-me a ter muito mais calma. Eu nunca fui uma pessoa que tivesse ansiedade em nada, zero, nenhuma.  Tenho amigos meus que têm muita ansiedade ou amigas, seja o que for que sofrem com ansiedade, eu nunca tive ansiedade nenhuma. Podes mandar-me fazer o que for preciso, eu vou com calma, na boa. Desde que não seja uma coisa que me vá magoar, não fico nervoso. Sempre pensei que eu viesse a ter ansiedade em competições, no dia antes das competições, no dia antes de coisas muito importantes, em que estou a colocar a minha vida em risco. Nunca tive uma noite mal dormida por estar com nervos para a competição do dia seguinte, sempre fui uma pessoa muito calma, mas quando vim para o paraquedismo, comecei a dar menos importância a coisas assim mundanas e simples. Não estou a dizer “ah, saltaste e agora já não queres saber de nada, já não ligas a nada”, não, não é bem assim. Agora, ficar nervoso porque isto ou por aquelas coisinhas que deixam uma pessoa nervosa.

Bola na Rede: Passou a existir um equilíbrio maior na balança emocional, não é?

Gonçalo Resende: Tal e qual, tento estar sempre mais calmo e pensar sempre, podia estar aqui a saltar e a magoar-me vou estar aqui a magoar-me por causa disto, não.

Bola na Rede: Qual seria o maior conselho que darias a uma criança que quisesse fazer carreira no paraquedismo?

Gonçalo Resende: No paraquedismo, especificamente para dar atenção tanto a competências sociais como competências práticas. Por exemplo, lembro-me da minha mãe a dizer que o Cristiano Ronaldo era aquele tipo de pessoa que se fosse preciso não saía à noite com os amigos para ir treinar e só queria saber de treinar, treinar, treinar. Não estou com isto a dizer que em vez de treinar mais, vai sair à noite. Estou a dizer é que no paraquedismo as competências sociais têm quase tanta influência como passar tempo a gastar dinheiro e a treinar e que até podem ser feitas fora do aeródromo, nem têm nada a ver com o paraquedismo, que se for preciso, vão-te ajudar mais na tua carreira do que saltar muito e treinar muito. Eu treino muito e treino de forma muito rigorosa, quando estou a treinar ninguém me distrai, ninguém fale para mim, ninguém venha à minha beira, nada. Mas se eu tenho a carreira que tenho, que pode até não ser nada, não é grande carreira, é uma carreira, muito jovem, começou há muito pouco tempo, mas já consegui ser convidado para ir aqui, para fazer aquilo, para fazer esta competição, para dar a opinião sobre bastantes  tópicos, também já me foi pedido para fazer “reviews” de produtos, produtos sérios, coisas sérias, foi porque eu perdi tanto tempo a saltar, que é o que é “fácil” para mim, porque é só entrar no avião e fazer o salto, mas também perdi muito, muito, muito tempo a construir uma personalidade e uma série de competências psicológicas que me permitem interagir muito melhor com as pessoas, ter muito mais competências a escrever, a ler, a demonstrar, a gravar, a editar, a fazer tudo o que na minha carreira não envolva tudo à volta do salto em si. Por exemplo, um rapazinho chega à minha beira e diz que quer ser o piloto de voo de asa campeão do Mundo. Eu não lhe vou dizer olha, tu pegas em milhões de euros e gastas e vais ser o melhor do Mundo. Porque eu lembro-me de estar a falar com um rapaz que foi campeão do Mundo por cinco vezes, não vale a pena estar a dizer o nome porque só um é que foi campeão do Mundo cinco vezes e ele a dizer-me que uma vez esteve na brincadeira com a mulher, a fazer as contas, e gastou acho que foi quase 2 milhões em treinos, paraquedas e essas coisas a vida toda dele. Mesmo tendo bué de patrocinadores, gastou quase 2 milhões. Claro que se não tivesse os patrocinadores, se calhar tinham sido 4 milhões. Mesmo que sejas o melhor do Mundo, ninguém te vai oferecer tudo. Se fores o melhor do Mundo a jogar futebol oferecem-te tudo, não precisas de pagar nada, levam-te até ao campo, se for preciso, ao colo. No paraquedismo não é assim. Podes ser o melhor e ter o máximo de talento, fazer coisas inacreditáveis, se não sabes vender a tua imagem, se não dedicaste parte do teu tempo a desenvolver as tuas capacidades sociais e tudo o que está à volta, nomeadamente aprender a trabalhar com “networking”, como estávamos a falar há bocado, não vais conseguir chegar a lado nenhum ou se chegares, é porque alguém te pagou tudo e mais alguma coisa.

Filipe Pereira
Filipe Pereira
Licenciado em Ciências da Comunicação na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, o Filipe é apaixonado por política e desporto. Completamente cativado por ciclismo e wrestling, não perde a hipótese de acompanhar outras modalidades e de conhecer as histórias menos convencionais. Escreve com acordo ortográfico.

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