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No caminho para as medalhas – Entrevista a Pedro Farromba

José Baptista · 11 min

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Pedro Farromba é o Presidente da Federação de Desportos de Inverno de Portugal e tem levado a cabo a difícil tarefa de fazer crescer modalidades ainda pouco divulgadas no nosso país. Nesta entrevista de rescaldo das Olimpíadas de PyeongChang 2018 e projeção do futuro dos Desportos de Inverno lusitanos, fala-nos do caminho ainda a percorrer para chegarmos às medalhas.

Bola na RedeComecemos pelo tema mais atual, os Jogos Olímpicos 2018. O primeiro português a competir foi o Kequyen Lam, que tem uma impressionante história de vida e até se tornou o mais velho representante nacional nos Jogos de Inverno. Partilha da visão de que, neste caso, só a participação já foi uma vitória?

Pedro Farromba: Bem, se nós olharmos para os milhares de atletas em todas as modalidades que tentam a qualificação e não conseguem, aqueles que se conseguem qualificar é, de facto, já uma vitória. Porque, grosso modo, os dois mil e tal atletas que estão nuns Jogos Olímpicos são aqueles que já se conseguiram superar e já conseguiram ter melhores resultados que muitos outros para se conseguirem qualificar. Desse ponto de vista, eu diria que sim, que já é uma vitória.

Agora, obviamente, quando nós sentimos que estamos a fazer um trabalho sólido e positivo no desenvolvimento das modalidades, começamos a querer mais um bocadinho, portanto, queremos começar a olhar também para a classificação com outros olhos. Agora, realmente concordo, o facto de um atleta chegar aos Jogos Olímpicos, pela quantidade de desafios que ele tem de superar, pela quantidade de outros atletas que tentaram, já é uma vitória.

A comitiva nacional nos Jogos de PyeongChang 2018
Fonte: Pedro Farromba

BnR: O outro represente foi o Arthur Hanse que já é um repetente e que teve resultados positivos para o que é o panorama nacional. Como é que estes resultados se comparam com os objetivos que haviam delineado?

PF: Nós tínhamos definido, grosso modo, dois objetivos. Ou eu diria até três se considerarmos um objetivo mais lato, o de representarmos dignamente o nosso país. Se considerarmos esse, acho que o fizemos muito bem feito. Os outros dois objetivos mais quantitativos eram o de melhorar a classificação da última vez que um português tinha participado em Cross-country e o outro objetivo era que o Arthur ficasse, numa das duas provas, nos 50 primeiros. E, portanto, conseguimos os dois objetivos. Foram os objetivos que foram definidos junto do Comité Olímpico e conseguimos fazê-lo.

Quanto ao Kequyen, a última vez que Portugal tinha participado nessa competição tinha ficado em último e não foi isso que aconteceu desta vez. E o Arthur conseguiu ficar em 66º no slalom gigante e em 38º no slalom, portanto, cumprimos aquilo que tinham sido os objetivos que tínhamos definido e, nesse ponto de vista, a missão foi um sucesso, porque cumprimos aquilo que tínhamos delineado como objetivos para a nossa participação.

BnR: Uma constante destas últimas participações portuguesas tem sido o recurso a luso-descendentes, o que, por vezes, divide a opinião do público em geral. Explique-nos o racional adjacente a esta aposta.

PF: Eu respondo-lhe da seguinte maneira, com o devido respeito: William Carvalho, Adrien Silva, Anthony Lopes, Raphael Guerreiro, Éder. São jogadores de futebol que ganharam o campeonato da Europa de futebol. Nós hoje vivemos num mundo global, por isso, o nome ou a forma como dizemos o nome… nós hoje temos muitos portugueses que põe nomes estrangeiros aos filhos.

Não vejo que seja por aí. No futebol é assim, o Ronaldo se tivesse continuado a jogar em Portugal seguramente não seria o melhor do mundo. Foi o melhor do mundo porque foi jogar para os melhores campeonatos do mundo, o Nelson Évora treina em Espanha. Portanto, eu não vejo mal de no ski, que ainda por cima tem uma especificidade de só poder ser praticado em locais onde há neve, onde há pistas, onde há extensão, onde há declive, onde estão reunidas as condições, não vejo qual o problema dos nossos atletas serem luso-descendentes.

BnR: Nesse contexto, abrindo um bocado o horizonte, como Presidente de uma Federação, sente que há um Portugal a duas velocidades e que, quer por mediatismo, quer por melhor capacidade de lobby, as várias modalidades são tratadas de forma diferente pelo Estado?

PF: Eu não diria pelo Estado, eu diria que é uma consequência daquilo que é o gosto que as pessoas têm pelas modalidades. Se nos Estados Unidos o Futebol Americano e o Basebol representam muito mais que o nosso Futebol, o Soccer, se no Canadá o Hóquei no Gelo representa mais que o Futebol, se na Áustria ou na Suíça o Ski representa mais que as outras modalidades, tem a haver com aquilo que as pessoas, que os locais, que os residentes nesses países mais apreciam.

E, portanto, é natural que sendo Portugal um país do Futebol, este tenha sempre um relevo que não têm as outras modalidades, mas a nós que temos estas responsabilidades em modalidades com menos aceitação popular, digamos assim, com menos representatividade popular, cabe-nos também fazer esse trabalho, de darmos mais credibilidade aos nossos projetos, de conseguirmos maior notoriedade. 

Mas é sempre uma pescadinha de rabo na boca, não é? Porque se nós não tivermos notoriedade, não conseguimos apoios. Mas também se não tivermos apoios, não conseguimos notoriedade. E se não tivermos as duas coisas juntas, não conseguimos resultados. Portanto, é óbvio que é sempre um desafio que nós vamos tendo que ter ao longo da vida, mas é daquelas coisas que nós podemos chorar por elas ou podemos usá-las como forma de nos auto-superarmos e eu acredito mais na segunda.

BnR: E, também nesse âmbito, qual é a apreciação que faz daquilo que é a cobertura que os media dão aos desportos de inverno?

PF: Olhe, nestes Jogos Olímpicos, não me posso queixar. Embora não tenha tido grande representatividade na televisão, que é sempre o meio mais importante, nestes Jogos Olímpicos tivemos uma muito boa receptividade junto da comunicação social. E acho que foi, se calhar, a primeira vez que senti isso. Estou na Federação desde 2009 e acho que foi a primeira vez que eu senti isso.

Agora, claro que quando nós, se ligarmos a televisão ao domingo à noite, e à segunda à noite e à terça à noite e temos três, quatro, cinco canais, todos a falar de futebol e todos a discutir o futebol, é claro que há pouco espaço para o resto, não é? O problema é que se existem esses canais a fazerem isso é porque existem pessoas que os estão a ver, portanto, este é um caminho que o temos que ir fazendo.

BnR: Voltando à parte desportiva, apesar de os resultados destes Jogos ainda estarem longe do melhor resultado absoluto que continua a ser o da Mafalda Queiroz Pereira em Nagano…

PF: Bem, esse é outro contexto que nós também temos de balizar.

BnR: Em termos de resultados relativos – posição face ao número de participantes-, tem vindo a melhorar.

PF: Pois.

BnR: Uma das atletas que o fez foi a Camille Dias, que entretanto acabou a sua carreira. Fora dos Jogos, outro atleta que deu que falar foi o Andrea Bugnone, mas segundo a FIS também já não está ativo. É difícil trabalhar com tão poucos atletas e em que qualquer desistência é digna de nota?

PF: Sim, é muito difícil. Porque os atletas, primeiro, nenhum deles é profissional. Para conseguirem ter dinheiro para participar nas provas têm de trabalhar e, portanto, nenhum destes atletas portugueses é profissional. Depois, porque quando os atletas atingem uma determinada idade, dificilmente, eles têm de optar entre a carreira profissional e a carreira desportiva, porque muito dificilmente conseguem ter uma carreira de alto nível em termos desportivos que seja acompanhada de uma carreira profissional. E, portanto, muitas vezes, chegando ali a determinada idade, que foi o caso da Camille, ela não conseguiu conciliar as duas coisas e teve que desistir dos Desportos de Inverno que, em termos financeiros, são sorvedouros de dinheiro, ela não é remunerada por praticar as modalidades.

O Andrea foi diferente. O Andrea teve um problema físico na coluna e foi obrigado a ter que parar do ponto de vista competitivo, porque corria riscos para a sua saúde pelo facto de continuar a competir. Mas, sim, é muito difícil porque o leque de escolha que temos é muito pequeno, apostamos muito naqueles que consideramos que são muito bons e depois, quando acontece uma coisa destas, baralha-nos sempre um bocadinho a nossa vida. Mas tem de nos dar também aqui outro alento para encontrar alternativa.

BnR: E quais são os atletas portugueses a observar para além daqueles que já estiveram nos Olímpicos?

PF: No Cross-country temos já quatro ou cinco atletas portugueses, que já estiveram neste programa de formação, digamos assim, ou de tentativa de qualificação para os Jogos e que estão identificados e, portanto, que estão a fazer o seu trabalho e a fazer o seu caminho. Com o Kequyen agora no Canadá, vamos procurar desenvolver uma escola de Cross-country portuguesa com atletas portugueses residentes no Canadá.

Na Europa, temos feito junto das comunidades portuguesas o nosso trabalho. Temos dois atletas com enorme potencial no Ski Alpino, o Samuel Almeida e a Vanina, que têm feito um percurso nas camadas mais jovens muito interessante. O Samuel já começou a competir em provas FIS e a Vanina vai começar este ano, na próxima época, a competir em provas FIS. Portanto, temos já aí um bom potencial para aquilo que vem a seguir. 

Depois, temos também mais dois ou três atletas que estão ainda num grau inferior de competitividade. Alguns residentes em Portugal, que estão agora a começar as suas participações e que dentro de um ou dois anos começam a participar em provas da Federação Internacional, quando atingirem os 16 anos, e que esperamos podermos contar com eles no futuro, isto no Ski Alpino e no Cross-country. 

No Luge, temos o Hugo Alves no Japão, que vai continuar a fazer o seu percurso. E temos um conjunto de atletas identificados em modalidades novas que estamos agora a começar, Curling, Hóquei no Gelo. São modalidades que estamos agora a iniciar em Portugal e que temos ainda muito trabalho para fazer.

A construção de um Ringue de Gelo é um sonho ainda por realizar
Fonte: Pedro Farromba

BnR: Um dos sonhos que se ouve falar é o da construção de um ringue de gelo e, preferencialmente, integrado num centro de Alto Rendimento. Quão perto está este sonho de se tornar realidade?

PF: Eu posso dizer que já esteve mais longe, mas também não está perto. Eu diria que já fizemos uma parte do caminho e teremos de fazer o resto do caminho. Não tenho muito mais ainda para lhe dizer sobre isso. Estamos a fazer o caminho.

BnR: Quanto aquilo que a Federação consegue apoiar os atletas, uma das formas que a Federação tem para melhorar a sua condição é o ter assumido a gestão da Pousada da Juventude da Serra da Estrela. Como estar este empreendimento?

PF: Muito bem, está a correr muito bem. Nós ficamos com a Pousada em Janeiro de 2016. No final do ano passado, de 2017, em dois anos de gestão, duplicamos a faturação e mais do que duplicamos o numero de dormidas, portanto é um projeto que está a correr muito bem. Está agora numa fase também de reformulação porque vamos fazer agora uma candidatura para dotarmos a Pousada de um Centro de Recuperação de Atletas em Altitude. E, portanto, espero que dentro de um ano, a correr bem, possamos começar as obras para dotar a Pousada deste Centro de Preparação e Recuperação de Atletas em Altitude.

BnR: Olhando para o futuro, além desse trabalho de preparação desses atletas que já estão sinalizados, que tem a Federação feito para captar novos jovens talentos e para divulgar os Desportos de Inverno em Portugal?

PF: Sim, nós temos desenvolvido alguns projetos de promoção da modalidade junto dos mais jovens e eu cito aqui dois deles. Um deles é o Brincar na Neve, que é o projeto que funciona em regime de internato, se me permite a expressão, em que as crianças estão connosco durante quatro fins-de-semana de sexta a domingo na Pousada da Juventude da Serra da Estrela e depois têm aulas de ski com os nossos monitores. E, daí, vamos tentando perceber aqueles que têm mais jeito e que depois os vamos tentando cativar para os inscrever nos clubes da federação e eles depois fazerem o seu caminho.

Outro projeto de divulgação, esse mais um projeto massificado que temos, é um projeto que se chama Pizza Hut Ski for All e que já envolveu mais de 6000 crianças a nível nacional nos últimos anos e que tem sido realmente um sucesso e aí também procuramos encontrar jovens que tenham algum talento que possamos depois trabalhar para poderem vir a dar atletas.

Camille Dias e Arthur Hanse são dois dos lusos com melhores resultados em Jogos de Inverno
Fonte: Pedro Farromba

BnR: Posto isso, quais são objetivos a curto/médio prazo? E para quando pensa que poderemos ter um português a lutar por uma medalha nos Jogos Olímpicos?

PF: Essa é sempre aquela pergunta do milhão de dólares. É difícil responder a isso, depende de tanta coisa. Se me perguntasse quando é que eu gostava, gostava que isso acontecesse nos próximos Jogos Olímpicos. Se me perguntar se na realidade acho isso possível, não, eu acho isso difícil. Mas também não acho isso impossível. Honestamente, não lhe sei responder se sim ou não ou para quando exatamente, mas que estamos a fazer o caminho, estamos. E, portanto, eu espero que essa realidade se venha a verificar um dia.

BnR: Terminando numa nota mais pessoal, o que motiva o Pedro para dedicar a sua vida aos Desportos de Inverno?

PF: Pois, esse é um problema, é que eu não dedico a minha vida. Eu tenho de trabalhar também, porque eu não sou remunerado da Federação. Nenhum dos dirigentes da Federação é remunerado e, portanto, nós temos de conciliar muito com aquilo que é a nossa vida profissional.

BnR: O que é um esforço ainda maior.

PF: O que é um esforço ainda maior, muito maior. Para ter uma ideia, o ano passado tive seis dias de férias com a minha família. O resto foi tudo consumido nos Desportos de Inverno. Eu costumo usar uma expressão que as Federações são geridas de forma profissional por pessoas que são amadoras. Amadoras no ponto de vista em que não dedicam a sua vida exclusivamente aquilo. Não podem dedicar, porque têm que ganhar dinheiro noutros lados. Portanto, é muito difícil.

Agora, o que me motiva realmente é ver imagens como as que vi no final da prova do Kequyen. Se o nosso trabalho, se a nossa remuneração fosse o ver o sorriso daquela malta e ver a vontade com que eles fizeram o trabalho que eles tiveram, o esforço que eles fizeram, a forma como se superaram para chegar ali,… Se algum ressarcimento a gente pode ter das horas que dedica a isso, é ver o sorriso naquelas caras naqueles momentos.

Foto de Capa: Comité Olímpico de Portugal

José Baptista

Redação Bola na Rede · ver artigos